Por que Padilha tem medo de ser de esquerda?

Ministro da Saúde desiste da contratação de seis mil médicos cubanos. Prioridade agora é importar profissionais da Espanha e Portugal. Programa Mais Médicos para o Brasil será lançado hoje em Brasília, mas perguntas já estão no ar: Alexandre Padilha foi atacado pelo mal da subserviência ideológica? Aceitar profissionais do sistema capitalista é mais confortável que enfrentar o debate sobre a formação socialista? Tecnicamente, nenhum motivo explica a mudança, que é política: pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PT, Padilha não quer se visto como homem de esquerda, alinhado com Cuba. Com a Europa, pode. "Os médicos estrangeiros só vão ocupar as vagas que não forem preenchidas por médicos brasileiros", ressalvou presidente Dilma

Por que Padilha tem medo de ser de esquerda?
Por que Padilha tem medo de ser de esquerda?

247 – O ministério da Saúde decidiu evitar mais polêmicas e recuar na contratação de médicos cubanos para atuar no Brasil. A pasta não descarta a inclusão dos profissionais da ilha, mas as negociações com Cuba para a vinda de seis mil médicos foram suspensas pelo governo brasileiro, segundo reportagem da Folha de S.Paulo desta segunda-feira 8. Agora, ao invés da ilha socialista, Portugal e Espanha é que serão tratados como "países prioritários" no Programa Mais Médicos para o Brasil, que será lançado nesta tarde pelo governo federal. Ao final desta manhã, o governo negou ter desistido dos médicos cubanos, mas não mencionou o recuo na negociação sobre a vinda de seis mil profissionais no País, conforme informou a Folha.

A pergunta que fica é: por que o ministro Alexandre Padilha, que tanto defendeu a vinda de cubanos para preencher o déficit de profissionais nas regiões mais carentes do País, recuou? Vale ressaltar que Cuba é o país onde há o maior número de médicos e leitos de hospital por habitantes em toda a América Latina (são 6,4 médicos para cada 1.000 habitantes). Em 2011, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil possuía 1,8 médicos para cada 1.000 habitantes e a projeção é que apenas em 2050 chegaremos a 4,3 profissionais para esse número de pessoas. O dado cubano é ainda melhor que o da Espanha, onde há 4 médicos para cada 1.000 habitantes.

De acordo com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de Saúde da ONU, a expectativa de vida na ilha é de 79,3 anos, enquanto no Brasil é de 73,8 anos. Em Portugal, os cidadãos vivem em média 79,7, e na Espanha, vivem 81,6 anos. A média do índice das Nações Unidas em Cuba é 0.935 na área da saúde. Em Portugal e na Espanha são 0.942 e 0.972, respectivamente. Enquanto no Brasil, o resultado é 0.849. Os números de Cuba, portanto, são muito mais próximos do padrão europeu do que os daqui. As novas prioridades do governo brasileiro, Espanha e Portugal, possuem o 7º e o 12º melhores sistemas de saúde do mundo, segundo dados da OMS, mas vale lembrar que os dois países têm boa parcela de estrangeiros trabalhando em seus territórios.

Há a atuação inclusive de cubanos, que no caso das terras lusitanas, são contratados desde 2009 por meio de um programa do governo. Diante da alta aprovação da sociedade, Portugal renovou a parceria com a ilha em 2012, fazendo novas contratações de profissionais, que são submetidos a testes antes de começar a atuar. Sem contar que tanto na Espanha quanto em Portugal, como acontece em qualquer outro país do mundo, também há médicos de nível técnico muito abaixo do exigido pelo mercado.

Tecnicamente, não há justificativa para a troca, uma vez que os números, como se viu, mostram resultados semelhantes nos sistemas de saúde de Cuba, Espanha e Portugal. Politicamente, porém, é fácil entender o recuo do ministro. Pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PT, e já de olho na grande fatia conservadora do eleitorado paulista, Padilha não quis carregar a marca de ser alinhado com Cuba, como poderia parecer pela escolha dos profissionais da ilha de Fidel. Escolhendo europeus, ele não terá esse problema -- em compensação, demonstrou que tem medo de ser de esquerda.

Revalidação do diploma

Muitas reclamações sobre a vinda de médicos cubanos para o Brasil, como no caso do CFM, que é totalmente contra a proposta, abordam a suposta revalidação automática de diplomas dos médicos cubanos, algo que nunca foi defendido pelo Ministério da Saúde. Pelo contrário: o plano é seguir os mesmos critérios de aprovação entre os estrangeiros para que pudessem trabalhar no País. A contratação indiscriminada de cubanos pelo governo do Brasil, portanto, é uma interpretação equivocada.

De 60 médicos cubanos submetidos a testes de medicina em Portugal na última leva, 44 foram aprovados, ou 73,3%. Já no Brasil, o cenário foi bem diferente: em 2012, 182 profissionais prestaram o Revalida – exame brasileiro para médicos que estudaram foram do País – e apenas 20 foram aprovados, ou 10,9%. Os números são mencionados pelo médico brasileiro Pedro Saraiva, que atua em Portugal, e que aponta "algo de estranho em tamanha dissociação" nos exames dos dois países. "Será que estamos avaliando corretamente os médicos estrangeiros?", questiona, em artigo publicado no blog do jornalista Luis Nassif.

Abaixo, reportagem da Agência Brasil destaca o ponto de vista da presidente da República:

Estrangeiros não vão tirar emprego de brasileiros, garante Dilma

Thais Leitão
Repórter da Agência Brasil

Ao participar, nesta segunda-feira, do programa semanal Café com a Presidenta, a presidente Dilma Rousseff ressaltou que a contratação de estrangeiros se trata de uma medida emergencial para garantir que uma parcela carente de brasileiros tenha atendimento "o mais rápido possível". Ela destacou que o governo tem trabalhado para ampliar as vagas nos cursos de medicina, mas ressaltou que a formação de um especialista leva, em média, dez anos. A presidente também enfatizou que a vinda de médicos estrangeiros não vai tirar emprego dos profissionais brasileiros nem significa arriscar a saúde da população.

"Essa convocação de médicos para trabalhar nas regiões mais pobres de nosso país é a resposta que estamos dando para o problema da falta desses profissionais nas nossas unidades de saúde. Quem precisa de atendimento médico não pode esperar e é por isso que estamos autorizando a vinda de médicos estrangeiros. Trata-se de uma medida emergencial", disse.

Ela explicou que, entre os estrangeiros, serão contratados apenas médicos "bem formados, experientes, que falem e entendam" nossa língua. Eles deverão trabalhar exclusivamente nos postos de saúde, fazendo o atendimento básico da população, por pelo menos três anos. Eles serão supervisionados pelas universidades públicas no trabalho, que também os avaliará, por três semanas, antes do início das atividades. "Os médicos estrangeiros só vão ocupar as vagas que não forem preenchidas por médicos brasileiros. Daremos prioridade aos nossos médicos, aos médicos formados aqui no Brasil, que são altamente qualificados", disse.

A presidente lembrou que a contratação de médicos estrangeiros é muito comum em vários países que têm "excelentes sistemas de saúde", como é o caso da Inglaterra, onde 37% dos médicos que trabalham lá se formaram no exterior. Ela também citou o caso dos Estados Unidos, onde 25% dos médicos que trabalham lá também fizeram os seus cursos em outros países. Já o Brasil, conforme informou, tem apenas 1,79% de médicos estrangeiros.

No Brasil, as críticas se voltam contra a vinda de cubanos, mas não de portugueses ou espanhóis. E agora, diante de tanta irritação da classe médica e da imprensa, o governo recuou. Preconceito?

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