Stédile: Brasil já precisa pensar no pós-Temer

"Depois da queda do Temer, precisamos de diretas já e um plano popular de emergencia!", diz João Pedro Stédile, líder do MST, em entrevista ao Brasil de Fato

21/08/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - entrevista com João Pedro Stédile e congresso da CUT. Foto: Guilherme Santos/Sul21
21/08/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - entrevista com João Pedro Stédile e congresso da CUT. Foto: Guilherme Santos/Sul21 (Foto: Leonardo Attuch)

Entrevista de Joao Pedro Stedile, do MST e da Frente Brasil popular, para Joana Tavares, Brasildefato, Minas gerais,
Belo Horizonte, 18 de maio 2017
 
1.- Qual o interesse da globo em divulgar esses áudios e por que eles insistem em eleições indiretas?
 
A rede globo se transformou no principal partido da burguesia brasileira(PBB).  Ela cuida dos interesses do capital, utilizando sua força de manipulação da opiniao publica e articulando os setores ideologicos da  burguesia, ou seja o poder judiciario, alguns procuradores, a imprensa em geral, etc.   Eles sabem que o Brasil (e o mundo) vive uma grave crise economica, social e ambiental causada pelo modus operandi do capitalismo.  E  isso aqui no Brasil se transformou numa crise politica, porque a  burguesia precisava ter hegemonia no congresso e no governo federal, para poder aplicar um plano de jogar todo peso da saida da crise sobre a classe trabalhadora.   Por tanto, a Globo é a mentora, e gestora do golpe.
Porem, a saida temer foi um tiro no pé, ja que a sua turma, como revelou o proprio Eduardo cunha, era um bando de lumpens, oportunistas e corruptos, que não estavam preocupados com um projeto burgues de pais, mas apenas com seus bolsos.
A operação carne fraca foi um tiro no pé, que ajudou  a desacreditar essa turma do Pmdb, pois varios deles estavam envolvidos e provocaram um setor da burguesia agro-exportadora.
Agora, eles precisam construir  uma alternativa ao Temer.  A forma dele sair se decidirá nas proximas horas e dias, se por renuncia, se cassam no TSE ou mesmo aceleram o pedido de impechement no congresso.
E nas  proximas semanas decidiremos quem colocar no lugar. 
Muitos fatores incidirão e o resultado não será algum plano maquiavelico de algum setor, mesmo da globo, mas sera resultado da luta de classes real, de como as classes se comportarao nas proximas horas, dias e semanas. 
 
2.- Como se organiza o campo golpista?
 
O campo golpista está dividido desde  2014.   E isso nos ajuda.  Porque nos golpes anteriores, de 1964, e depois no governo FHC de 1994, a  bruguesia estava unida, tinha um comando unico, tinha uim projeto de país e tinha uma retaguarda importante no capital estaduinense.   Agora, eles nao tem projeto para o pais. Perderam a retaguarda gringa pois se alinhavam com a Hilary Clinton. Querem salvar apenas seus interesses economicos particulares.  Como disse o sociologo tucano Jose de souza martins, " as reformas da prev idencia e trabalhistas sao medidas capitalistas, que aumentam a exploraçlão dos trabalhadores, mas são contraditorias com um projeto capitalista de pais"
Eles nao tem comando unico. Estão divididos entre o poder economico (Meireles, JBS, )  o grupo dos lumpens do PMDB (juca, padilha, temer,moreira franco ..), que tem o poder das leis, e começam a ter fissuras, como o caso do Renan.  E o grupo ideologico da Globo-poder judiciario.  Há muitas contradições internas entre eles.
E por isso tambem eles nao tem claro, agora, quem colocar no lugar do Temer.  O ideal para eles seria inviabilizar o Lula, ter  um governo de transição, que fosse aceita pela maioria da população, que poderia  ate ser a ministra Carmen Lucia, ate outubro de 18, e ai tentar ganhar as eleiçoes.
Porem, essa divisão aparece tambem nas candidaturas deles,  ainda nao conseguiram construir um FHC, um collor.    Estão tateano para opiniao publica apresentando o Doria, o HUlk, etc
mas eles sabem pelas pesquisas de opiniao publica, que sao inviaveis e so adiaria ainda mais a crise politica.
 
