A covardia do Santander diante das milícias do MBL e de Bolsonaro

"No futuro, quando estivermos soterrados sob as ruínas do que um dia foi um país e uma democracia, da crônica que emergirá desses escombros, haverá o relato deste domingo, quando uma instituição cultural sucumbiu à ignorância e ao obscurantismo", diz o jornalista Vitor Necchi

"No futuro, quando estivermos soterrados sob as ruínas do que um dia foi um país e uma democracia, da crônica que emergirá desses escombros, haverá o relato deste domingo, quando uma instituição cultural sucumbiu à ignorância e ao obscurantismo", diz o jornalista Vitor Necchi
"No futuro, quando estivermos soterrados sob as ruínas do que um dia foi um país e uma democracia, da crônica que emergirá desses escombros, haverá o relato deste domingo, quando uma instituição cultural sucumbiu à ignorância e ao obscurantismo", diz o jornalista Vitor Necchi (Foto: Leonardo Attuch)

Por Vitor Necchi, no Sul 21

Na coletiva com a imprensa que o Santander Cultural organizou para apresentar a exposição Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira, o representante do banco fez questão de ressaltar que a instituição estava atenta ao debate contemporâneo em torno da diversidade.

Conforme a minha anotação, ele disse que o Santander realizou quase cem fusões, emprega 45 mil funcionários, tem milhões de clientes e que, portanto, diversidade faz parte do dia a dia a instituição.

Um dos participantes do encontro questionou se esperavam alguma manifestação contrária por conta do teor da mostra. Na resposta, o executivo deu mais elementos para garantir a posição firme do banco em apoiar o projeto.

Tudo bobagem, tudo papo furado, tudo arremedo de lucidez de gestor que defende a diversidade sem convicção nenhuma e sem conhecer o tema, calcado apenas em uma estratégia de marketing oportunista, cretina, torpe e que não resiste a um bafejo moralista, raivoso e preconceituoso.

Bastou a manifestação contrária à exposição por parte de imbecis do MBL e por conta de outros imbecis alinhados ao imbecil do Bolsonaro para o banco encerrar de maneira covarde a mostra. Covarde!

Havia motivos legítimos para alguém tecer críticas à Queermuseu, assim como a qualquer outra exposição. Nenhum projeto curatorial é isento de debate.

No entanto, alegar que a mostra fazia apologia à pedofilia e à zoofilia, ou dizer que a mostra atentava contra a religiosidade, é algo cretino, ignorante e ridículo como tudo que sai das mentes obtusas dos integrantes do MBL e dos defensores do Bolsonaro.

Mais grave, no entanto, é a decisão do Santander Cultural de encerrar a exposição e ainda pedir desculpa. Covardes! Hipócritas! Cagões!

No futuro, este triste, grave e preocupante episódio será lembrando como um marco da vitória do obscurantismo e da ignorância.

Uma vitória do ódio. E o nome do Santander estará vinculado à vergonha e à covardia que constituiu o encerramento de Queermuseu em resposta ao grite de um bando de ignorantes descerebrados.

Em uma manifestação de rua, havia uma faixa que dizia “meu cu é laico”. Em um muro aqui perto de casa, alguém pixou “meu útero é laico”.

É isso mesmo.

Cu, útero, pau, buceta – tudo é laico.

O Estado é laico!

Religião alguma deve pautar políticas públicas ou expressão artística. E afirmar que as obras da exposição faziam apologia de zoofilia ou de pedofilia é atestado de indigência intelectual e de mau-caratismo.

Vergonha deste tempo que vivemos.

Vergonha do Santander Cultural.

Vergonha desta cidade bagaceira e deste estado bovino que produzem excrescências como o encerramento de uma exposição de arte considerada degenerada.

O precedente aberto é gravíssimo. A covardia do ato do Santander Cultural vai alimentar a sanha dos moralistas e dos preconceituosos. O horror está nas ruas.

Não se esqueçam: o mal sempre está à espreita, latente, pronto para vir à tona.

No futuro, quando estivermos soterrados sob as ruínas do que um dia foi um país e uma democracia, da crônica que emergirá desses escombros, haverá o relato deste domingo, quando uma instituição cultural sucumbiu à ignorância e ao obscurantismo.

*Vitor Necchi é jornalista.

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