Onda de crimes põe em xeque área de segurança

Oito assassinatos em série na Grande São Paulo sublinham crescimento do banditismo nas ruas; governador Alckmin e secretário Ferreira Pinto se negam a relacionar fatos criminosos para não reconhecerem o caos; ataques a bases da PM prosseguem; é normal?

Onda de crimes põe em xeque área de segurança
Onda de crimes põe em xeque área de segurança (Foto: Edição/247)
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247 – O descontrole sobre o banditismo na Grande São Paulo está colocando em xeque o sistema de segurança pública do governador Geraldo Alckmin. Num cenário de baixa coordenação entre as polícias civil e militar, o secretário Antonio Ferreira Pinto vai colecionando ocorrências sem solução que crescem em volume e repercussão. Após a onda de assaltos a restaurantes e incêndios a ônibus, permanecem os ataques diretos de bandidos a bases da PM e, na madrugada desta sexta-feira 13, oito assassinatos em menos de três horas, em Osasco, acuaram definitivamente o modelo de policiamento. A maior chance de identificação dos criminosos, que estavam em um carro e uma motocicleta quando passaram atirando em transeuntes de ruas de bairros vizinhos do município, está nas imagens gravadas por uma câmera de segurança de uma escola. No entanto, não há nenhum plano anunciado para a instalação de mais câmeras nas vias da Grande São Paulo. As autoridades nem sequer admitem haver uma verdadeira crise no setor, optando por considerar os eventos dos últimos meses como isolados. A falta de reconhecimento da situação de caos é o primeiro erro a impedir a correta ação contra o crime que se dissemina por todas as regiões da capital e cidades vizinhas.

Abaixo, notícia sobre os assassinatos em série em Osasco:

São Paulo – Em menos de três horas, oito pessoas, algumas sem ficha criminal, foram executadas em Osasco, na Grande São Paulo. Um grupo aproveitou o barulho dos rojões da festa palmeirense pela vitória na Copa do Brasil para fazer pelo menos seis ataques. Os crimes aconteceram entre 1h27 e 4h20 em seis ruas de quatro bairros vizinhos da cidade: Jardins Mutinga, Canaã, Munhoz Júnior e Rochdale. De acordo com o delegado Mauro Guimarães Soares, responsável pela Delegacia Seccional de Osasco, características similares dos suspeitos foram citadas pelas duas vítimas sobreviventes e pelas testemunhas já ouvidas.

O crime foi praticado por homens num carro popular e numa moto esportiva de alta cilindrada. "A gente presume que sejam os mesmos autores (dos crimes), pelo horário que aconteceram, pela proximidade entre os bairros e pelo modus operandi. Seriam um ou dois grupos em combinação", disse Soares.

Uma equipe de investigadores percorreu cada um dos pontos recolhendo relatos. Na Rua Jade, por exemplo, as imagens da câmera de segurança de uma escola, com gravação 24 horas, foram solicitadas. A hipótese de que tenha sido um acerto de contas ou uma briga de quadrilha, segundo o delegado, também não está descartada. Dos 10 homens baleados, cinco tinham passagem pela polícia – por roubo, assalto, ameaça, entre outros crimes – e alguns, de acordo com familiares, usavam drogas. Os crimes ocorreram na frente de bares ou de pontos de venda de drogas, de acordo com a polícia.

Foram mais de 50 tiros, com pistolas de calibre 380 e 0.45. Cada vítima levou pelo menos seis tiros. Revólveres também podem ter sido usados, mas, como não deixam cápsulas, as balas só poderão ser identificadas após perícia. Adriano Barbosa da Silva, de 25 anos, levou o maior número de tiros: 12, na frente de uma mercearia na Rua Jade. Ele é um dos mortos que não têm passagens pela polícia. O morador de um sobrado na frente disse conhecer o rapaz, mas informou que ele não costumava frequentar a rua. Estaria passando quando foi atacado. "Ouvi os disparos e quando cheguei perto da porta vi um corpo caído no chão", disse o morador. "Em 36 anos, isso nunca tinha acontecido aqui, é uma rua bem tranquila", afirmou.

Ainda durante a madrugada, os homicídios chegaram a ser atribuídos pela Polícia Militar a uma retaliação a torcedores do Palmeiras, por causa da conquista da Copa do Brasil. No início da manhã, porém, a própria PM corrigiu a informação. Rosana Cardoso de Godoy, de 25 anos, irmã de Robson Cardoso de Godoy, de 22, um dos assassinados, conta que o irmão, torcedor do São Paulo, era usuário de drogas. Ele morreu na Rua Cuiabá. "Ele usava cocaína, mas nunca fez mal a ninguém", ressaltou a irmã.

RIXA DE FUTEBOL É DESCARTADA

Rodrigo Roberto Longarini, de 23 anos, não acredita que a morte do pai, o funcionário público Marcelo Lúcio Gaspar Longarini, tenha sido motivada por futebol. Segundo ele, Marcelo, que trabalhava na Universidade de São Paulo (USP), era corintiano e deve ter saído de casa para assistir ao jogo.

Essa hipótese de que ele foi morto por causa de time eu já descartei. Ele deve ter ido a algum local que tenha televisão grande ou telão. Na volta, ele foi baleado", disse enquanto aguardava a liberação do corpo no IML de Osasco. O funcionário foi atingido na Rua Palmital, no bairro Munhoz Junior.

Já o pai do autônomo Denis dos Santos, de 34, acredita que o rapaz foi atingido pelos disparos por engano na Rua Santo Expedito, no Jardim Canaã. "Para mim, ele era um filho exemplar. Eu perdi um pedaço de mim", afirmou o gráfico Luiz Carlos Santos, de 60. Uma irmã de Denis contou ao pai que ele foi baleado quando procurava abrigo em um bar. "Ele ouviu o barulho de tiro e bateu na porta do bar. Eles abriram e ele foi atingido lá dentro. Acredito que ele estava naquela hora no local errado", afirmou.

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