Os violentos

Além dos casos Isabella e Eloá, a crônica de martirizações foi dilatada em 2008: caso João Hélio, a menina Lucélia, em Goiânia...

Vejamos o capítulo “O Sertanejo”, do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. O escritor descreve uma das figuras mais típicas da brasilidade como a quem “falta-lhe a aparência impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gigante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. “
Corriam dias de névoa fantasma no ABC Paulista naquele 13 de outubro de 2008. Auxiliar de produção de uma fábrica da Bombril, Lindemberg Alves, filho de paraibanos, era algo parecido com esse sertanejo perdedor, para os amigos. Um derrotado de 22 anos de idade, que iria fazer de seu trabuco um instrumento de mil utilidades, como a buchinha que ele produzia na fábrica.

Eis que, com o sangue inquinado de paixão por Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, decretou, segundo a amiga-refém Nayara da Silva (e já com a arma nas mãos), que naquele episódio passava de perdedor a "príncipe do gueto". Nesse momento de irresolução, Lindemberg está no pleno domínio de suas potências. Enganou a polícia primeiro, para depois enganá-la novamente. E assim converteu-se naquelas próximas linhas em que Euclides da Cunha relatava a transmutação do sertanejo fracote no nordestino homem-potência. "O homem transfigura-se. E a cabeça firma-se alta, sobre os ombros possantes, aclarado pelo olhar desassombrado e forte; e da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.

"
Naqueles dias em que Lindemberg saiu na mídia de todo o Brasil, ora tentando matar as duas meninas que mantinha como reféns, ora explicando, ao telefone e em tempo real, que era capaz de morrer e matar por paixão, o país já estava matizado e refervido de um novo estigma. Os vocábulos "menino" e "menina" passavam a desfilar nas notícias sobre martírios. Havíamos tido, no Rio de Janeiro, o menino João Hélio, arrastado à morte por bandidos. Em São Paulo, era o caso da menina Isabella Nardoni, supostamente trucidada pelos pai e madrasta, como vendeu a imprensa. Em Curitiba, logo depois, Rachel foi encontrada morta e esquartejada em uma mala. Em Goiás, uma menina era mantida amarrada pela tutora — e assim foi mantida, mesmo com o caso descoberto, até que a imprensa pudesse chegar para filmá-la ainda agonizante sob as cordas.

O finado e refinado diplomata José Guilherme Merquior, a quem o pensador francês Raymond Aron costumava chamar de o único brasileiro que "leu tudo e tudo entendeu", sempre dizia nada esperar da mídia. Achava-a efeitista, ou seja: as pessoas gostam da mídia porque, em geral, ela não produz significados, mas gera efeitos - sejam friozinhos na barriga ou pontadas pungentes nos corações. O ensaísta italiano Umberto Eco gosta de dizer que os martírios atraem porque, ao contrário das narrativas religiosas, cujos finais todos conhecem, jornais em geral vendem fins de histórias absolutamente insondáveis. Do outro lado, os que usam da mídia para lucrar popularidade sabem bem disso. O cineasta Alfred Hitchcock admitia que "não existe terror no estrondo, apenas na antecipação dele". O ex-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, gostava de dizer que "as pessoas reagem ao medo, não ao amor". E Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, orgulhava-se de ter detectado que "falamos sempre não para dizer algo, mas para obter algum efeito". O niilismo coquete da mídia consiste em juntar tudo isso bem ajuntado e ofertar um pacote cujas decorações, ultimamente, têm sido ornadas dos vocábulos "menino" e "menina" ligados a situações de mártires ou martirizadores.

Além dos casos Isabella e Eloá, a crônica de martirizações foi dilatada em 2008. Começamos em 7 de fevereiro, quando o carioca João Hélio Fernandes Vieites, de 6 anos de idade, preso a um cinto de segurança, foi arrastado à morte por 7 quilômetros pelos monstros que assaltaram sua mãe. Em 17 de março, a menina Lucélia Rodrigues da Silva, de 12 anos, foi torturada a ferro de passar roupa, martelo e alicates, em Goiânia, na casa da empresária Silvia Calabrese, que a empregava. A tese de mestrado da jornalista Lillian Bento, da Organização Jaime Câmara, revela que as autoridades policiais mantiveram a menor atada, da forma deixada pela pátria algoz, até que a imprensa chegasse para poder filmar o martírio e projetá-lo em cadeia nacional. A 5 de novembro, a menina Raquel Maria Lobo Oliveira Genofre, 9 anos, foi encontrada, vítima de estrangulamento e violência sexual, dentro de uma mala abandonada na Rodoferroviária de Curitiba.

