Petra Costa relata bastidores de Democracia em Vertigem

De certa forma, nossa política foi mais engenhosa que qualquer roteiro. Cunha foi preso logo após o impeachment. Lula, condenado quando liderava as pesquisas. Moro, nomeado ministro do candidato beneficiado, diz a cineasta Petra Costa

(Foto: Petra Costa)

Por Petra Costa, em seu twitter – Em 2013, eu estava em Istambul quando ocuparam a Praça Taksim. Lembro de ter falado em uma entrevista que o Brasil também deveria ocupar as ruas. Dali a seis dias explodiriam nossas jornadas de junho, que mudariam o eixo do país.

Filmar o #DemocraciaEmVertigem foi como foi como entrar na toca do coelho de Alice no País das Maravilhas. Um dia vi um protesto em Copacabana e desci pra filmar no impulso. Depois de 1001 noites, eu seguia na rua filmando a prisão de um ex-presidente.

Meses antes, eu tinha visto A Batalha do Chile, de Patricio Guzman, onde ele acompanha o golpe contra Salvador Allende gravando as ruas, o Congresso e o Palácio. Tentei fazer o mesmo: estar sempre nas ruas, no Congresso e no Palácio.

Um dia, refletindo sobre a minha relação com a democracia, pensei que eu e a democracia temos quase a mesma idade. Não deveríamos estar pisando em terra firme com 30 e poucos anos? Essa foi minha frase-guia para fazer o filme.

Eu não sou formada em cinema. Estudei antropologia. E minha área de interesse sempre foi o trauma. Em ELENA, tratei do trauma de perder minha irmã. Em Vertigem, da dor de perder o futuro que eu sonhava pro meu país.

Enquanto navegava as águas turvas da nossa política nacional, percebi como a história da minha família continuava surgindo na superfície. O pessoal é político, já dizia o slogan feminista dos anos 60.

Sorte minha que documentar era um hábito da minha avó. Um dia, ela me mostrou uma caixa de gravações em 16mm, que ela guardava na garagem. Desde então, tenho usado essas memórias em meus filmes.

Não foi fácil conseguir acesso aos bastidores do poder. Passei meses esperando uma entrevista com Dilma, que me prometiam sempre para “amanhã”. Gravei com Lula a primeira vez depois de esperar por 8 horas. Já Bolsonaro me deu acesso imediato.

De certa forma, nossa política foi mais engenhosa que qualquer roteiro. Cunha foi preso logo após o impeachment. Lula, condenado quando liderava as pesquisas. Moro, nomeado ministro do candidato beneficiado.

Nesses anos, aprendi muito sobre política acompanhando votações no Congresso, entrevistando dezenas de deputados e senadores, e me lançando em situações inusitadas, como quando o Cabo Daciolo me batizou no plenário. Já imaginaram? Mas isso já dá outra história.

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