João Paulo Cunha fala sobre “Fim”, primeiro livro de Fernanda Torres

Roteiro apresenta cinco amigos, "quase na beirada do túmulo", que "relembram seus grandes ou humilhantes momentos", descreve o ex-deputado João Paulo Cunha, em nova resenha publicada em seu blog; "É uma pena que artista assim vai escasseando no mundo da Tevê, mas a literatura ganha uma boa escritora", diz ele

Roteiro apresenta cinco amigos, "quase na beirada do túmulo", que "relembram seus grandes ou humilhantes momentos", descreve o ex-deputado João Paulo Cunha, em nova resenha publicada em seu blog; "É uma pena que artista assim vai escasseando no mundo da Tevê, mas a literatura ganha uma boa escritora", diz ele
Roteiro apresenta cinco amigos, "quase na beirada do túmulo", que "relembram seus grandes ou humilhantes momentos", descreve o ex-deputado João Paulo Cunha, em nova resenha publicada em seu blog; "É uma pena que artista assim vai escasseando no mundo da Tevê, mas a literatura ganha uma boa escritora", diz ele (Foto: Gisele Federicce)

247 - Primeiro livro da atriz Fernanda Torres, "Fim" traz uma reflexão sobre a morte. O roteiro "lembra o hall dos velórios quando encontramos parentes e amigos que vão evocando fatos pretéritos do morto ali esticado e dos vivos presentes", descreve João Paulo Cunha, em nova resenha publicada em seu blog. Depois de avaliar o livro, o ex-deputado aproveita para falar da autora: "Boa atriz, bem humorada e de tiradas inteligentes. Aumentou minha admiração quando comecei a acompanhar seus escritos". Leia abaixo a íntegra:

Em nova resenha, João Paulo fala sobre o FIM, de Fernanda Torres

Somos finitos. Ainda bem! "De que adianta o marasmo eterno?" Em determinada altura da vida descobrimos que temos menos futuro do que nossas memórias. Passamos então a viver das lembranças. Seletivamente, esquecemos nossas derrotas e acentuamos nossas vitorias. Para essa fase da vida é bom ter carregado alguns amigos para lembrarmos juntos. Gozar um pouco um da cara do outro e recordar as boas aventuras que animavam a gente a viver e lutar, sabendo que o fim, mesmo que não desejássemos, era a morte.

O roteiro apresentado por Fernanda Torres lembra o hall dos velórios quando encontramos parentes e amigos que vão evocando fatos pretéritos do morto ali esticado e dos vivos presentes. E para celebrar esses encontros resolvem marcar uma nova reunião fora dali, em outro ambiente, para continuar a conversa. Quase nunca acontece. Depois se encontrarão em outro velório ("Quem será o próximo? – bradaria no velório de Álvaro") quando enterrarão outro amigo ou parente e combinarão outro encontro que não acontecerá.

Assim Fernanda Torres inaugura sua presença na literatura brasileira com o livro "Fim", da Cia. das Letras.

Os cinco amigos, quase na beirada do túmulo, relembram seus grandes ou humilhantes momentos. Seus nomes, suas características e suas personalidades servem para identificar qualquer um daquela quadra e daquela idade. Ou seja: apesar de Fernanda Torres fulanizar (Álvaro, Silvio, Ribeiro, Neto e Ciro) no fundo são os homens daquela época. E vão, na primeira, ou na terceira pessoa, repassando suas vidas. Heroicas e frustradas trepadas, traições entre amigos, grandes bebedeiras, sonhos e expectativas não realizadas; mas também muita vida, paixão e prazer.

O livro é dividido em cinco capítulos (fora o epílogo e o próximo) que mostram os amigos e os tamanhos de suas respectivas vidas. Primeiro: Álvaro nasceu em 26/09/1929 e morreu em 30/04/2014 e assim sucessivamente. Talvez Fernanda Torres, pela sua capacidade criativa, pudesse ter definido uma lápide para cada um. Desta forma teríamos eternizado nos cemitérios do Rio a existência de homens que viveram a intensidade de uma época.

Fernanda busca caracterizá-los: "heroico", "conservador", "trágico", "burro", "devasso". Contudo, são homens que na década de 60/70 se entusiasmaram com as comportas abertas para a liberdade. Um baseado na boca, o sexo e o barulho da guitarra ("não era ninguém sem meu pó, meu uísque e meu baseado"). Em comum, tiveram casamentos tortuosos e curtos. No entanto, com o passar do tempo, seus encontros serviam para reclamar da vida e sua passagem rápida. "Não notei a velhice chegar. É traiçoeira a danada. Aos 30, não se aparenta mais 15, aos 40, desaparecem os sinais dos vinte, aos cinquenta os de trinta, leva uma década para recuperar as perdas."

No livro o amigo que desperta lembranças mais saudáveis foi o que morreu mais cedo. Morreu com 50 anos e é lembrado pelo vigor e sedução. Outros morreram com mais de 80 anos e serão lembrados pelos enfrentamentos com os obstáculos nas ruas, a lista de médicos, a encheção de saco, brigas e outras agruras que os velhos passam hoje em dia. Além da solidão, que na velhice chega a ser cruel. A autora quis dizer alguma coisa? Há prazo de validade para a vida? O fim é inexoravelmente a morte ou pode se decretar o fim antes?

Fernanda muitas vezes coloca no balanço da vida dos amigos chavões preconceituosos que, no entanto, ficam fluidos pelo conjunto do livro (aliás, às vezes nos capítulos lidos de forma autônoma não se observa a força do livro) e não incomodam. Mulheres "adoram botar a culpa da infelicidade delas em quem está ao seu lado". Mulheres "como falam, não cansam de tagarelar". "Ficou casado porque era mulato". Queria dar certo na vida "por isso não aprontava muito, pois era negro". "Mulher adora ser maltratada". Eventuais platitudes localizadas também não incomodam.

Sempre gostei de Fernanda Torres. Boa atriz, bem humorada e de tiradas inteligentes. Aumentou minha admiração quando comecei a acompanhar seus escritos. Mesmo muitas vezes não concordando, é uma mulher de ideias e opiniões que colocam o debate em outro nível. É uma pena que artista assim vai escasseando no mundo da Tevê, mas a literatura ganha uma boa escritora.

João Paulo Cunha
Março/2014

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247