Cláudio Marcos Picazio, psicanalista paulistano, autor da obra Sexo Secreto (Ed. Summus), com mestrado em violência doméstica, é um especialista no tema. "A mídia precisa desse tipo de caso porque ele esbarra nas nossas próprias possibilidades de perdermos o controle. Quem já não perdeu o controle por amor? Vejamos o caso dos Nardoni: ele estava em um domingo no supermercado com a família e três crianças. Poderia estar cansado, quase ultrapassando seus limites. As pessoas que acompanharam o caso projetaram nos Nardoni as suas possibilidades de perderem o controle. Naquela semana da morte da Isabella, alguns pacientes começaram a se mostrar preocupados com seus filhos", avalia. Nesse ponto, diz Picazio, os martírios são alertas. O martírio do outro serve como a minha purgação, como a minha redenção. "O humano não sabe lidar com suas questões de limite, como perda, raiva, frustração. Precisamos olhar para os limites externos, dos outros. Afinal, todos já quisemos alguma vez matar alguém. Soube de uma paciente que na semana do caso Isabella sem querer bateu a cabeça do seu filho contra a parede ao dar banho nele. Ela se preocupava muito com o caso Nardoni."

E nesse sentido, prossegue o psicanalista, que o martírio de Cristo na cruz nos é o bom martírio. "Cristo está lá na cruz para nos redimir, para nos mostrar que as injustiças que sofremos, afinal de contas, podem nos levar a um bom lugar, como o dele, Cristo. Esses casos de martírio só vão para a mídia quando acontecem da classe média para cima: esses martírios só ficam famosos quando não se justificam pela pobreza. Afinal, se pobreza redundasse em violência, a índia seria o país mais violento do mundo."
Sociólogo predileto do cineasta Michael Moore, Barry Glassner, autor de Cultura do Medo (Ed. Francis), traz alguns dados que jogam luz na questão. "Em uma pesquisa nacional, indagadas sobre por que acreditam que os Estados Unidos apresentam um sério problema em relação ao crime, 76% das pessoas citaram matérias vistas na mídia. Apenas 22% alegaram experiência pessoal", aponta ele.

Seus dados são estarrecedores: entre 1990 e 1998, quando o índice de homicídios dos Estados Unidos caiu 20%, o número de histórias sobre assassinatos nos noticiários aumentou 600%. Tem mais: a jornalista Debbie Nathan e o advogado Michael Snedeker provaram que, graças à mídia, nos anos 90, sete entre dez americanos passaram a acreditar em crianças sendo martirizadas, em escala industrial, em rituais satânicos - cujos incidentes, em um ano, não passavam de três.
 No Brasil não temos ainda nenhum estudo mostrando como a mídia produz martirizações, com vários tons acima do real. Mas nos Estados Unidos, pôr a mídia em xeque é uma tradição acadêmica. Em 1996, por exemplo, o jornalista Bob Garfield coletou tudo o que saiu sobre doenças graves, por um ano, nos jornais The Washington Post, The New York Times e USA Today. Os três periódicos mostraram que havia nos Estados Unidos, somando os números divulgados, 543 milhões de norte-americanos gravemente doentes, em um ano em que a população somava 266 milhões de almas. E mais ainda: entre 1994 e 1995 mais de 500 reportagens foram publicadas revelando que 2,2 milhões de pessoas eram atacadas em seus trabalhos por criminosos. O repórter do Wall Street Journal, Erik Larson, provou que os números não eram verdadeiros. Sua reportagem, chamada "Uma Crise Falsa", denunciava como a mídia criava falsas crises de violência. Por exemplo: o índice de assassinato real de funcionários em locais de trabalho, nos Estados Unidos, era de apenas, por ano, 1 caso a cada 114 mil.

