Absolutamente Anselmo, rei dos garanhões

Ninguém conquistou tantos prêmios no cinema até hoje. Inclusive a Palma de Ouro em Cannes. Ninguém rasgou tantos corações mundo afora como Anselmo Duarte. Certo?

Ninguém conquistou tantos prêmios no cinema até hoje. Inclusive a Palma de Ouro em Cannes. Ninguém rasgou tantos corações mundo afora como Anselmo Duarte. Certo?
Ninguém conquistou tantos prêmios no cinema até hoje. Inclusive a Palma de Ouro em Cannes. Ninguém rasgou tantos corações mundo afora como Anselmo Duarte. Certo? (Foto: Gisele Federicce)

Por Palmério Dória, ao 247

Acontecia de tudo nos estúdios da Vera Cruz, a Holywood brasileira construída em São Bernardo do Campo, no início dos anos 50. Mas nossa indústria automobilística, que nascia no município paulista na mesma época, sofreu duro golpe quando uma dama da alta sociedade apareceu ali ao volante de um Jaguar conversível, estalando de novo, e estacionou na frente da mansão de Anselmo Duarte. A dama tirou a chave da ignição, abriu a porta da joia rara, desceu lentamente com a saia plisse soleil ao sabor do vento e entregou a chave nas mãos do ator mais bem pago do Brasil. Era um singelo presente.

A dama em questão, Ana Gimol Benchimol Capriglione, entraria para História não por isto mas por aquilo. Ela foi amante a vida inteira de Adhemar de Barros, que a chamava de “Doutor Rui” pelo telefone enquanto despachava com o secretariado ou recebia alguém em audiência, quando governava o Estado. Também foi na mansão imponente dela em Santa Teresa, no Rio, em plena ditadura, que foi roubado o famoso cofre do Adhemar com US$ 2,16 milhões, uma ação da VAR-Palmares comandada por Carlos Araújo, que seria futuro marido de Dilma Rousseff, também da organização, contada em detalhes e com brilho por Tom Cardoso em O Cofre do Dr. Rui.

Anselmo, ciente dos seus dotes, aceitou com o presente com naturalidade. Mas não deixou de ser patrulhado por gregos e goianos por aceitar o mimo. Para quem o questionava, perguntava: “E você, devolveria?”.

A lenda sobre os dotes extras e performances sexuais do ator começou antes mesmo da fama, proclamada em congressos médicos não pelo Doutor Rui, mas por um certo doutor César, conterrâneo de Anselmo em Salto, interior de São Paulo.

PRIMEIRO AMOR BERRAVA MAIS DO QUE FAGNER

Na verdade, a primeira grande amante de Anselmo Duarte foi uma cabra, que ainda por cima lhe dava leite. Tanto que, na infância mais remota, não teve a menor dúvida em optar pelo sexo animal no dia em que a namoradinha, torturada pelo ciúme, resolveu confrontá-lo com um terminante “ou eu ou ela”.

Amor pra valer veio na mudança para São Paulo, no início dos anos 40. Boêmio nato, com 1m90, Anselmo não queria gramar como datilógrafo na editora de música dos Irmãos Vitalle, onde teve o primeiro contato com as estrelas. Queria aprender a dançar para vencer a timidez. E acabou encontrando sua Ginger Roger numa academia de dança. Lolita. Ficaram especialmente excitados quando viram um anúncio. Orson Welles estava filmando É Tudo Verdade no Rio. E lá se foi a dupla tentar a sorte no Cassino da Urca, onde rolavam as filmagens.

O Rio de Getúlio Vargas armaria mil surpresas para o aspirante a bailarino e ator. Um deles foi um sequestro-relâmpago tão em moda hoje em dia. Acontece que OrsonWelles vidrou em Lolita, queria porque queria a dançarina e mandou que dessem um susto no partner dela. A tal história do sequestro se espalhou. Todos concordaram que alguém que entra em disputa com Orson Welles merece um lugar ao sol. Esse lugar não era Copacabana, mas o Beco dos Aflitos, onde as celebridades se reuniam todo fim de tarde para tomar... chá.

ENFIM UM GALÃ COM PADRÃO DE HOLLYWOOD

Anselmo fazia dupla inseparável com Jorge Dória, de tradicional família carioca, que se dedicava basicamente a rosetar. Mas, para exercer isso com mais eficácia, buscavam pontas nos filmes da Cinédia, que implantara a primeira Hollywood tupiniquim no Alto da Boa Vista em 1930. Na Meca do cinema, o divino acaso veio num encontro com o cineasta italiano Alberto Pieralisi, formando então o elenco de Querida Suzana – os dias de Anselmo Duarte como jornalista do Observador Econômico e Financeiro estavam contados.

