Sistema de capitalização empobreceu idosos no Chile, diz economista

Professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile e doutor em Economia pela Universidade de Berkeley, Andras Uthoff critica o sistema de capitalização da previdência; "Se você avançar sistematicamente para o sistema de contas individuais, o que vai acontecer é que esses contratos de poupança individuais excluirão uma grande parte da população e o sistema de assistência social não poderá dar dignidade a todos"; a entrevista foi concedida ao Blog do Sakamoto

Sistema de capitalização empobreceu idosos no Chile, diz economista
Sistema de capitalização empobreceu idosos no Chile, diz economista (Foto: Rodrigo Fuentes/Radio Universidad de Chile)

247 - Professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile e doutor em Economia pela Universidade de Berkeley, Andras Uthoff critica o sistema de capitalização da previdência implementado no Chile e pretendido pelo governo Jair Bolsonaro para vigorar no Brasil. A entrevista foi concedida ao Blog do Sakamoto.

"A promessa foi de que as pessoas que contribuíam regularmente ao sistema de aposentadorias receberiam 70% de seu último salário. A realidade é que a mediana da taxa de retorno de todas as pessoas que participam [do sistema de capitalização] é de 20%, não de 70%", afirma Andras, assessor de agências das Nações Unidas e de instituições internacionais. Também foi membro de dois conselhos presidenciais para reformas no sistema previdenciário chileno e chefe da Divisão de Desenvolvimento Social da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe).

De acordo com o estudioso, "as pessoas que vivem somente com suas pensões passam de classe média à classe pobre quando recebem as aposentadorias uma vez que o subsídio do autofinanciamento é muito baixo. Depois de 40 anos, percebemos que o sistema de capitalização individual empobreceu os idosos no Chile".

O economista negou haver relação de causa e efeito entre o sistema de capitalização e o aumento da rende per capita. "Não, claramente não. Aqui há várias coisas. Depois de 1981, veio a crise da dívida por toda a América Latina, a década perdida. Todos os países se recuperaram e começaram a crescer e o Chile não foi uma exceção".

Segundo o pesquisador, "a dimensão fiscal não deveria ser o objetivo de uma Reforma da Previdência, nem o desenvolvimento da arrecadação. Esses são objetivos secundários. O objetivo é prevenir a pobreza na velhice e garantir renda àqueles que não podem".

"Acredito que a desigualdade em países como o Chile e o Brasil e a vulnerabilidade do emprego é tão grande que se deve projetar um sistema com um nível mínimo de proteção social e praticamente deixar a poupança individual como complemento. Se não houver garantia de dignidade às pessoas na terceira idade, qualquer sistema de aposentadoria fracassará e as pessoas não o legitimarão", disse.

"O Brasil tem uma estrutura previdenciária boa. O que você tem que fazer é ordenar para que seja fiscalmente responsável. Mas se você avançar sistematicamente para o sistema de contas individuais, o que vai acontecer é que esses contratos de poupança individuais excluirão uma grande parte da população e o sistema de assistência social não poderá dar dignidade a todos", acrescentou.

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