Maria Fernanda Tourinho Peres é uma médica que trabalha no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo. Está lá, como médica, justamente para tratar de crimes, que ora já são vistos como epidemias. Ela é uma das autoras do livro Homicídios de Crianças e Jovens no Brasil 1980-2002. A obra revela que, de fato, as maiores vítimas de homicídios, entre 1980 e 2002, são jovens e adolescentes entre 15 e 19 anos, que correspondem a 87,6% dos casos. O martírio de jovens nesse tipo de crime não pode ser negado como tendência mundial: estima-se que, pelo último levantamento global, que é do ano 2000, ocorram pelo menos 200 mil homicídios por ano, em todo o planeta, cometidos contra jovens entre 10 e 29 anos de idade. Maria Fernanda afirma que "quantitativamente, o fenômeno de violência entre jovens não é novo, ele apenas toma novas feições. Uma dessas feições é a teatralização, que é a forma de tratar a violência acriticamente, sem tentar mudá-la. Esse tipo de caso sempre demanda por respostas miraculosas". Para ela, "sabemos que os jovens lutam por símbolos de poder e consumo e que o envolvimento no tráfico é uma via de inserção profissional; daí o crime surge como alternativa. Mas resolver isso passa por perspectivas de futuro, não apenas discussões sobre os fatos presentes. Esses casos de martirização transformam esses eventos de violência em novelas, em que se espera pelo próximo capítulo, peto próximo quadro, pelos próximos resumos".

A reportagem prossegue na cata das grifes mais glamurosas da análise de crimes. E, quando se trata de crimes passionais, a procuradora de Justiça Luiza Nagib Eluf é apontada como uma autoridade na área. Autora do clássico A Paixão no Banco dos Réus (Ed. Saraiva), ela salienta: "Crianças e adolescentes entraram precocemente no mundo dos adultos. Eles também amadurecem mais devagar; aos 30 anos ainda parecem adolescentes. Mas, paradoxalmente, entram no mundo dos adultos muito antes. Antigamente, criança jantava separada dos pais; hoje participa das discussões dos adultos, tem acesso ilimitado a tudo, não há mais barreiras. Assim, sexo e violência entram precocemente na vida desses jovens". Para Eluf, "o resultado é que esses adolescentes agem como adultos, mas não têm maturidade para isso, não têm experiência da vida real, vivem tudo no mundo virtual. Maturidade é lidar com situações reais, mas os nossos jovens, como têm soluções ao alcance do botão, estão cada vez mais fazendo risco de confusão entre a vida real e a virtual".
Mas o caso da martirização não pode ser apenas julgado pelos teóricos do tema. Buscamos ainda os personagens que viveram na carne os casos Eloá, Isabella e João Hélio. Paulo Henrique Monteiro da Silva, amigo de Eloá e Nayara, 15 anos de idade, disse: "Não vi exagero, acho que a mídia teve cuidado com muita coisa. Só nunca tinha visto violência desse jeito na minha vida". Pedro Pereira, tio de Eloá, acredita que: "Houve machismo por parte da mídia, como se justificassem o crime de Lindemberg como gerado por um ciúme legítimo. A mídia exagerou e colaborou muito na barbaridade. A polícia não deveria ter esperado tanto, matasse ou não os envolvidos". Eduardo Lopes, advogado de Lindemberg, decreta: "A mídia colaborou com o martírio porque entrou no ar atrapalhando as negociações, algo totalmente fora de propósito. A divulgação da violência em tempo real incentiva, sim, a própria violência". Ele muda o tom de voz, e solta um leve riso ao fone: "Acredito que ele teve seu dia de fúria, como todos nós temos os nossos, como no filme". Ibatuan Lourenço Alves, tio de Lindemberg, que ganha a vida como mecânico de autos, acusa a mídia de martirização. "A imprensa só vê o lado dela, sempre, colaboram sempre para piorar os dramas e nesse caso passou da conta." Luciano Vieira, pai de Nayara, metalúrgico, vai pelo mesmo caminho: "O grande martírio dessa história toda foi a mídia entrar em contato direto com a cena do crime. Isso atrapalhou muito, mas a imprensa tem optado pelo excesso de crimes - e as crianças são confrontadas com esse mundo muito antes do tempo".

