A noite em que compreendi Yoko

A campanha contra a guerra e pela paz, realizada pelos dois, faz pensar nos dias atuais de escalada da violência em suas diferentes formas, com propagação das mensagens fascistóides e de ódio. A mensagem que ambos transmitiram tem tudo a ver com o ato de imaginar e querer: "War is over, if you want it", escreve Lita Lula, em texto especial para o 247

(Foto: Divulgação)

Por Lita Lula, especial para o 247 – Duas noites antes dessa do título, eu havia participado de uma roda de conversa na qual Leonardo Attuch mencionou algumas passagens do documentário de 2018 ¨Above us only sky¨ (Só o céu como testemunha, em exibição no Netflix). Trata-se de um documentário contando a história da realização do primoroso álbum (e da música) ¨Imagine¨,  lançado em 1971 por John Lennon. Attuch se ateve a uma parte na qual Yoko Ono fala sobre como usou a imaginação para driblar a fome junto com seu irmão, certo dia durante a Segunda Guerra Mundial. Naqueles breves segundos, surgiu na minha mente, pela primeira vez, um lampejo de alguns dos motivos pelos quais Yoko foi tão mal vista e mal compreendida pela minha geração, bem como por outras. 

Fui então assistir ao documentário. Estupendo! Na medida em que as cenas e músicas iam passando, crescia a admiração, que jamais tinha experimentado, por essa estranha mulher. Parecia que via Yoko pela primeira vez na vida. Achei uma mulher interessante, exótica, bonita. Talvez um pouco menos de cabelo no rosto permitisse vislumbrar melhor o que parece escondido. O padrão de beleza mudou ou eu mudei? As duas hipóteses são verdadeiras, além de eu preferir, ao convencional, algo mais transgressor. E isso Yoko tem de sobra, desobedecia sobremaneira os moldes e as regras ingleses. 

O filme é um presente, trazendo um John Lennon como ser humano, não como artista num palco. Ele fala muito, com aquela voz inconfundível, canta muito também, músicas de uma fase na qual ele já não era mais um Beatle. Melodias e letras belíssimas. Momentos junto ao maravilhoso George Harrison, o Beatle com o qual mantinha relação camarada. Os depoimentos daqueles que participaram de sua vida musical nessa etapa nos permitem um mergulho privilegiado na sua existência. São lindas as reflexões de seu filho mais velho, Julian Lennon, sobre a vivência na casa de Tittenhurst Park, distante menos de 40 km de Londres, e a convivência com o pai e com Yoko.

Yoko, ao contrário, fala pouco. Ela está frequentemente na retaguarda, sem a mesma projeção de John. Porém, ela está sempre presente. Mais do que isso, ela está sempre presente em John, na sua fala, nos seus gestos, no seu olhar e no seu pensamento. Os olhares que trocam são de cumplicidade. No final do filme, ele admite que ela é o cérebro por trás de Imagine

O que comecei a perceber dois dias antes de ver o filme e comprovei ao assistir, é o quanto deixamos (a imensa maioria de nós) de compreender que a perseguição que a mídia (sempre ela!) e que outras vozes fizeram a Yoko, alegando que ela teria sido o pivô da separação dos Beatles, não expressava a realidade. Assim, como ainda acontece no século 21 com diferentes pessoas, Yoko foi culpabilizada porque era diferente. Era oriental, não tinha a ¨beleza¨ típica das ocidentais mulheres de celebridades (a bem da verdade, era considerada feia), não era a mãe do filho de John e da qual ele havia se separado, falava mal o inglês (idioma dos impérios), tinha uma vida de artista plástica independente de John e anterior a ele, suas concepções artísticas de vanguarda eram pouco ou mal compreendidas e seu comportamento colocava em prática liberdades já apregoadas na época, mas ainda não amplamente aceitas. Participantes do filme citam algumas dessas questões. O fato é que mulheres que fogem de determinados padrões nunca são vistas com bons olhos pela maioria que se adapta a comportamentos e a pensamentos socialmente tidos como ¨normais¨ e ¨adequados¨. Yoko pensava com liberdade e assim agia também.

