"Artistas fazem mais pelo Brasil do que a enfraquecida diplomacia", diz Kleber Mendonça em Biarritz

Em entrevista à RFI, o cineasta pernambucano falou sobre o futuro do audiovisual e sobre as eleições no Brasil

Cineasta Kleber Mendonça Filho

Maria Paula Carvalho, da RFI - O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho recebeu uma missão especial do Festival de cinema Latino-Americano de Biarritz. Referência de peso do audiovisual brasileiro e premiado no exterior, ele teve o desafio de fazer uma lista de filmes representativos da filmografia brasileira para a programação Focus Brésil, que acontece em paralelo à mostra competitiva. Em entrevista à RFI, ele falou sobre o futuro do audiovisual e sobre as eleições no Brasil.

O Brasil é homenageado no tradicional festival de cinema que, este ano, reúne produções de 11 países latino-americanos. “Isso manda uma mensagem clara que a comunidade estrangeira observa, admira e respeita o Brasil. Eu viajo muito como cineasta para fora e vejo o interesse e o amor que as pessoas têm pelo nosso país”, afirma o diretor de filmes como “Bacurau” (2019), prêmio do Júri no prestigiado Festival de Cannes, “Aquarius” (2016) e “O Som ao Redor” (2012).

“O cinema, a música e a literatura representam um país. Eu estou em Biarritz representando o meu país e trouxe uma seleção de produtos da arte brasileira. E sou muito bem recebido, falo sobre o Brasil de maneira livre e democrática e apresento um estado de espírito do país, de nação”, completa.

CONTINUA DEPOIS DAS RECOMENDAÇÕES

Focus Brésil

Kleber Mendonça Filho teve carta branca para escolher dez longas-metragens e 14 curtas-metragens para representar o Brasil. Na lista estão clássicos como a Hora da Estrela (1985), adaptação do livro de Clarice Lispector dirigida por Suzana Amaral; Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), uma joia do cinema nacional restaurada, de Glauber Rocha; Garrincha, Alegria do Povo (1963), de Joaquim Pedro de Andrade; Pixote (1981), de Hector Babenco; Cabra Marcado para Morrer (1984), documentário de Eduardo Coutinho que atraiu 1 milhão de espectadores aos cinemas brasileiros. A seleção inclui também títulos mais recentes, como Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), do também recifense Marcelo Gomes, Paulo Caldas e Karim Aïnouz; Arábia (2017), de Affonso Uchôa e João Dumans; e Azougue Nazaré (2018), de Tiago Melo e Jeronimo Lemos. 

“Eu já faço isso com facilidade, pois trabalho como crítico e curador há muito tempo. E um convite como esse é uma forma de pensar numa ideia de cinema brasileiro e eu o vejo como algo diverso”, explica o cineasta sobre a escolha dos títulos em exibição em Biarritz. “Eu selecionei longas que vão desde os anos 1960 até 2022, e os curtas são demonstrações da diversidade geográfica, racial e social da filmografia brasileira, e estou muito feliz com a reação do público e da imprensa”, acrescenta.

“Instabilidade democrática”

Um dos diretores brasileiros de maior projeção no cenário internacional, tendo participado de diversos festivais na Europa e representado o Brasil no Oscar, Kleber Mendonça é considerado como uma espécie de “embaixador do cinema nacional” e porta-voz dos brasileiros em Biarritz.  

“Nos últimos 15 anos, o Brasil teve uma injeção enorme de energia criativa que veio de instrumentos de apoio e difusão do governo, pois a Constituição brasileira prevê o apoio à realização e à difusão da produção artística do país”, contextualiza. “A partir de 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff, os instrumentos de apoio do governo foram cortados. E isso piorou com a extinção do Ministério da Cultura, em janeiro de 2019, no início do governo Bolsonaro”, acrescenta. “Com o governo Bolsonaro, se tornou uma política de Estado desativar os mecanismos de incentivo à cultura, mas também de desautorizar os artistas, com posicionamentos muito agressivos em relação à comunidade artística”, denuncia.

De acordo com o diretor, a cultura brasileira continua sendo a melhor forma de representação do Brasil no mundo, “mesmo que o país seja atormentado pela instabilidade política”. Porém, apesar das dificuldades, ele diz que a cultura brasileira permaneceu viva e poderosa, e que nos últimos anos os artistas brasileiros fizeram mais pela imagem do país do que a “enfraquecida diplomacia brasileira”. 

“Ao longo dos últimos anos, o Brasil entrou numa instabilidade democrática que não faz parte do que o país quer ser, se você olhar os documentos, como a Constituição, e o desejo da maioria da população. Eu espero que isso seja visto como um momento histórico isolado de desrespeito à população e à ideia de nação brasileira”, afirma o cineasta, que vai voltar ao Brasil para votar nas eleições presidências de domingo (2).  

Futuro do audiovisual

Ao longo de uma carreira consolidada, Kleber Mendonça, que exerce forte influência sobre a nova geração do cinema brasileiro que ele acompanha com generosidade, consagrou-se como um dos primeiros grandes cineastas do novo milênio. Ancorada no Recife e no Nordeste, sua obra profundamente política se nutre da história do próprio cinema brasileiro, que o diretor renova com recursos do western, do terror, entre outros. 

“Trinta anos atrás, quando eu estava na faculdade, as ferramentas eram bem mais limitadas. Você precisava ter acesso a dinheiro e financiamento para fazer vídeo ou cinema. Hoje, qualquer menino e menina de 15 anos pode, talvez, com a ferramenta certa, talento e sentimento de fazer algo que seja expressivo, verdadeiro e que seja identificado por um público nas redes sociais, considerado como uma ideia a ser consumida”, ele declara.

Na entrevista à RFI, ele também falou sobre seu próximo projeto: “um longa-metragem que se chama ‘O Agente Secreto’, que eu espero rodar no ano que vem, com o Wagner Moura”.

Ele ainda comentou sobre sua proximidade com a França. “Eu tenho uma relação muito boa com a França, a minha companheira é francesa e nós passamos longos períodos aqui, mas a minha casa é no Brasil”, pontua.

Por fim, o diretor defendeu a necessidade de uma política de Estado para apoiar o audiovisual. “A indústria deve existir e seus mecanismos estão aí, como o streaming, a Netflix. Porém, é muito importante que, como acontece na França, na Espanha, na Austrália, na Inglaterra e no Canadá, existam mecanismos de Estado para apoiar livremente a expressão artística, pois assim se constrói uma ideia de identidade nacional por meio do audiovisual”, conclui.

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.