No caso Isabella, o avô da vítima, o advogado Antônio Nardoni, fez questão de tecer longos arrazoados. "Se houve martírio, foi o praticado pelo processo midiático muito grande e irresponsável que divulgava fatos sem confirmação. A mídia transformou o casal em dois monstros, divulgando evidências não confirmadas. Os jornais cobraram fortemente as autoridades que ficaram condicionadas a dar dados não verídicos. O martírio é praticado por emissoras que vivem do ibope, vivem de blitzes policiais, de escândalos todos os dias. Minha neta virou um exemplo de martírio. O culpado está por aí, os laudos não comprovam nada. Apareceu uma camiseta com sangue, uma camiseta que não é do meu filho. De quem é essa camiseta? Me responde." Quem está do outro lado da questão, e acredita na culpa da madrasta e do pai de Isabella, fala pouco. É o caso da mãe da menina, a bancária Ana Carolina. Educada, mas lacônica, pede desculpas por não poder ser mais efusiva. "Se eu te falar algo positivo, posso complicar a situação. Se eu te falar algo de negativo, posso fechar algumas portas. É que o caso ainda está correndo. Se eu falar se houve ou não martírio, eu posso estar me metendo em uma situação muito complicada." O pai do menino João Hélio, Elsen, pede desculpas antecipadas pelo seu laconismo. "Não tenho feito mais declarações sobre isso. Não quero falar sobre martirização, não tenho falado, não quero nunca mais falar sobre isso, peço desculpas, mas jamais me procure para falar sobre isso de novo."

Detentor de um recorde mundial, com a redação de mais de 10 mil laudos sobre homicídios bárbaros, desde 1974, o psiquiatra forense Guido Arturo Palomba é apontado como um dos maiores experts em violência. Este ano lançou sua obra Tratado de Psiquiatria Forense (Ed. Atheneu), um cartapacio de 900 páginas. Analisou pessoalmente as mentes criminosas mais deturpadas do Brasil, como o maníaco do Parque do estado de São Paulo, Francisco de Assis Pereira, o atirador que fuzilou pessoas em um shopping paulistano, Mateus da Costa Meira, o matador de prostitutas Chico Picadinho e também o monstro do Parque Trianon (SP), Fortunatto Botton Netto - que torturava suas vítimas com nós de marinheiro. Palomba é sempre categórico. "Esse tipo de violência e martirização sempre existiu, mas agora está visível a todos, o que torna esses crimes mais precisos e rápidos. O que posso te dizer é que agressões e martírios cometidos dentro de casa por pais, mães, padrastos ou madrastas têm como regra básica o fato de que pelo menos um deles têm problemas de saúde mental. Quando temos dois adultos ou mais martirizando uma criança, ocorre aquilo que os franceses chamam de folie-à-deux, ou loucura a dois, em que um é o indutor do outro. No caso Nardoni, o que me chamou a atenção foi o martírio em que o ator de repente passou a ser uma boneca, a boneca tomava conta do espetáculo."

A Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) é a maior da América Latina em análise de noticiário juvenil. À Andi cabem os cânones que dão temperatura ao que a mídia produz sobre crianças, acima de tudo. Guilherme Canela, coordenador de relações acadêmicas da entidade, aponta nas martirizações espetáculos técnicos de mídia que abrem mão de discussões mais profundas. "Os casos são tratados individualizados, não se discutem as políticas de segurança pública, não se discutem os motivos. No caso Isabella, perdeu-se a discussão sobre a política de combate à violência doméstica. A martirização não alavanca as discussões." Para Canela, a mídia não respeita o Estatuto da Criança e do Adolescente nem a convenção sobre os direitos da criança. "Quando se trata de crianças que já morreram, não há mais respeito sobre essa imagem. Como se os mortos não merecessem respeito. As famílias também são entrevistadas em condições emocionais em que não têm condições de avaliar a sua própria superexposição. As pessoas não sabem nem têm como saber o que é estar no Fantástico falando por 20 minutos. "
Pai espiritual do filósofo francês Jean Paul Sartre, o alemão Martin Heidegger costumava estabelecer uma diferença seminal entre medo e angústia. Para ele, o medo se erige sobre um objeto real; já a angústia se constrói sobre o nada. Se cremos no que Heidegger escreveu, o gênero humano é capaz de qualquer coisa para sair do seu estado de nada, de angústia pura. Seres humanos são capazes de mover montanhas para ter um medo para chamar de seu. Talvez esteja aí o sucesso de A Bruxa de Blair (1999). Acostumados que estávamos a tubarões, a jasons, achamos o máximo um filme que nos dava o nada: ventos, galhinhos, cordinhas, barulhos. Toda essa teoria indica que não gostamos do vazio que é o nada. O medo antropomorfizado, que é o construído sobre figuras humanas, os martírios, são o barato, o papelote que a mídia dá de barato, independentemente dos índices de criminalidade. E é necessário saber da diferença filosófica entre medo e angústia para conversar com o Nelson Massini, o maior médico legista do Brasil. Ele reabriu o caso da morte de PC Farias, ex-tesoureiro de campanha do ex-presidente Collor e trabalhou na apuração da morte do líder Chico Mendes. Massini esclareceu ainda o caso do carrasco nazista Josef Mengele e reabriu os casos das mortes dos guerrilheiros Lamarca e Marighella.

