Gil, Chico e a história de um clássico contra a opressão que segue atual

A letra de Cálice segue extremamente atual. Gil falou das origens da canção após a live de Maria Bethânia, que a cantou durante a performance do último sábado (13). Relembre:

Na voz de Chico e Gil, Cálice é um grito contra a nova forma de ditadura
Na voz de Chico e Gil, Cálice é um grito contra a nova forma de ditadura (Foto: Mídia Ninja)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Rede Brasil Atual - Uma das canções clássicas do período da ditadura nasceu durante um encontro na Semana Santa de 1973, no Rio de Janeiro. Era sexta da Paixão, que naquele ano caiu em 20 de abril. Chico Buarque recebeu em seu apartamento Gilberto Gil, que levava uma ideia na cabeça. Da reunião de ideias, notas e letras, iria surgir Cálice, cuja letra parece seguir atual. Basta ouvir, por exemplo, a versão recente de Renato Braz, com Roberto Leão, Mario Gil e Breno Ruiz, com pitadas de Fado Tropical.

Gil voltou a falar das origens da canção, ao escrever no Twitter depois da live de Maria Bethânia, no sábado (13) à noite. Ela cantou Cálice, mas o gerador de caracteres mostrou apenas Chico Buarque como autor. Proibida, a canção só foi liberada em 1978, gravada por Chico e Milton Nascimento.

Pensamentos circulantes

“Pensei em levar alguma proposta e, um dia antes, me sentei no tatame, onde eu dormia na época, e me pus a esvaziar os pensamentos circulantes para me concentrar”, contou Gil. Ele lembrou que, à época, Chico morava na Lagoa Rodrigo de Freitas, que acabou entrando na letra.

Esse silêncio todo me atordoa

Atordoado eu permaneço atento

Na arquibancada pra a qualquer momento

Ver emergir o monstro da lagoa

"Como era sexta-feira da Paixão, a ideia do calvário e do cálice de Cristo me seduziu, e eu compus o refrão incorporando o pedido de Jesus no momento da agonia”, relembra Gil. “Em seguida escrevi a primeira estrofe, que eu comecei me lembrando de uma bebida amarga chamada Fernet, italiana, de que o Chico gostava e que ele me oferecia sempre que eu ia a sua casa.”

Cálice vira cale-se

Assim, no dia seguinte, sábado, Chico ofereceu a Fernet e Gil mostrou o que já tinha feito. “Quando, cantando o refrão, cheguei ao ‘cálice’, no ato ele percebeu a ambiguidade que a palavra adquiria, e a associou com ‘cale-se’, introduzindo na canção o sentido da censura”, comenta o compositor baiano. “Depois, como eu tinha trazido só o refrão melodizado, trabalhamos na musicalização da estrofe a partir de ideias que ele apresentou. E combinamos um novo encontro.”

Gil fez mais uma estrofe e Chico, outras duas. Quatro, todas em oito decassílabos, lembra Gil. “Dois ou três dias depois nos revimos e definimos a sequência. Eu achei que devíamos intercalar nossas estrofes, porque elas não apresentavam um encadeamento linear entre si. Ele concordou, e a ordem ficou esta: a primeira, minha, a segunda, dele; a terceira, minha, e a última, dele. Na terceira, o quarto verso e os dois finais foram influenciados pela ideia do Chico de usar o tema do silêncio.”

Silêncio e censura

Esse tema já aparecia antes, no verso “Silêncio na cidade não se escuta”, escrito por Gil. “Quer dizer: no barulho da cidade, não é possível escutar o silêncio. Quer dizer: não adianta querer silêncio porque não há silêncio, ou seja: não há censura, a censura é uma quimera; além do mais, ‘mesmo calada a boca, resta o peito’ e ‘mesmo calado o peito, resta a cuca’: se cortam uma coisa, aparece outra.”

Pouco tempo depois, os autores se apresentaram no Phono 73, show coletivo realizado no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo. Ao tentar cantar Cálice, os microfones iam sendo desligados, não se sabe se pela censura ou pelos próprios organizadores. Tenho a impressão de que ela tinha sido apresentada à censura, tendo sido recomendado que não a cantássemos, mas fizemos uma desobediência civil e quisemos cantá-la”, diz Gil.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

WhatsApp Facebook Twitter Email