Ao boson, um deus

Dentro de semanas o discurso religioso vai querer sequestrar a si o Boson de Higgs

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Um milhão de anos depois de um angustiado cardeal Coloredo ter mentido uma pernada nos fundilhos de Mozart, e não muito depois de o Vaticano ter  abençoado exércitos, coube a um padre belga, Georges Lemaitre, meter seu chutaço nos países baixos do Papa Pio XII.

Nascido em 1894, e cansado de fatigar o Saara conceitual das vulgatas bíblicas, foi em 1931 que Lemaitre concebeu o modelo atual aceito por todos: o do Big Bang. Futebol tem dessas coisas: o romantismo nos legou Poe, o maior dos racionalistas –e a Igreja nos legou Lemaitre.

Einstein, Eddington e Willem de Sitter, papas da cosmologia, viam na física traços singularmente vagos para que um modelo aceitável pudesse funcionar, indiferenciadamente. E de pronto aceitaram o modelo do padre Lemaitre. O Big Bang foi um sucesso.

Ainda falatavam 8 anos para que Jorge Luis Borges escrevesse no seu Aleph, em 1939, que “o pensamento mais fugaz obedece a um desenho invisível e pode coroar, ou inaugurar, uma forma secreta”. Mas o Papa Pio XII intuiu algo semelhante. Daí, invulnerável às críticas impiedosas que a ciência lhe imporia, Pio XII,  em sua estranha inquietação, logo foi dizendo : “A Nova teoria do Big Bang mostra que no início era o Caos e assim é uma validação científica da Fé Católica”.

Lemaitre pariu o colon de odio. Não poderia deixar que metessem deus na parada: mesmo sendo padre.

Há nos EUA um movimento que é moda, sobretudo entre roqueiros: chama-se brights, vulgo brilhantes. É comandado por um filósofo norte-americano, Daniell Dennett, e por um biólogo da Grã-Bretanha, Richard Dawkins. São todos darwinistas de carteirinha assinada. Um notório membro dessa casta é um roqueiro punk: Greg Graffin, líder da banda Bad Religion. Em 2003, ele virou Ph.D. pela Universidade de Cornell. A tese do punk Graffin mostrava que, dentre 149 biólogos evolucionistas, 130 não acreditam em Deus. Os brights dizem que há 40 milhões de ateus nos EUA que não podem admiti-lo, senão perdem empregos. Defendem que Deus precisa ser investigado. Mas agora, os brights, que se julgavam donos da palavra final, estão levando uma estocada divina.  A Linguagem de Deus, de Francis S. Collins, homem diretor do mapeamento do DNA chamado Projeto Genoma. Sem meias palavras, Collins diz que era um ateu até seus 26 anos de idade e agora acredita profundamente em Deus. Seu argumento filosófico é interessante: se Deus é sobrenatural, não pode ser verificado por leis naturais. Mas Collins quebra a sua cabeça quando mostra que os genes chamados Elementos Repetitivos Antigos (ERA), presentes na seqüência do DNA, aparecem truncados, com defeitos, exatamente na mesma posição, por exemplo, no cromossomo de um camundongo e do homem. Por que esse erro no mesmo lugar, em dois seres tão diferentes? É porque uma mesma matriz criou homem e rato. Segundo Collins, essa mesma matriz é Deus. 

Não  faltará, dentro de semanas, gente religiosa querendo meter deus, ou o diabo que o valha, no lance do Boson de Higgs.

Na filosofia das ciências, como um todo, a ideia do subjetivismo, mesmo o deífico, é algo aceitável –e nem a figura de um suposto deus chega a combater, indeclinavelmente, no coração dos cientistas. Permite-se a justaposição dos dois fatores. E, na distância mais próxima, os mais puristas, seja do lado de deus o de Richard Dawkins, vêem encrespar-se, em caixa alta, o axioma de Einstein: para quem, sem um “sentimento religioso-cósmico”, que o leva a descobrir uma “realidade suprapessoal”, o cientista simplesmente não avança em seus propósitos. “Não posso conceber um cientista autêntico que não tenha uma fé profunda. A situação pode se resumir emu ma imagem: a ciência sem religião é manca, a religião sem ciência é cega”, nota Einstein.

Óbvio que, na mais púbica das horas, no mais compartilhado dos espaços, os interessados em deus surprimirão do extrato acima o detalhe que o deus de Einstein não era antropomórfico. Einstein era um panteísta de carteirinha. E a tal “religiosidade cósmica” vinha depois, referia, das etapas da  “religião animista e da religião moral”.

Os constantes ataques da religião moral à ciência, no entanto, criaram Richard Dawkins, o cão de guarda do darwinismo: cujos muros científicos invariáveis não concedem uma única porta à religiosidade.

E as próximas semanas vão dar razão à ferocidade de um Richard Dawkins e de um  Daniel Dennett.

Porque, logo logo, alguém vai querer atrelar um deus qualquer ao Boson de Higgs. O Boson vai ser roteirizado por preceitos religiosos nas próximas 24 horas, atentai.

Que alguém queira atrelar deus a uma confirmação científica não é novidade no século 20. Em 1974 o físico ingles Brandon Carter afirmou que se os parâmetros físicos do universe fossem minimamente diversos do que são, a vida não seria possível –um legado do mencanicismo de Newton, paara quem “Deus é o grande relojoeiro do Universo”. Para Carter, foi algo parecido com um deus que fez nosso universe pelo fato dos números que se seguem: a energia que a Terra recebe do sol é ajustada para fomenter a vida, precisamente. Tal energia, chamada de constante solar, é definida como 1,99 caloria de energia por minute, por centímetro quadrado. Se recebessemos mais ou menos energia, a água dos oceanos se converteria em vapor, ou gelo, e tudo acabaria. Se as distâncias olímpicas que nos separam do sol fossem outras, seríamos igualmente um nada: a vida só é possível, referiu Carter, porque a terra está a 150 milhões de quilômetros de distância do Sol –que produz 5,6 milhões de milhões de milhões de milhões de calorias por minute. Fosse mais, fosse menos, nada seríamos.

Óbvio que para os intelectuais new age, como James E. Lovelock, e Fritjof Capra, acreditar nesse deus onipotente, no commando do nosso termostato, rendeu rios e rios de livros vendidos.

E o pobre Boson de Higgs, em contagem regressive, logo terá um deus para chamar de seu –ou para chamar de pai: tanto faz.

*Doutor em filosofia das ciências pela Universidade de São Paulo

 

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