Falar de crime e não consultar Nelson Massini é um crime, pleonasmos à parte. "Por diversas vezes procurei explicações, algumas mais pragmáticas, outras através da neuro-ciência ou então juntando as duas na avaliação. Inicialmente trabalhei com o entendimento do homem sobre a morte, esse desconhecido que só é observado no semelhante e não imaginamos para nós. Quando essa relação não é assimilada ou trabalhada pelo homem, esse fenômeno torna-se incompreensível e, portanto, inaceitável." E o médico continua, "mais grave ainda para aceitação é que a morte seja determinada por violência e contra criança ou jovem. Por outro lado, essa reação de medo desencadeia uma forte reação orgânica de estresse e ansiedade que é nutrida pela seriação na evolução dos fatos, são ocorrências que atingem muito profundamente a todos explicadas pelo medo da morte e pela ansiedade e estresse de ser também a próxima vítima". Massini salienta que mais marcante ainda quando se prolonga esse estresse apresentando em série, as mídias saturam a todos com uma gota de estresse diária e assim alimentam o medo que é a fonte maior. "O ser humano, por ter medo do desconhecido e do inaceitável, no caso a morte e principalmente a prematura, se torna necrófago. Evidentemente que todos os meios de comunicação utilizam dessa necrofilia para atrair o ser humano que são seus leitores, telespectadores, ouvintes e outros. E vou mais adiante, essa ansiedade criada poderá ser aliviada pela interrupção da morte ou, se inevitável, pelo castigo àquele que deu origem, que para os humanos corresponde à justiça. Isso explica o sucesso dos filmes e livros envolvendo a morte e sempre com justiça no final para aliviar o estresse criado. Portanto, para todos os casos referidos, houve a necrofilia, o medo e o estresse marcados pela imprensa e ficou em nós um profundo sentimento de angústia pela falta de justiça."

