Le Monde sobre o coronavírus no Brasil: "À beira da barbárie"

"A epidemia de Covid-19, descrita pelo presidente Bolsonaro como uma "gripezinha" se intensifica agora em um país onde o sistema de saúde é incapaz de responder a tal desafio sanitário", escreve Bruno Meyerfeld, em artigo publicado no Le Monde

Pessoas com máscara para se proteger do coronavírus e Jair Bolsonaro
Pessoas com máscara para se proteger do coronavírus e Jair Bolsonaro (Foto: Reuters)
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Tradução de Sylvie Giraud, publicado originalmente no Le Monde - Escava-se em todo Brasil. Abrem-se buracos, fossas, aos milhares. Quando se dispõe de um pouco de tempo, com pá e enxada. Com retroescavadeira e maquinário de construção, quando não se tem. Não para plantar café ou encontrar petróleo, como antes. No Brasil de hoje, cavam-se buracos para enterrar corpos.

O Covid-19 chegou e "piora a cada dia", disse Paulo Henrique, jovem coveiro mestiço de 26 anos, no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo. Nesta terça-feira, 21 de abril, formou-se um pequeno congestionamento de carros funerários entre os túmulos. "É o sétimo que estou carregando hoje, o dobro do habitual. É exaustivo", continua ele, esperando ao volante de seu veículo funerário. A cerimônia não dura mais que cinco minutos, tempo suficiente para o adeus e uma pá cheia de terra. "Está todo mundo apavorado", diz Paulo Henrique.

Em 23 de abril, a epidemia já ceifara 3.313 vidas no Brasil (um salto recorde de 407 mortes em relação ao dia anterior) para 49.492 casos confirmados. Mas quem ainda acredita nos números oficiais? Sobrepujadas, as autoridades falharam em testar vivos e os mortos, algumas mortes devido ao Covid-19 estão sendo registradas com vinte dias de atraso! Estimativas divulgadas pela imprensa sugerem que o número de pessoas realmente infectadas é de 12 a 15 vezes superior ao do número anunciado pelas autoridades. O número de mortos já poderia exceder 15.000 vítimas no pior cenário. E o pico só virá em maio...

Desde já, o vírus golpeia toda Federação: as grandes cidades do sul do país, como São Paulo e Rio, onde concentra-se metade das mortes, mas também o estado Nordestino de Pernambuco ou o Amazonas, às vezes mesmo em terras distantes, em pleno meio da floresta tropical. Nessas regiões, os hospitais públicos já estão quase saturados, com taxas de ocupação para serviços de terapia intensiva geralmente superiores a 70% ou 80%. O que se esperava? Um novo tipo de coronavírus sazonal? Sensível ao calor? Agora não resta dúvida de que o vírus se adapta muito bem ao torpor tropical.

Caça ao leito em todo lugar

É tudo assustador. Tudo isso faz chorar de raiva e de desespero. "Estamos à beira da barbárie", disse em lágrimas o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, desesperado, nesta semana durante uma entrevista. Na maior cidade da Amazônia, o número de enterros triplicou, covas coletivas estão sendo cavadas com escavadeira. Nos hospitais superlotados, os cadáveres estão sendo alinhados nos corredores e os pacientes muito idosos já receberam alta para ir morrer em casa.

Em toda parte, a caça aos leitos, a briga pelos ventiladores. "Uma guerra quotidiana", testemunha um cirurgião do Hospital Geral de Fortaleza, no Ceará, pedindo anonimato. “Estamos lotados, 100% dos leitos de terapia intensiva estão ocupados e agora todos os respiradores estão em uso. No entanto, tínhamos dedicado um andar inteiro e cinco unidades de terapia exclusivamente para o Covid-19. Mesmo com isso, no dia seguinte, 48 pessoas já estavam esperando por um leito! Nesse ritmo, não duramos quinze dias", preocupa-se ele.
Em Fortaleza, temos sorte: por enquanto, há luvas e máscaras suficientes. Isso está longe de ser o caso em todos os lugares. “No hospital, em São Paulo, uma grande parte da equipe não está equipada e teve de usar capas de chuva e sacos de lixo, comprados no supermercado, para se proteger!”, se enfurece Sergio Antiqueira, presidente do Sindicato dos Funcionários da cidade. Alguns receberam uma única máscara protetora descartável para um mês inteiro. "Essas pessoas estão em perigo", diz ele.

O Brasil está a nu. "Não estamos absolutamente prontos para lidar com essa pandemia", disse Ligia Bahia, especialista do setor de saúde da Universidade Federal do Rio. O país, no entanto, tem dezenas de milhares de leitos de terapia intensiva. Mas "metade está no setor privado: inacessível para a esmagadora maioria da população", lamenta. Resultado: em média, segundo o Instituto Nacional de Estatística, o brasileiro tem hoje que percorrer 155 quilômetros para encontrar um hospital capaz de prestar atendimento complexo, como o exigido pelo Covid-19. No extremo norte da Amazônia, a distância pode chegar a 400 ou 500 quilômetros.

Um vírus? Que vírus? 

A pandemia coloca o dedo na ferida. "O coronavírus mostra o fracasso do nosso sistema democrático, se entristece Ligia Bahia. Desde o fim da ditadura, nos últimos  trinta anos, nunca investimos realmente na criação de um sistema de saúde pública eficaz, que ofereça atendimento aos mais pobres, aos Negros, os mais excluídos, aqueles que serão as primeiras vítimas. [Nosso sistema funciona] principalmente para os ricos. E [nossa] democracia não garante direitos sociais. "

Um vírus? Qual vírus? Apesar da tragédia, o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, para quem o Covid-19 é apenas uma "gripesinha", ainda defende o "retorno ao normal". Todo final de semana ele vai ao encontro de seus apoiadores, desprezando as regras sanitárias básicas. "Tenho o direito constitucional de ir e vir", disse o Presidente, abraçando os transeuntes e apertando a mão de uma idosa depois de limpar o nariz no braço ou tossindo diretamente sobre seus apoiadores durante um discurso... O apelidaram então de: "Capitão Corona".

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, não transmite mais confiança [do que o Presidente]. Avaro de palavras, encerrou as coletivas de imprensa diárias, valorizadas por seu antecessor Luiz Henrique Mandetta, bruscamente afastado do cargo por Jair Bolsonaro na semana passada. Considerado apagado e submisso ao presidente, Teich não convence a ninguém, nem mesmo ao governo. "Tudo está sob controle ... Mas de quem, nós não sabemos!" disse o vice-presidente Hamilton Mourão em público, pouco antes da posse do ministro.

Tragédia anunciada? Segundo as previsões do Imperial College de Londres, se não for controlada, a epidemia pode matar mais de 1 milhão de pessoas no Brasil.

Felizmente, desde meados de março, substituindo-se ao governo federal, a maioria dos estados, implementou políticas de confinamento mais ou menos rígidas. Mas qual sua eficiência? Apenas um em cada dois brasileiros estaria isolado em casa hoje. Nos bairros de baixa renda, o controle das autoridades é quase inexistente e as ruas estão somente um pouco menos cheias do que o normal.

Pior: à medida que a onda se aproxima, sob pressão combinada do Executivo e da comunidade empresarial, dez em cada vinte e sete Estados já adotaram medidas para flexibilizar, a curto ou médio prazo, o já frágil e parcial confinamento. Prevendo o pior, a cidade de São Paulo ordenou com urgência a escavação de 13.000 novas covas, a compra de 38.000 urnas funerárias adicionais e a construção de um novo cemitério. Para evitar engarrafamentos, os enterros serão realizados agora sem público e à noite, se necessário.

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