Juca Ferreira: governo Bolsonaro abriu uma guerra cultural sem sentido no Brasil

Ex-ministro da Cultura, em entrevista à TV 247, afirma que o desmonte cultural promovido pelo governo Bolsonaro é uma tentativa de exercer um controle social da população brasileira. Sobre o massacre de Paraisópolis, chamou de criminalização do funk. "O funk é a bola da vez da criminalização”, disse. Assista

Jair Bolsonaro e Juca Ferreira
Jair Bolsonaro e Juca Ferreira

247 - O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira conversou com a TV 247 nesta semana sobre a destruição da cultura brasileira praticada pelo governo Bolsonaro e afirmou que esta é uma tentativa de exercer controle sobre a sociedade brasileira: “eles querem fazer com que a roda do mundo gire para trás”. Juca falou também da matança promovida pela Polícia Militar de São Paulo em um baile funk de Paraisópolis, assassinando nove jovens, e da tentativa de criminalização do gênero.

Para o ex-ministro, o atual governo, conservador, tenta impedir o progresso de tudo que é novo, avançado e crítico, como parte de um plano de controle social. Sendo um importante instrumento de evolução, a cultura é alvo do desmonte do governo, explicou. “A necessidade é ter um controle social sobre a sociedade brasileira. A sociedade brasileira vem evoluindo, a arte e a cultura são um instrumento importante dessa evolução de construção de uma subjetividade mais complexa no Brasil, de uma aceitação do mundo, da liberdade que o século XXI vem produzindo. Eles querem fazer com que a roda o mundo gire para trás, é uma visão conservadora, querem nos conduzir para a Idade Média, sei lá onde é o ponto de referência deles, mas de qualquer jeito eles estão fazendo um esforço de tentar conter tudo que é contemporâneo, tudo que é avançado, tudo que é sensível, tudo que é crítico”.

Juca Ferreira ressaltou que a cultura é um ponto em comum importante entre os brasileiros, de forma que garante a sensação de pertencimento destes ao Brasil e os firma como nação. “Eles estão abrindo uma guerra cultural no Brasil sem sentido, o país tem na sua cultura um dos pontos mais fortes, é um elemento de coesão social. Todo brasileiro se sente pertencente a este país muito pela cultura, seja um gaúcho, uma pessoa do Pará, um baiano, um pernambucano. Dentro das nossas diferenças, nós sabemos que somos partes de um mesmo país. Essa guerra é uma guerra inglória, negativa para o país, uma tentativa de exercer um nível de controle irreal. Eles não vão conseguir, o país é bem maior do que este projeto medíocre, bem maior. O Brasil vencerá, não tenho dúvidas”.

Sobre a ação policial que matou nove jovens em Paraisópolis, o ex-ministro disse que a polícia e as autoridades não veem com bons olhos o funk. Ele rebateu o argumento, utilizado inclusive pela PM, em relação à matança de Paraisópolis, de que o baile funk abriga traficantes e criminosos. “A alegação é de que nos bailes funk têm traficante, gente armada e venda de drogas. Uma vez em uma discussão com o comando da Polícia Militar de São Paulo eu disse: ‘qualquer evento que aconteça nesses bairros, pode ser uma missa ou o que for, o pessoal do tráfico vai estar presente porque eles são parte dessa realidade’. Isso não é suficiente para criminalizar o funk. O funk é a bola da vez da criminalização”.

Ele falou também que o baile funk é, às vezes, a única alternativa de lazer e entretenimento do jovem da periferia e que, se necessário, é preciso estudar maneiras e locais mais apropriados para que este tipo de evento ocorra, sem também prejudicar moradores que não estão interessados em participar do baile. “Veio uma segunda camada de argumentos, de que os pais dos jovens que participam dos bailes funk são contra pelo barulho e por essa convivência com marginais. Em uma área socialmente muito carente de lazer, o baile funk é algo especial na vida do jovem. Uma vez fui na periferia de São Paulo, na Zona Leste, entrei em uma escola para fazer uma visita e perguntei ‘o que é o baile funk para vocês?’. Uma menina de uns 14 ou 15 anos disse: ‘para mim, é tudo. Minha melhor roupa, meu melhor sapato eu guardo para ir para o baile funk zoar os meninos. Eu passo a semana pensando no baile funk’. Então eu percebi que não há possibilidade de se reprimir o baile funk dessa maneira irresponsável, superficial, com essa argumentação que não tem consistência. É possível transformar o baile funk em algo diferente do que é”.

Inscreva-se na TV 247 e assista à entrevista na íntegra:

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