O jornalista, professor, doutor em comunicações e assessor de imprensa Arquimedes Pessoni de uma hora para a outra passou a ser reconhecido nas ruas. Afinal, como assessor da prefeitura de Santo André, no caso Eloá, Pessoni viu-se estampado em todas as tevês do Brasil. "O fato jornalístico acabou perdendo lugar para o espetáculo: o que era para ser uma notícia, limitada a espaços jornalísticos, ganhou contornos de novela e espetáculo popular, que, com o auxílio da mídia, foi ampliado usando vários ingredientes que fizeram com que a população, por mais de 100 horas e por dias depois do fato, continuasse a se interessar pela vida de todos os personagens. E olha que os personagens realmente tinham histórias (inclusive só reveladas a posteriori)... A vítima (Eloá) aparecia vez ou outra na janela de seu castelo de classe D/E pedindo calma aos pais e aos milhões de espectadores, colegas e familiares, na esperança de que o dragão seria domado. Tal como o filme Tubarão (1975), o malvado Lindemberg não se mostrava de rosto inteiro, apenas espreitando por traz da vítima, indicando que poderia atacar a qualquer momento. Só faltava a trilha sonora. O que os jornalistas que elegeram o fato perguntavam a cada momento era a mesma coisa: 'Será que ele irá libertá-la? Poderá a melhor amiga ajudar na sua libertação?'. O vilão também soube usar a mídia como ferramenta de defesa e de ganhar notoriedade, contando com o auxílio de alguns profissionais, que, na ânsia da exclusividade, colocaram a perder o controle da situação." Pessoni não perdoa. "O inusitado critério de noticiabilidade, a duração do seqüestro, acabou conquistando pouco a pouco todos os meios de comunicação que acabavam poi cobrir o evento mesmo fora de horários jornalísticos com medo do 'furo' da concorrência e na expectativa de libertação, que, segundo os envolvidos, poderia se dar a qualquer momento. O desfecho infeliz acabou gerando a quase beatificação/martirização da vítima fatal (Eloá) e a elevação ao nível de popstar da amiga Nayara, que, para a alegria dos flashes, apareceu refeita e sorridente após alguns dias de recuperação." E ainda ficam algumas dúvidas, passados meses do caso. "Tal como Jesus, que deu a vida para salvar a humanidade, a pobre Eloá passou por maus bocados ao lado da fiel amiga e deu a vida, por meio de seus órgãos, para que outras pessoas sobrevivessem. Virou mártir. Conseguiu chamar a atenção para as condições ruins de vida de uma população de centenas de Eloás e Nayaras que só são lembradas em tragédias como essa. Seu enterro virou fato jornalístico disputado ponto a ponto no Ibope pelas emissoras de TV e ganhando primeira página de muitos jornais brasileiros e estrangeiros. A culpa do espetáculo é do telespectador ou das emissoras?"

Em agosto de 2005, jantei em Londres com meu colega de Associação Internacional de jornalismo lnvestigativo, o escritor Phillip Knightley - autor do tido e havido como o maior clássico sobre a literatura de jornalismo de guerra, a obra A Primeira Vítima (Ed. Nova Fronteira). Phil é um sarcástico de carteirinha. E por aqueles dias estava pondo na praça sua mais nova edição da obra, lançada em 1975
E que, agora, na mais recente edição, traz um capítulo sobre a Guerra do Iraque. Knightley confessou que a frase por ele mais ouvida, dos oficiais militares de imprensa, é que para influenciar a mídia "você deve caprichar mais no tom e na forma do que propriamente na mensagem, porque a mensagem acaba sendo, ao final das contas, o tom e a forma". Enveredamos pelos mágicos rigores gerados por obras fundamentais. Lembro que tratamos de martirização. Para Knightley, havia algo de cultura pop nos homens-bomba-mártires, que deixavam, para passar na tevê, aqueles vídeos com eles jurando morte aos Estados Unidos, com bandanas na cabeça e armas e bombas em punho. "Eles morrem para deixar esse legado para passar na TV Al-Jazeera. Talvez esses coitados tenham nisso suas MTVs, e em seus martírios, as suas bandas de rock. Talvez a cultura pop deles seja o martírio."
Encerramos a conversa com Phil Knightley sugerindo a leitura de um capítulo da obra Massa e Poder (Ed. Cia das Letras), de Elias Canetti (Prêmio Nobel de 1962), chamado "A Festa Xiita do Muharram". A saber: Ali, genro do profeta Maomé, casou-se com Fátima. Geraram os filhos Hassan e Hussain. Na planície de Kerbela, no Iraque, no ano de 680, Hussain foi tocaiado e morto com 87 seguidores. Seu cadáver foi encontrado com 33 estocadas de lança e 34 golpes de espada. Sua cabeça, cortada e enviada a um califa em Damasco. Phil Knightley me explica que os Estados Unidos jamais derrotarão a parte terrorista dos xiitas radicais porque eles se martirizam copiando a martirização de Hussain. Eles têm os seus, nós temos os nossos. Cada época gera, lacunarmente, os mártires de que necessita.
Fica de tudo isso a pergunta sobre a validade do coro báquico dos consumidores de catástrofes, sobre a vontade de justiciamento das famílias lesadas, sobre os que tentam desventrar suas tragédias dançando em rodopios, sobre os que jogam com o sonho da vingança. Fica a pergunta sobre o poder irruptivo que a martirização pode gerar em cada um de nós.

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