PDT rejeitou aliança com PT desde 2017

Economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor da Unicamp e integrante da Fundação Perseu Abramo, relata os bastidores das conversas entre o PDT e PT para formação de uma aliança e revela que o partido de Ciro Gomes nunca pretendeu estar junto com o de Lula; estudioso acrescenta que agora o PDT "terá que conviver com uma parte não desprezível que já se aproximou de Bolsonaro" e o PT "reconstruir suas forças numa resistência em condições bem difíceis"

PDT rejeitou aliança com PT desde 2017
PDT rejeitou aliança com PT desde 2017

Por Pedro Paulo Zahluth Bastos, em seu Facebook

Não ia falar sobre isso para não alimentar cisânias no próprio campo, mas vários ciristas que não pararam de fazer campanha Ciro 2022 no segundo turno de 2018 estão apenas repetindo o mesmo calculado discurso antipetista de 2017. E ainda por cima esquecem que Lula ofereceu os 40% que obteve (e que Ciro nunca achou que Lula obteria) para o próprio Ciro, que não aceitou porque não foi no jeito e no timing que queria. Reginaldo Moraes lembra aqui dos cálculos de Ciro Gomes (e Mangabeira Unger) que deram errado:

"A idéia de chapa PT-Ciro ou de Ciro apoiado pelo PT nunca foi possível. E por uma decisão do próprio Ciro e do PDT. 
Conta estória, tal como a testemunhei. Minha intenção não é esculhambar o Ciro, nem atribuir a ele qualquer resultado. Apenas esclarecer porque acho um tremendo erro “explicar” suas atitudes como “resposta” ao fato do PT não ter abraçado sua candidatura. Essa “explicação” não me convence, pela estooria que segue abaixo. Na verdade, acho que é história, não estória, não invento nada.

Final de junho ou começo de julho de 2017. Não me lembro a data exata. Marcio Pochman, que presidia a Fundação Perseu Abramo, pretendia promover encontros entre as fundações dos partidos de esquerda, para facilitar o diálogo de uma eventual frente anti-golpe. Aquela era a primeira reunião, se a memória não me trai. A fundação do PT, a do PDT, a do PCdoB. Foi no centro de São Paulo, na sede do PCdoB, próximo da Praça da República.

Não vivo por dentro as conversas entre partidos. Longe disso, nada sei. Mas, como pude assistir àquele debate, desde logo fiquei convencido de que era inútil buscar essa frente se ela tivesse como elemento central as eleições. Acontece, porém, que esse seria o elemento central, inevitável – as eleições eram um elemento central, gostássemos ou não. Durante aquela reunião, representantes do PDT fizeram uma série de intervenções muito articuladas, claras e definidas. Eram dirigentes, inclusive aquele cotado para “ministro da fazenda” de Ciro.

Expunham com clareza que já haviam decidido sua trajetória – teriam um candidato, Ciro, e uma estratégia de campanha: diferenciar-se do PT, bater no PT. Não tinha nenhuma ambiguidade. Partiam de um pressuposto: Lula não poderia ser candidato, estava aberto o campo para uma nova liderança. E ela teria que se diferenciar claramente do PT. Ele ficaria com os despojos do condenado. Mas para quê se diferenciar e bater no PT? Por quê? Aí já era menos claro – havia mais de um motivo. A meu ver, pelo tom das análises que expuseram naquele encontro, o objetivo número um era escapar dos tiros destinados ao PT pela mídia, pelo judiciário, etc. Mais havia outro objetivo, ainda que relacionado com esse: conquistar os votos dos anti-petistas, disputar uma parte daquilo que se costumou chamar de “coxinhas”, os eleitores simpáticos ao impeachment. Para isso, era preciso se distanciar do PT e mesmo bater duro no PT. Isso estava definido e claro, muito antes de qualquer conversa sobre chapa, eleições, candidaturas. Era uma premissa inegociável. A tentativa, pude perceber, era atrair o PCdoB para essa manobra engenhosa – o vagão PCdoB deveria trocar a locomotiva Lula, impedido e provavelmente preso, pela locomotiva Ciro. 