“Surgiu ali o primeiro galã brasileiro com padrão internacional”, diz o crítico Rubens Ewald Filho. “Antes de Anselmo, os galãs eram gomalinados, pareciam ter saído de um cabaré.” A atriz Tônia Carrero, que também debutou nesse filme, dá a entender que os galãs de hoje não rivalizam com Anselmo. “Ele era mais bonito que o Tarcísio Meira, nada a ver com esse menino...[Thiago] Lacerda”, desfaz.

Com estampa de Marcello Mastroianni, daí pra frente Anselmo não parou de saborear o sucesso e mulheres. Tônia Carrero não foi uma delas. Ele bem que tentou, sem êxito. Aí, despeitado, passou a dizer que ela só podia ser assexuada, que ciscava, ciscava, mas fugia da raia. E passou a entender muito menos, já nos tempos de ouro da Vera Cruz, quando a mulher que viria a ser ranqueada como uma das mais belas do século passado apaixonou-se diretor italiano Adolfo Celi, que fazia parte da legião estrangeira importada pela companhia e viria a ganhar fama mundial como vilão de OO7.

Anselmo sempre misturou prazer e trabalho, em qualquer lugar do planeta, em seus tempos na Cinédia, no cinema argentino, no cinema espanhol, na Vera Cruz. Nem o casamento com a estonteante Ilka Soares no Uruguai, em 1953, sossegou o facho dele. O galã a xavecou na rua, em São Paulo. Ele chegou em casa, contou para a mãe, mas logo depois do casamento percebeu que “ele fazia isso com todas”.

De qualquer forma, durante os quatro anos de casamento, a mansão do casal no Pacaembu era uma referência do irresistível charme do cinema brasileiro da época, em que filas dobravam o quarteirão. Até para Tarcísio Meira e Glória Menezes. Eles confessam que passavam ali para ver Ilka e Anselmo.

“USAVA SMOKING MELHOR QUE CARY GRANT”

Tom Jobim brincava dizendo que cada música que fazia era uma mulher que não comia. Não era segredo que Anselmo teve romances com quase todas as mulheres com as quais contracenava ou dirigia. Foi assim como Odete Lara em Absolutamente Certo, o filme que lhe deu crachá de diretor e grana para investir em si mesmo no exterior. Foi assim com Norma Bengell, a Brigitte Bardot brasileira, vedete de Carlos Machado, que andava meio recalcitrante nas filmagens de O Pagador de Promessas, em Salvador. “Mas ele conseguiu entrar no universo dela e a filmagem transcorreu normalmente”, conta Antônio Pitanga.

O folclore em torno da vida sexual de Anselmo é infindável. Lima Duarte lembra que ele usava smoking melhor que Cary Grant” e de vez em quando metia os pés pelas mãos. Perdeu a mulher do biliardário Aga Khan, em festa num palácio europeu, já com o nariz no cangote dela, ao fazer um comentário infeliz: “O Anselmo viu que a lajota do palácio era da terra dele, tentou explicar isso para a princesa e quebrou o encanto”.

Eliane Macedo, a própria imagem da certinha, sobrinha do diretor Watson Macedo, o mestre das chanchadas da Atlântida, par romântico de Anselmo, se queixava no set de filmagem para Adelaide Chiozzo, que o ator a beijava para valer, de língua mesmo. Mas Adelaide achava que Eliane não ficava contrariada.

O escritor Ignácio de Loyola Brandão, old friend de Anselmo, hóspede do ator durante um bom tempo, relembra que tinha que dormir pelo menos quatro vezes no quarto da empregada, para que o anfitrião pudesse transar à vontade, geralmente com garotas conquistadas no Nick’s , o bar da moda em São Paulo. “Quando Anselmo entrava lá era o maior frisson”, relembra Glória Menezes. E tem aquelas que lembravam o ator por razões bem pessoais. Era o caso da atriz Sônia Dutra:

“Uma vez ele deu uma entrevista ao Pasquim (concedida a Sergio de Souza e Narciso Kalili) dizendo que conhecia várias mulheres, mas a melhor era eu. Então eu digo que a recíproca é verdadeira”.

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