O colecionador de lembranças

Ao longo dos anos, me livrei de tudo aquilo que não fazia mais sentido ou, que por algum motivo, tivesse concluído seu ciclo para comigo

Ao longo de minha vida sempre tive dificuldades em colecionar coisas. Qualquer que fosse o propósito, sempre o objeto em questão acabaria por ir para o lixo, amassado, quebrado ou sujo. Ou todas as opções juntas. Em muitas ocasiões chegava até a esquecer que, de fato, começara alguma coleção. Mesmo quando garoto, nunca completei um álbum de figurinhas sequer. Felizmente, com o advento dos arquivos digitais consigo guardar algumas fotos e, ainda assim, não faço ideia por onde anda meu antigo notebook, velho guerreiro que detém parte da história recente de minha vida.

Mas a verdade é que no último feriado, longe do trânsito e da folia carnavalesca, comprei um hack para minha sala que há tempos vinha namorando. Deixei um espaço para colocar alguns livros e DVDs e foi nessa hora que percebi que são poucos os livros que guardei. Sobraram alguns preferidos e outros que ainda vou ler. Boa parte seguiu caminho imbuído na missão de ilustrar a vida de outrem. Lembro-me de ter doado alguns exemplares à biblioteca da cidade no sentido de “liberar espaço” e nunca fiz questão de cobrar a devolução de um exemplar. Até mesmo as revistas, que tanto aprecio, sobraram parcas edições e ao me deparar com a minha incompetência em guardar referências do passado, percebi que, de fato, sou um grande colecionador. Mas um colecionador de lembranças, não de coisas.

Ao longo dos anos, me livrei de tudo aquilo que não fazia mais sentido ou, que por algum motivo, tivesse concluído seu ciclo para comigo. Me dói dizer de forma fria que isso inclui até mesmo algumas pessoas que também deixaram de fazer sentido. Por outro lado, colecionei amizades verdadeiras e conheci gente que não apenas passou pela minha vida, mas se tornou parte de momentos ora felizes ora tristes, mas com certeza importantes. E muitas dessas pessoas nem imaginam como são presentes em minha coleção de lembranças!

Nesse período, é verdade, mesmo amizades que por obra e determinação do destino tomaram caminhos distintos, em que a convivência cede espaço para a saudade, têm lugar recorrente nessa minha imensa coleção. E conforme penso nas lembranças que coleciono e dos momentos que me são caros, percebo que tudo aquilo que para mim é definitivamente importante, não está nem jamais poderia estar associado a um objeto, Nesse sentido, me conforta pensar que ninguém, no mundo, terá uma coleção igual a minha.

O único efeito colateral é o fato que minha coleção não é seletiva e, por vezes, lembranças colecionadas em momentos que preferia esquecer são acessadas por uma música, um cheiro ou um prato. Pode acontecer e acontece a todos nós... Mas também, por exemplo, nunca vou esquecer o cheio e o gosto do bolo “brevidade” de minha avó e ter uma lembrança dessas quando menos se espera, faz do dia um lugar melhor para se estar! Logo, posso afirmar que a minha coleção vem acompanhada de trilha sonora, de cheiros e sabores incríveis colecionados ao longo de 35 anos bem vividos.

Por isso, fico feliz em ver o espaço vazio em minha estante porque sei que ali estarão lembranças futuras dos livros que vou ler e dos filmes que assistirei e dos momentos que estão no porvir. E, com certeza, tudo acompanhado de pessoas importantes que farão do meu cotidiano as boas lembranças de amanhã. É. No fundo, no fundo, acho que precisarei comprar uma estante maior. Muito maior.

Ibiapaba Netto é jornalista e mantém o blog www.vidadereporter.com.br

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