Cronica 4 Mãos - Justiça, igualdade e progresso

Penso que a caminhada em direção a um mundo mais justo está com o passo acelerado, mas aí me questiono: será que é o que se quer realmente?

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Bia Willcox convida o escritor, filósofo e cientista social Luiz Eduardo Soares a refletir juntos no projeto 4 mãos.

BW: Desigualdade nem sempre é por falta de méritos, ou seja, nem sempre é porque uns sejam mais merecedores de chegar onde chegaram na pirâmide social que outros. Desigualdade pode ser ( e no Brasil muito dela é mesmo) herdada, fruto da falta de oportunidades passada de geração em geração e mantida pela falsa crença liberal de que "a pessoa está onde merece". Claro que acredito sempre nas exceções, nos pontos fora da curva, naquele que desafia sua condição social quase pétrea e se faz acontecer. Mas não podemos generalizar. O ponto de partida deve ser igual para todos. O sol deve nascer pra todos. Depois? O céu é o limite de cada um.

Será que a quase utopia de mais justiça é possível, Luiz Eduardo?

LE:Acho que é perfeitamente possível que o Brasil se torne menos desigual, muito menos desigual do que é. Seja porque há países cuja história demonstra esta possibilidade, seja porque é o que vem acontecendo em nosso país, nas últimas duas décadas, sobretudo nos últimos dez anos. Durante a ditadura (entre 1964 e 1984 ou 1988, variam as periodizações), a política econômica privilegiava o crescimento econômico com forte concentração de renda. O resultado foi escandaloso: os muito ricos ficavam cada vez mais ricos, enquanto os pobres se tornavam mais pobres e a miséria absoluta se expandia. Essa realidade iníqua só foi possível porque não havia participação política, nem canais de expressão popular. A censura impedia a circulação de informações, o debate e a crítica. O ministro de dois dos governos militares, Delfim Neto, sentia-se à vontade para legitimar o aprofundamento acelerado das desigualdades, nas quais nos tornávamos campeões mundiais: "Primeiro é preciso fazer o bolo crescer. Depois, vamos dividi-lo". O bolo crescia, mas só era servido nos banquetes das elites, ano após ano. E crescia graças ao suor dos que trabalhavam para sobreviver, recebendo salários indignos. Mas a fome tem pressa e, finalmente, depois de décadas de desprezo pela equidade e pelos direitos universais a educação, saúde, moradia decente, transporte digno, saneamento, cultura e lazer, o país começou a virar o jogo. Primeiro, houve a derrota política da ditadura, consagrada na promulgação da Constituição de 1988, a primeira efetivamente democrática de nossa história.

Depois, em 1994, veio o controle da inflação, legado perverso da ditadura que comia os salários nos primeiros dias do mês. A inflação atingiu patamares absurdos e contribuiu para a ampliação da distância entre pobres e ricos, porque estes protegiam-se da desvalorização da moeda, depositando em contas bancárias que garantiam compensação pela deterioração do valor. Mas a imensa maioria sequer tinha acesso a contas bancárias e a esses mecanismos de proteção do dinheiro. Nessa época --fins dos anos 1970 até 1994--, dinheiro na mão era mesmo vendaval. O plano Real domou a inflação, o que bastou para que, em um ano, a miséria absoluta caísse, significativamente. A estabilização da moeda criou condições para planejamento, gestão racional de empresas e governos, investimentos de longo prazo, previsão, valorização da moeda e, consequentemente, valorização dos salários. Tornaram-se possíveis políticas sociais. Herdando um país mais equilibrado, os governos do PT puderam mudar a qualidade das políticas sociais, oferecer acesso a crédito e produzir a maior queda das desigualdades de nossa história, reduzindo a miséria absoluta ao menor patamar, permitindo que cerca de 40 milhões tivessem acesso a contas bancárias e ao consumo, e difundindo a experiência da cidadania.