Senti que o filme coloca em dúvida se John teria ido tão a fundo no questionamento às guerras se não existisse Yoko na vida dele. Embora ela não fale tanto quanto ele na tela, percebe-se que a relação intelectual deles é intensa, ela o instiga. John discorda de que ela tenha sido a causadora da separação dos Beatles, justifica que os problemas existiam antes mesmo do surgimento dela em sua vida. Seu desassossego enquanto ainda fazia parte do grupo é mencionado por algum entrevistado: John já não se sentia pleno e realizado após um certo período, além de se sentir aprisionado em sendo um Beatle. O rompimento permitiu que ele se sentisse como John de forma plena. Existe um clip onde ele menciona a importância e a influência de Chuck Berry no seu rock, seguido de uma apresentação conjunta dos dois. Isso foi finalmente possível após os Beatles. John se diverte sendo John e fazendo o que ele quer. Yoko deve ter tido papel fundamental na construção dessa liberdade. Li uma análise que diz que ela afinal dava a ele tudo o que ele necessitava.

O álbum ¨Imagine¨ traz a música ¨How¨ na qual John explicita uma série de dúvidas sobre caminhos, rumos e sentimentos. Eu me pergunto se ele se refere de alguma forma à fase de sua existência como Beatle. Já a música ¨How do you sleep¨ é reconhecidamente uma grande crítica a Paul McCartney. Em resumo, após ouvir essas duas canções, como responsabilizar Yoko pela separação do grupo? 

Apesar de alguns autores colocarem em dúvida a estabilidade da relação Lennon-Ono e apesar de John reconhecer sua própria insegurança na música ¨Jealous Guy¨, ele canta seu amor por ela em ¨Oh! Yoko¨ e, em especial, em ¨Oh my love¨. Nesta última, ele declara não apenas amor, mas como finalmente sente com clareza a vida e seus sonhos. Importante acrescentar que na música ¨(Just Like) Starting Over¨, do álbum ¨Double Fantasy¨, ele explicita o encanto da vida conjunta: ¨Our life together is so precious together, we have grown¨. Muitos anos depois da morte do parceiro, Yoko diz que acha que John e ela se conheceram para justamente criar ¨Imagine¨. Esse é um pensamento lindo e reconfortante. 

A famosa última foto do casal, tirada poucas horas antes do assassinato de John, é uma profunda declaração de amor: John nu, envolvendo rosto e corpo de uma Yoko totalmente entregue, segurando seu cabelo e beijando sua face numa associação profunda que só não é ainda mais íntima porque Yoko se recusou a ficar nua para o clique de Annie Leibovitz. 

Yoko completou 86 anos e seu físico está comprometido, mas continua pacifista e ainda propondo performances. Seu projeto ¨Bells for Peace¨ reuniu 4.000 sinos tocando em Manchester (Inglaterra) pela paz, em julho deste ano. Aos amantes do blues, recomendo ver no YouTube a Plastic Ono Band tocando ¨Yer Blues¨, alguns anos atrás, com a participação da própria Yoko, seu filho Sean Lennon e o grande Eric Clapton. Admito que até hoje ainda soam estranhos, aos meus ouvidos, os gritos da artista. Não vou dizer que aprendi a gostar de algumas de suas produções, mas aprendi a respeitar. Gosto, sim, do John que ela nos deu a partir da presença ao seu lado. 

A campanha contra a guerra e pela paz, realizada pelos dois, faz pensar nos dias atuais de escalada da violência em suas diferentes formas, com propagação das mensagens fascistóides e de ódio. A mensagem que ambos transmitiram tem tudo a ver com o ato de imaginar e querer: ¨War is over, if you want it¨. Queria que governos inaceitáveis acabassem, porque assim o queremos. Só precisamos imaginar e agir.

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