O poder virtual

No videogame 1378 Km, você é um cidadão da Alemanha Oriental que tenta cruzar aquela fronteira e o guarda comunista tentará evitar que você o faça

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

A fronteira que separava a Alemanha, quando ela ainda se dividia entre Leste e Oeste, estendia-se ao longo de 1378 km. Mas,1378 Km é também o nome de um videogame que levantou poeira no mundo todo, particularmente na Alemanha. Pois, brincar em um computador é uma coisa. Mas, jogar com uma das mais atrozes recordações da história recente, é outra coisa muito diferente.

Até a queda do muro de Berlin, em 1989, para tentar sair do regime comunista da Alemanha Oriental, podia-se ter que se pagar com a própria vida. Jens M. Stober, com 23 anos de idade e estudante de arte e desenho na Universidade de Karlsruhe, criou um videogame como seu projeto para ser: 'O melhor método de fazer os jovens se aproximarem da história'.

Mas as vítimas do comunismo não tiveram a mesma opinião, por considerarem que isto não só afrontava os que sofreram terríveis consequências ao tentar fugir daquele regime, como contribuiria para uma brutalização da sociedade de quem vive hoje em uma Alemanha unificada.

No videogame 1378 Km, você é um cidadão da Alemanha Oriental que tenta cruzar aquela fronteira e o guarda comunista tentará evitar que você não o faça. Mas, 1378 Km é um jogo persuasivo, um jogo sério, cujo objetivo não é entreter e sim agitar as consciências.

Diante da enxurrada de cartas recebidas pela universidade e da campanha lançada por vários veículos, encabeçados pelo jornal sensacionalista Bild, a universidade decidiu adiar um ato de apoio em defesa do estudante, por achar impossível fazer a apresentação serena de 1378 Km, diante de um momento em que estavam todos com os ânimos exaltados pela controvérsia gerada pelo videogame.

Jens M. Stober colocou uma mensagem na página do 1378 Km, pedindo perdão às vítimas: "A interatividade do jogo submete a juventude à história recente da Alemanha". E se defendeu, negando que obriguava o guarda a disparar. Pois, assegurava ele, o guarda também tem a mesma alternativa de cruzar o muro de Berlin e, só ganhará o jogo quem 'apertar o gatilho'...

Miguel Sicart, professor de design de videogames da Universidade Tecnológica de Copenhagen, considerou que a linguagem do jogo é bem mais poderosa do que a do cinema, em uma representação da guerra, porque o jogador/protagonista, não apenas contempla os fatos, mas atua, experimentando as suas virtudes e defeitos.

Ao se realizar um videogame como este, não se deixa claro se isto é eticamente correto. Pense no que ocorreria hoje, se alguém tivesse a 'ideia brilhante' de lançar nos Estados Unidos um videogame chamado 11 de Setembro. Ou, considere jogar A Tomada do Poder, seguindo os preceitos do famoso 'Decálogo', apresentando as ações táticas a serem executadas para a tomada do poder... Como a história se encarregou de por fim à questão ideológica, seus ideais então preconizados, podem revelar assombrosas semelhanças com os fatos que ocorrem nos dias de hoje:

1.  Corrompa a juventude e de-lhes liberdade sexual;

2.  Se infiltre e depois controle todos os veículos de comunicação de massa;

3.  Divida a população em grupos antagônicos, incitando-os a discussões sobre assuntos  sociais;

4.  Destrua a confiança do povo em seus líderes;

5.  Fale sempre sobre democracia e sobre Estado de Direito. Mas, assim que houver oportunidade, haja sem nenhum escrúpulo e assuma o poder;

6.  Colabore com o esbanjamento do dinheiro público, coloque a imagem do país em descrédito, especialmente no exterior, e provoque o pânico e o desassossego na população, através da inflação;

7.  Promova greves, mesmo ilegais, em setores vitais do país;

8.  Promova distúrbios e contribua para que as autoridades constituídas não os coíbam;

9.  Contribua para a derrocada dos valores morais, da honestidade e da crença nas promessas dos governantes. Os parlamentares, infiltrados nos partidos democráticos, devem acusar os adversários, sem pena de expô-los ao ridículo, obrigando-os a votar somente o que for de interesse da nossa causa;

10. Procure catalogar todos os que possuam armas de fogo, para que sejam confiscadas no momento oportuno, tornando impossível qualquer resistência à causa.

Se os preceitos desse 'Decálogo' lhe parecem familiares, escolha um personagem e vá à luta. Participe deste instigante jogo. Pois, é muito provável que você até possa conquistar este 'poder virtual'. 

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

WhatsApp Facebook Twitter Email