Cadu Barcellos: 'Eu queria mudar de lado e reluzir'

Jovem cineasta, assassinado na terça, fez história no cinema ao dirigir um dos episódios de “5x Favela – Agora por Nós Mesmos”, produzido por Cacá Diegues em 2010

Cadu Barcellos
Cadu Barcellos (Foto: Reprodução / rede social)
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Rede Brasil Atual - “Eu estava cansado de sentar em frente à televisão e receber luz. Eu queria mudar de lado e reluzir.” Assim o jovem cineasta Cadu Barcellos definiu sua participação, como diretor, em um dos episódios do longa 5x Favela, Agora por Nós Mesmos. A produção, de 2010, foi idealizada por Cacá Diegues, uma refilmagem de obra homônima de 1961, quando cinco jovens cineastas de classe média subiram morros cariocas para filmar 5x Favela. Lá estavam Cacá Diegues, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias e Miguel Borges, integrantes do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Em 2010, Cacá, agora como produtor, selecionou sete jovens cineastas moradores de comunidades do Rio. O longa-metragem 5x Favela, Agora por Nós Mesmos, lançado em agosto daquele, tem cinco episódios, como o de 1961. A diferença é que os novos diretores são todos moradores dos locais onde filmaram. Entre eles, Cadu Barcellos. Cadu foi morto na madrugada de terça-feira (10) no Rio de Janeiro, aos 34 anos, a facadas, depois de ser vítima de assalto. “Cadu foi assassinado possivelmente por conta de um celular, um RioCard (vale-transporte) e um punhado de reais”, disse o amigo William Oliveira a uma emissora de TV.

Cadu Barcellos era assistente de direção no programa Greg News, comandado por Gregório Duvivier, na HBO, e do Porta dos Fundos. Amigos criaram uma campanha de arrecadação para apoiar a família de Cadu, que deixa a mulher, Gabi, e o filho Bernardo, de 2 anos.

Deixa voar

Deixa Voar é um dos cinco episódio de 5x Favela, Agora por Nós Mesmos. A história se passa no Complexo da Maré, onde morava Cadu Barcellos. Conta a história de Flávio, que, para buscar a pipa do amigo, é obrigado a ir a o “território” dominado por uma facção rival. “Aquilo é um grande continente com vários países: 16 comunidades, 170 mil habitantes, todas as facções, polícia, milícias… É um episódio sobre o desconhecido, o refugiado”, dizia o jovem diretor à repórter Xandra Stefanel, na edição 51, de setembro de 2010, da Revista do Brasil.

Para Cadu, a produção foi “um marco” na história da cinematografia brasileira. “Nunca vi nada parecido. Um cara da favela falando sobre a sua realidade no cinema é revolucionário. Além disso, tem a questão do ponto de encontro, porque jovens de várias comunidades fizeram o ‘tudo junto e misturado’ realmente acontecer e dar certo”.

O mais emocionante, para ele, é saber da importância disso para as pessoas que moram na favela. “Viver de arte no Brasil é muito difícil, mas é muito legal ver sua família, os vizinhos e amigos dizendo que se sentem representados naquilo que eu fiz, no jeito de falar, vestir, nas pequenas coisas. Isso não acontece nas novelas, nem em outros filmes.”

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