Rio, samba e urinol

Claro, todo paraíso tem seu canto de inferno, e o Rio não é exceção à regra. Um deles é que o Passeio Público precisa urgente mudar o nome para Mictório Público

Há muitos anos não ia ao Rio para o carnaval. Fui. Desde já, alô alô Realengo, aquele abraço! O Rio continua lindo. Pelo menos visto do alto do edifício na Avenida Atlântica onde fiquei hospedado. Bem como do alto da Floresta da Tijuca, com aquele panorama que se descortina a partir da Mesa do Imperador e que é simplesmente de tirar o fôlego. Não à toa, dizem, Dom Pedro II, homem culto e de bom gosto, passava horas e horas sozinho, naquele terraço, à espera, talvez, da República que viria para libertá-lo do fardo imperial.

Vi o desfile na Sapucaí, com o sambódromo reformado, amplo, limpo, bem iluminado e excelente acústica. Quando a Mangueira passou, só não chorei porque isso não ficaria bem para alguém com a aparência de tio grisalho e rechonchudo que tive o desprazer de conquistar nos últimos anos. O mesmo não ocorreu com o grupinho de amigos franceses e mexicanos que estavam lá comigo, e que foram às lágrimas, não com a minha adorada Mangueira, que é prato para o povo da paixão, mas sim com o imenso e deslumbrante carro cor de terra da Unidos da Tijuca, repleto de esculturas vivas inspiradas nos personagens da obra do Mestre Vitalino. Unidos da Tijuca ficou com o título de campeã, e nem penso em negar seus méritos. A mangueira ficou em sétimo lugar. Mas que importa? Jurado de escola de samba não entende mesmo nada de nada. Além disso, como dizia a carioca doidona e também mangueirense que pulava sem parar a meu lado, a Mangueira é hors-concours. Não devia nem sequer concorrer, e sim passar, simplesmente, num horário especial, para deleite geral dos deuses e dos homens.

Outra agradável surpresa carioca: os preços nos restaurantes custam a metade do que custam em São Paulo. Às vezes até menos. Nosso grupo de oito adultos comeu em vários restaurantes da orla de Copacabana, na Avenida Atlântica, em frente ao mar, com peixada à brasileira, camarão na brasa, saladas, caipirinhas e cerveja, e a conta geral nunca passou de R$ 400,00 – o que dá uma média de R$ 50,00 por pessoa. Em São Paulo, em qualquer restaurante da zona sul, ficaria o dobro ou o triplo. Pergunto: se no Rio pode, por que não em São Paulo? Algo está muito errado com os bares e restaurantes paulistas, e aproveito a deixa para lembrar que está na hora de o Procon entrar em ação.

Claro, todo paraíso tem seu canto de inferno, e o Rio não é exceção à regra. Por sinal, há vários infernos cariocas. Um deles é o formado por legiões de batedores de carteira. No nosso grupo, três foram vítimas, eu inclusive. Foi no sábado, primeiro dia de carnaval, no desfile do Bola Preta. O bloco saiu pela manhã e, ao meio-dia, sol a pino, chegou à Cinelândia seguido por mais de um milhão de foliões, segundo cálculos oficiais. Tivemos o azar de descer do metrô e chegar lá exatamente nesse momento. O empurra-empurra começou ainda dentro da estação e lá fora ninguém conseguia dar um passo. Foi a conta. Cinco minutos depois, bati a mão no bolso do meu bermudão e não senti nenhuma protuberância: lá se foram a carteira de motorista, o cartão Visa e os meus ricos dinheirinhos. Aos dois amigos franceses surrupiaram o dinheiro e a xerox do documento de identidade. Mas dou a mão à palmatória: fui pouco precavido. Todos tinham me avisado para não levar nada nos bolsos. As amigas mexicanas que puseram sua grana dentro do sutiã, nada perderam.

Logo depois, quando a cabeça esquentada pelo furto começava a esfriar, resolvi levar o grupo para a Lapa, ali perto. Um amigo me dissera que a Feijoada do Ernesto, ao lado da Sala Cecília Meireles, era boa pedida. Só que, para chegar lá, é preciso atravessar o Passeio Público. E, pelo que vimos, o Passeio Público do Rio precisa urgente mudar o nome para Mictório Público. Além de público, ele é a céu aberto, sem paredes, nem portas, nem vaso sanitário. Tudo feito na calçada, por homens e mulheres que simplesmente abrem as braguilhas ou descem as calças e se agacham e despejam seus conteúdos no trottoir, na frente de todo mundo. Um horror que não vi nem mesmo na Bahia, famosa por excessos do gênero cometidos durante as festas populares. O que no Rio torna esse comportamento ainda mais incompreensível é que, no Passeio Público, do outro lado da rua, havia uma fila de uns vinte banheiros químicos, gratuitos, à disposição dos apertados.

A fedentina que transforma áreas inteiras do Rio em urinol não se limita ao centro. Até em Copacabana e Ipanema existem trechos pelos quais é melhor não transitar. Na rua Aires Saldanha e na Domingos Ferreira, em Copacabana, por exemplo. Pergunto: Já não está na hora de se promover uma campanha séria de conscientização dessa parte da população que se acostumou a manifestar comportamento de bicho mais que de gente civilizada?

Por último, terceiro inferno carioca, a sujeira no mar. Entre os postos 4 e 6, aqueles onde estive, a água do mar estava cheia de detritos, pedaços de plástico de todos os tamanho e inclusive camisinhas boiando. As mexicanas do grupo, que tinham suportado bem os batedores de carteira e até mesmo os mijões do centro, desta vez preferiram se retirar do mar e ficar caladas na areia tomando sol. Parece que em Acapulco e Cancun não tem disso não...

Luis Pellegrini é jornalista e editor da revista semanal Oásis, do Brasil 247

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