Exposição que marcaria data da abolição é censurada em Santa Catarina

Quadros de Bruno Barbi seriam expostos no Shopping Iguatemi de Florianópolis e retratam dez rostos de mulheres negras aquareladas. Artista denuncia “covarde tentativa de ocultar um racismo latente, sob a justificativa de que temas polêmicos poderiam melindrar seus clientes brancos e ricos”

Exposição "Pertencimento"
Exposição "Pertencimento" (Foto: Divulgação)
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247 - O artista Bruno Barbi denuncia que sua exposição “Pertencimento”, que seria exposta no Shopping Iguatemi, de Florianópolis, Santa Catarina, foi alvo de censura e teve a abertura cancelada. A inauguração aconteceria nesta quinta-feira, 13 de maio - data que marca a abolição da escravatura.

O artista chama a decisão de “ato covarde” e uma “tentativa de ocultar um racismo latente, sob a justificativa de que temas polêmicos poderiam melindrar seus clientes brancos e ricos”. Leia abaixo a íntegra de seu manifesto sobre o tema:

A exposição PERTENCIMENTO, com quadros pintados por mim e texto de apresentação escrito por Gislene Santos, com data marcada de abertura hoje, dia 13 de maio de 2021 às 10 horas da manhã no Vila Romana Shopping, antigo shopping Iguatemi, no bairro Santa Mônica em Florianópolis, sofreu um ato de CENSURA e não será realizada.

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A exposição retratando 10 rostos de mulheres negras aquareladas, tem como argumento central do texto de apresentação o quão a presença Negra pode ser incômoda em espaços não reservados a ela, e aonde quer que seja que ela incomode este será o seu lugar. 

Com quase uma década de arte e ativismo dedicado a luta antirracista, aprendi nesta curta trajetória de que esta arte ativista incomoda e provoca, mas sempre tende a ser melhor aceita quando não vem acompanhada de vozes negras reais. A partir deste entendimento e de que não precisamos de mais 'Princesas Izabel' e de que a arte carrega esse poder da transformação social efetiva, nada mais que eu produzo deixou de vir acompanhado de falas e demandas reais do povo negro, convidando sempre mulheres e homens negras e negros para legitimar e dar sentido aos trabalhos. A partir disso ficou cada vez mais evidente em quais lugares ela seria aceita ou não. 

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A série PERTENCIMENTO foi CENSURADA às vésperas de sua abertura oficial, no ato covarde de tentativa de ocultar um racismo latente, sob a justificativa de que temas polêmicos poderiam melindrar seus clientes brancos e ricos, admitindo com isso que a presença Negra dentro desse espaço é um tema polêmico e de que seus clientes não a admitem. Este manifesto denuncia e rechaça a atitude elitista, racista, irresponsável do Shopping Iguatemi. Desde sempre sabemos que estamos em uma cidade de valores ultraconservadores, colonialistas, preconceituosos e entendemos que essa exposição que não aconteceu, cumpre seu maior papel de denunciar a segregação e a discriminação pela população negra historicamente apagada da cidade é submetida sistematicamente. 

Pertencimento é resistência e protesto, sobre uma política social higienista que impede toda sociedade de avançar em nome da manutenção dos privilégios de muito poucos. Não desistiremos, não a baixaremos nossas cabeças, a luta anti-racista é uma obrigação de todos e nós nos orgulhamos de estar deste lado da trincheira.

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