Depois pude perceber que havia até um “pensamento” por detrás disso, além, claro das naturais e legítimas ambições políticas. E o “pensamento” genial era construído e verbalizado pelo guru de Ciro, Mangabeira Unger, o ET de Boston. Ele expôs sua visão do processo em várias ocasiões - talvez a mais incisiva foi a de uma entrevista para Paulo Henrique Amorim, no site Conversa Afiada. Incisiva e até mesmo caricata, a meu ver. Primeiro, tagarelou fartamente sobre as políticas de engodo do petismo – era uma pílula de açúcar, dizia ele, um engodo. Em seguida, pregava sua alternativa: uma política de “empoderamento” e “equipagem” dos empreendedores pobres. Nesse ponto, ele se viu diante de uma pergunta mais direta do repórter, que parecia muito simpático às idéias do entrevistado: vocês não precisam dos votos do PT para ganhar? Ele não vacilou: não. Como o PT não havia registrado os votos em cartório, isso queria dizer, evidentemente, que não era necessário fazer concessões a bandeiras, programas e pessoas do PT. Aliás, pelo tom do guru e dos militantes que mencionei acima, era preciso, pelo contrário, bater nessas bandeiras, programas, pessoas. 

Assim, o direcionamento da campanha não foi tão surpreendente. Ainda que com alguma ambiguidade, porque de vez em quando Ciro derrapava e fazia algum aceno ao PT, sobretudo depois da desastrada tentativa de ganhar apoio do tal Centrão e do DEM. 

Em suma, parece muito claro que a estratégia estava desenhada e não permitia flexibilizações. A rigor, na versão mais dura da estratégia, a de Unger, desconfio que não cabia sequer um apoio do PT a um candidato do PDT, para não prejudicar a atratividade do candidato “alternativo”.

Não deu certo, como sabemos. Apesar de todo esforço e todas as concessões, Ciro não conseguiu o apoio da direita. Foi um apoio que buscou a todo custo – seu guru genial chegou a dizer que o DEM não era um partido de direita, era um partido de “empreendedores regionais”. Uma graça. E Ciro se distanciou da esquerda, demarcou a diferença. Seu partido tinha algum tempo de TV (mais do que Bolsonaro, aliás), mas era frágil no trabalho de campo. E uma parte do partido, claramente, jogava em outro campo. Depois dos resultados de primeiro turno, o presidente do partido chegou a “liberar” aqueles que quisessem apoiar Bolsonaro. Em suma, o candidato Ciro dependia de seu próprio talento de polemista e agitador. Não era suficiente. Como dissemos, precisava ganhar algo no chamado Centrão ou no DEM, movimentando-se mais para a direita – tentou, mas chegou tarde. Ou juntar PSB e PCdoB. Tentou isso também, argumentando que a candidatura Lula era uma fraude, que ele, Ciro, era o único viável. Também não foi suficiente, o PSB, que poderia dar um bom tempo de TV, tinha o que garantir ficando no muro. Inclusive o governo de Pernambuco e, talvez, o de São Paulo.

Assim, foi o que se desenhou na reta final. A idéia de uma chapa PT-com-Ciro ou, mesmo, uma chapa de Ciro apoiado pelo PT (que desistiria de ter candidato) sempre foi uma absoluta miragem – pelo simples fato de que era rejeitada pelo próprio Ciro, pelo seu partido e, claro, pelo genial guru rabugento que de vez em quando vem ao Brasil para deitar falação doutoral. Esses eram os cálculos e as apostas na mesa. Repito: isso tudo me parece indicar que nunca houve qualquer expectativa (e mesmo desejo), por parte do PDT e de Ciro, de ter chapa conjunta com o PT. A rigor, mesmo o apoio seria mal recebido, porque comprometeria sua estratégia de construir uma identidade “terceira via”, “para além do ódio e da divisão”, etc.

Agora, o que resta é ver o que sobra para o futuro. Mesmo para o PDT, terá que conviver com uma parte não desprezível que já se aproximou de Bolsonaro. Para PT, reconstruir suas forças numa resistência em condições bem difíceis – mas com uma bancada significativa na Câmara federal e alguns governadores. O PCdoB será atingido pela cláusula de barreira, no parlamento, mas tem um governador. Para o PSOL, tentar tirar proveito da pequena bancada, que foi suficiente para escapar à cláusula de barreira. Tudo isso, claro, é especulação, porque ainda é cedo para saber onde vai desaguar o desatino filo-fascista do novo presidente."

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