Olha a fila aí geeeeente

Para quem gosta de uma boa fila, um grande congestionamento e de pagar micos em série, vem aí o carnaval numa rodovia perto de você. Não perca!

Quem pensa que paulista gosta de trabalho está enganado, porque paulista gosta mesmo é de fila! E não há lugar melhor para se curtir uma fila do que no litoral de São Paulo, durante o carnaval. O sujeito leva de seis a oito horas para percorrer uma distância de 90 km. E mesmo praticamente parado ainda consegue levar multa por excesso de velocidade. Coisas que só São Paulo faz por você!

Pegar estrada no carnaval é coisa pra macho. E só alguém muito macho mesmo é que pega estrada com filho, cachorro, periquito, papagaio e o pior de tudo: sogra! Levar a sogra pra viajar no carnaval não é bondade, é penitência! Mesmo não tendo todos esses apetrechos, prefiro ficar em casa e curtindo a cidade de São Paulo, que se não está totalmente vazia, ao menos empresta seu usual congestionamento para quem se arrisca a molhar os glúteos no litoral.

Fila na praia em feriado prolongado é uma instituição paulista. O cara desce para o litoral para descansar, mas tem de acordar às 5h se quiser comprar pão. Se passar das 5h30, a fila já dobra a esquina e às 6h o pão já acabou e dono da padaria, que mais é que a fila aumente! E supermercado então? É cotovelada para todo lado e tem até guardador de lugar na fila profissional. “Vai um lugar aí, tia? É cinco real!”.

A verdade é que momentos agradáveis e carnaval na praia são coisas incompatíveis para quem, como eu, já passou dos 30 anos e aproveitou tudo o que podia noutros carnavais. Encarar uma casa alugada, cheia de mofo e apenas um banheiro para abrigar 10 pessoas, é por si só uma infração a qualquer lei de saúde pública. Basta uma caganeira para que, literalmente, a merda seja feita! A turma fica na cervejinha, caipirinha e petiscos o dia todo. Quem prepara tudo isso nos quiosques, em meio à correria, é no mínimo flexível com a higiene! Ou alguém duvida disso? O resultado é: ou o cara passa mal pelo o que bebeu, ou passa mal pelo o que comeu.

Ao longo dos anos aprendi a odiar o carnaval à medida que o carnaval provou também não gostar muito de mim. Tive mesmo a confirmação quando, dez anos atrás, consegui ingressos para assistir ao desfile das escolas de SP direto de um badalado camarote. À época convidei uma moça, fanática por escolas de samba, que jamais assistira o ziriguim pessoalmente. A logística envolvida para chegar ao sambódromo é imensa: você começa três horas antes e termina três horas depois. Paga-se por tudo: flanelinha, estacionamento, para entrar, paga para comer, paga para beber, paga para sair e, claro, paga mico o tempo todo.

Bem, para não prolongar a história, a melhor lembrança que tenho daquele carnaval é a ex-globeleza, Valéria Valência, no tempo que ela ainda era uma beleza, desfilando bem na minha frente. Outra era um canapé que, embora eu não saiba até hoje do que era feito, estava bom demais. O fato é a tal da escola do coração da moça entrou, o carro alegórico quebrou, a moça chorou e o Ibiapaba Netto aqui, literalmente, sambou!

Neste ano, sem querer jogar praga na turma, acredito que o carnaval será chuvoso. Digo isso não porque eu tenha visto na previsão. Mas porque todo ano chove durante o carnaval. Seja como for, vou caçar o que fazer por aqui mesmo sem arriscar salgar as nádegas no litoral. Sou paulista e numa dessa posso tentar achar algo legal para fazer, visitar alguma exposição, encontrar amigos, assistir a alguma estréia no cinema, enfim, qualquer coisa. Desde que haja uma bela fila para entrar, claro!

Ibiapaba Netto é jornalista e blogueiro. Escreve no www.vidadereporter.com.br

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