Sentindo-se potencializados e vendo-se como cidadãos, sujeitos de direitos, diferentes segmentos sociais saíram às ruas em junho para protestar e reivindicar, porque, afinal de contas, apesar de melhorias consideráveis, há muito ainda a fazer, porque ainda somos o 11º país mais desigual do mundo. Além disso, a sociedade parece ter despertado para o fato de que é ela quem manda, quem detém o poder, quem pode e deve apontar caminhos. O PT deu importante contribuição, mas, na esfera política, repetiu os velhos vícios que tanto criticava, no passado. Agora, a sociedade cobra coerência e exige mudanças profundas na política, sem as quais a democracia perde conteúdo e se inviabilizam as transformações rumo à equidade e à Justiça.

BW: Lendo você acima, senti como se eu estivesse assistindo a um documentário desses com fundo musical épico e desfecho bastante otimista e feliz. Falta na verdade o desfecho que todos ( ou muitos) queremos ver.

Penso que a caminhada em direção a um mundo mais justo está com o passo acelerado, mas aí me questiono: será que é o que se quer realmente?

É claro que não precisa ser nenhum gênio para entender que a redução das desigualdades e, consequentemente da miséria, é primordial pra se reduzir a violência e as insatisfações generalizadas na sociedade. Em outras palavras, Ricos do Brasil, se vocês querem sossego e bem estar, apoiem a distribuição de rendas e o fim da pobreza.

E não é fazendo política assistencialista (dando o peixe em vez de ensinar a pescar) que a solução está dada. Dar o peixe não transmite saber. Não é ensinamento. Quem dá o peixe continua detentor do expertise da pescaria.

Queria um desfecho épico como a música que entoei ao ler seu texto: menos desigualdade, menos assistencialismo, menos hipocrisia, mais empatia à dor do outro, menos fome e sede, mais Educação e mais harmonia no final.

Um cenário como estes é tão mais lógico e confortável para todos que eu chego a ter vergonha de viver num país de tanta opulência e regalia aliadas a tanta gente sem recursos, sem cidadania e sem dignidade. Me sinto como na festa do cafona, só que dessa vez de verdade. Será que conseguimos ser um pouco mais fashion?

Dito isso, só chamo a atenção para um ponto de divergência: em tese, concordo com sua crítica ao assistencialismo. Mas, no Brasil, nos últimos anos, muitos fazem essa crítica tendo como alvo o bolsa família e os programas contra a miséria, os quais têm sido absolutamente fundamentais nos avanços sociais recentes e na redução das desigualdades. Quem já viveu ou conviveu com grupos em miséria absoluta, em situação extrema de vulnerabilidade, sabe que ninguém fica em pé --nem física, nem psicológica, nem moralmente-- se não se alimentar e se não vir sua família alimentada. O governo federal entendeu isso e isso fez toda a diferença.

Ninguém aprende a pescar ou a fazer o que é que seja quando vive no limite da indigência mais devastadora.

BW: Luiz, obrigada por esclarecer algo que pode ter ficado de alguma forma confuso ou nebuloso. Quando critico o assistencialismo me refiro àquele que veste Prada e que dorme tranquilo em seu travesseiro de plumas: ajuda, se sente bem e quer manter uma razoável distância das classes mais baixas seja nos aviões, restaurantes ou hotéis.

Quem tem fome tem pressa. Dinheiro não traz felicidade para quem tem as necessidades básicas supridas. Para os miseráveis, aqueles abaixo da linha da pobreza, água potável é alegria e feijão com arroz é o nirvana. Se conseguirmos os alimentar, teremos condições de então formá-los e instruí-los, tornando-os cidadãos. Nesse caso, não se trata do assistencialismo que mencionei acima que deseja manter o status quo e sim de se tirar os sintomas mais graves para depois então tratar a causa.

Não, Luiz Eduardo. Não divergimos. Não dessa vez. Você com elegância e proficiência no assunto, explicou o que eu, amadora e sua fã, não consegui tão bem explicar.

Obrigada pelo seu tempo e sua atenção!

LE: Obrigado pelas palavras amigas e generosas, Bia.

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