Estrela em forma de ser humano

Novo filme do Scorsese revela que o guitarrista dos Beatles morreu queimando

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"Estou assinando papéis que não sei o que significam." A frase de efeito é dita por George Harrison em algum dia nublado de 1970. Ele tem 27 anos, longos cabelos de rockstar e um bigode estiloso, e eis a má notícia: os Beatles acabaram. Paul McCartney, visivelmente desconfortável, assina a poucos metros seus respectivos documentos. Advogados e jornalistas ficam só observando.

A cena ocorre aos 8 minutos de George Harrison: Living in The Material World (2011) de Martin Scorsese, cinebiografia do guitarrista dos Beatles que vem jogar luz sobre um homem por si já imensamente iluminado. O personagem é mesmo tão poderoso e versátil – além de educado, bem humorado, bonito e talentoso – que por vezes parece um santo.

Senão, vejamos o que diz sua ex-mulher na última cena (se não quiser saber, não leia): "Houve uma profunda experiência quando George deixou seu corpo. Era visível. Vamos dizer que você não precisaria ligar a luz se quisesse filmá-lo. Ele iluminava o quarto."

Metáforas a parte, a vida de Harrison pode mesmo ser lida como uma busca espiritual tal e qual a dos grandes homens curiosos que já andaram sobre a Terra. Já rico, realizado e ovacionado aos 27, o personagem que diz "não sei o que esses papéis significam" em nada difere do príncipe Sidarta que prescinde da riqueza pra virar Buda na floresta, do São Francisco que vai se divertir com os mendigos e os macacos.

Por sinal, a banana de Harrison pra Civilização Ocidental é uma das delícias desse filme igualmente imenso e delicioso – são 208 minutos de clássicos dos anos 60 e 70, piadas bem contadas e casos curiosos do rock envolvendo um triangulo amoroso com Eric Clapton. A certa altura do campeonato Harrison faz questão de bancar o filme A Vida de Brian (1979) do grupo Monty Pyton, e se diverte a valer vendo as críticas dos empedernidos e reacionários: "Como vocês podem ridicularizar o Sermão da Montanha?" se exaspera um deles. Motivo da celeuma: na cena, Jesus Cristo (ou Brian, seu alter ego) profere as "mais mais belas palavras já ditas no mundo." No fundo, um gaiato solta a pérola: "Dá pra repetir falando mais alto?"

Pois é pra "ouvir mais alto" que Harrison toca pra Índia afim de escalar a sua própria montanha sagrada. Como é um ser humano místico e espiritualizado, aberto a acreditar no intangível, mas sem nenhuma inclinação honesta pelo cristianismo, mergulha no panteão do hinduísmo, nas técnicas de meditação transcendental e nas escalas não convencionais da musica indiana. Tudo isso, junto com as primeiras experiências com ácido lisérgico, fazem com que os Beatles atinjam um grau de experimentalismo e criatividade que poucas vezes se tem visto. Não se enganem: Lennon e McCartney faziam a massa, mas era Harrison quem salpicava o tempero.

Mas tudo deve passar, e depois que a banda acaba o guitarrista continua sua busca. Leva o músico Ravi Shankar pra tocar em Nova Iorque, produz o Concerto para Bangladesh e esbarra com Roy Orbison e Bob Dylan (personagem de outro filme de Scorsese). Lança vários discos, alguns mais ótimos os que outros; é abençoado por décadas de um casamento feliz e amizades maravilhosas; faz música autoral, que ocasionalmente passa na rádio.

Todos têm algo de bom a dizer a respeito de George Harrison, não por acaso. Familiares e amigos o amam por suas mil qualidades, mas todos nós conjugamos o mesmo verbo pelo simples motivo de ele ser um excelente criador de frases que colam e versos que provocam frêmitos nas senhoritas e lágrimas nos cavalheiros. Canções bacanas e observações displicentes como "lá vem o sol" ou "há algo nela que se move."

Quem vê isso não precisa ler todas as alíneas de um contrato.

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