Renato Janine Ribeiro: ‘Precisamos recuperar a esperança’

Embora no atual momento histórico o Estado brasileiro esteja devastado, é preciso acreditar na esperança e na reversão da crise, na recuperação da nação e nas ações que possam trazer consigo essas mudanças, avalia o estudioso Renato Janine Ribeiro; "Porque se não tivermos esperança de que nossa ação possa conseguir mudanças na sociedade, é difícil fazer a política funcionar. É preciso de alguma forma recuperar a esperança, não totalmente, porque chegamos a um ponto extremamente difícil", diz ele, professor de Ética e Filosofia política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)

Brasília- DF 10-06-2015 Ministro da educação, Renato Janine Ribeiro, durante audiência púlica para falar sonbre o ENEM Foto Lula Marques
Brasília- DF 10-06-2015 Ministro da educação, Renato Janine Ribeiro, durante audiência púlica para falar sonbre o ENEM Foto Lula Marques (Foto: Leonardo Lucena)

Por Eduardo Maretti, da RBA - Embora no atual momento histórico o Estado brasileiro esteja devastado e o país muito longe de uma democracia de fato, é preciso acreditar na esperança e na reversão da crise, na recuperação da nação e nas ações que possam trazer consigo essas mudanças. “Porque se não tivermos esperança de que nossa ação possa conseguir mudanças na sociedade, é difícil fazer a política funcionar. É preciso de alguma forma recuperar a esperança, não totalmente, porque chegamos a um ponto extremamente difícil”, diz Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

Ela fala desse e de outros temas no “Encontro com Renato Janine Ribeiro”,  na Câmara Municipal de Itapevi, às 19 horas desta quinta-feira (1°). O objeto de discussão é parte de seu livro A Boa Política – Ensaios sobre a democracia na era da internet (Companhia das Letras). Lançado no ano passado, é uma reunião de textos escritos nos últimos 20 anos, e revistos para a edição.

Na obra, o autor coloca em debate a política em um ambiente pós-advento da internet e a necessidade de se redescobrir a democracia. “Tivemos um avanço na democracia do país nos últimos 30 anos, mas esse avanço encontra hoje uma dificuldade grande. Entretanto, isso não significa que tenha acabado, pois há a expectativa de retomarmos esse avanço”, aponta.

O livro e a palestra do professor abrangem um período de equívocos, no ambiente político do qual ele participou como ministro. “Todos os erros foram cometidos, erros de ganância por parte da (então) oposição, e erros de política por parte da ex-presidente Dilma. E então chegamos a esse ponto. O que não significa que estejamos condenados a isso. Não vai ser fácil, mas temos de rever isso tudo.”

Janine Ribeiro explica que o conceito de “boa política” pressupõe que haja quatro elementos essenciais: democracia e República, liberalismo e socialismo. “Não pode haver só liberalismo. Se não houver socialismo, a ‘boa política’ não funciona, e assim inversamente. A má política dos séculos 20 e 21 é essencialmente baseada no preconceito, seja o preconceito de raça, de cor ou social.”

Internet

No contexto histórico em questão, a internet é um dado fundamental. Porém, seu papel na evolução histórica recente está longe de ser o que dela se esperava.

“A internet virou um espaço de ódio, de conflito, de narcisismo, em que as pessoas se fecham inteiramente no seu próprio espaço. Isso é um dos nossos grandes problemas hoje.  Algo que permitiria uma ampliação da participação política de todos, acabou trazendo o contrário, fechando cada um na sua concha, ao ponto de cada grupo acreditar que todo mundo pensa como ele”, diz.

Essa é uma situação que  acaba por descartar o principal elemento da democracia: o diálogo, o debate e o respeito à divergência. “De alguma forma, você acaba tendo amigos de um perfil, ou só de um perfil, e então, às vezes, nem sabe que existe uma posição diferente dessa. Isso é terrível.”

“O fato é que você poderia ter na internet um caminho de comunicação que restaurasse a ágora, a praça, a democracia direta grega, ou alguma coisa próxima. Mas, para ser franco, isso não aconteceu. A internet acaba sendo uma coisa muito mais de conflito, de guerra até, do que de diálogo. Se tivéssemos nela um espaço de diálogo, estaríamos muito melhor na sociedade.”

Ao vivo na TV 247 Youtube 247