3.- O que os trabalhadores e organizações populares podem fazer neste momento?
 
Nós estamos debatendo  já desde o ano passado, no ambito dos  mais de 80 movimentos popualres e organizações politicas que fazem parte da Frente Brasil popular, de que as saidas que interessam para classe trabalhadora, são um conjunto de medidas complementares.  Primeiro afastar os golpistas, e suspender todas as medidas legislativas que vem tomando contra o povo.  Depois ter um governo de transiçao, que convoque as eleições  presidenciais para outubro de 17.   E que se discuta uma forma de fazer termos uma reforma politica imediata, que garanta a vontade do povo, e se eleja um novo congresso.    E o novo governo, assuma o compromisso, ja em campanha de convocar para  2018 uma assembledia constituinte exclusiva, a parte do congresso, para  construir um novo modelo democratico de regime politico-eleitoral no pais.
Paralelamente a isso,  construimos um PLANO POPULAR DE EMERGENCIA,  que  elencou mais de 70 medidas de emergencia que o governo de transiçao e o novo governo deveriam implementar, que na nossa opiniao, tiraria o pais da crise economica, social e politica.
E depois, durante a campanha eleitoral, discutir  um novo projeto de pais, que  tome em conta a necessidade de reformas estruturais  de medio e longo prazo, como a reforma tributaria, a reforma dos meios de comunicação, a reforma agraria, as mudanças no  pagamento dos juros e do superavit primario e   a propria reforma do poder judiciario.
 
Mas para que tudo isso aconteça, os trabalhadores,  as massas, precisam urgentemente  ganhar as ruas.  A força do povo só se exerce nas ruas, nas mobilizações, ocupações e pressão de massa.   Acredito que nas proximas horas e dias,  haverão varias plenarias para debater calendarios concretos d e mobilização.   De nossa parte, achamos que a semana que vem é decisiva. Precisamos acampar  no STF, para garantir a renuncia dos golpistas e prisões dos corruptos denunciados pelo Joesley Batista.  Precisamos realizar amplas mobilizações em todas as capitais e grandes cidades, dia 21 proximo, domingo.   Precisamos  transformar o dia 24 de maio, nao só em mobilização em Brasilia, mas em todo pais,  ocupando as assembleis legislativas, as estradas... enfim, o povo precisa entrar em campo, e pressionar para acelerar as mudanças necessarias.
 
 
4,- Na sua avaliação, eleições diretas podem trazer avanços para o país? Como? Quem seriam os candidatos?
 
Claro, as eleições diretas para presidente e um novo congresso é uma necessidade democratica, para  tirarmos o pais da crise politica.  Ou seja, só as urnas podem repactuar um governo que represente os interesses da maioria e para ter legitimidade  de realizar  mudanças a favor do povo, para sairmos da crise eocnomica.   Porque a crise economica é a base de toda crise social e politica.
Da classe trabalhadora, o Lula é ainda o que representa as amplas maiorias do povo brasileiro e que pode se comprometer com um projeto de mudanças e com nosso plano de emergencia.
Provavelmente, teremos muitos outros candidatos, como  Bolsonaro, na extrema direita,  Marina, tentando ocupar um eleitorado de centro, mas sua base real é apenas a igreja assembleia de Deus.   E entre o tucanato, eles estao em crise, porque  Alkmin esta arrolado em várias denuncias.  Doria é um playboy de quinta-categoria..  e a Globo não deu tempo ainda  construir uma alternativa, ala collor...
 
5.- Qual a saída para impedir os retrocessos da agenda golpista?
 
Se mobilizar, lutar, não sair das ruas.
E trabalhar nos proximos dias, na perspectiva de uma greve geral por tempo indeterminado.    Toda nossa militancia social e os leitores de nosso Brasildefato, devem ficar alertas, que os proximos dias  serão batalhas decisivas para definir os rumos dos proximos anos.
E a força da classe trabalhadora  só se expressa nas mobilizações.

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