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Portinari em Pequim: “o desenvolvimento da China é aquilo que meu pai sonhou para o Brasil”, diz João Candido Portinari

Mostra apresenta a milhões de chineses o pintor que transformou trabalhadores e excluídos em protagonistas da arte brasileira

João Candido Portinari apresenta a Exposição "O Brasil de Portinari", em Pequim (Foto: Brasil 247)
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Por Leonardo Attuch, de Pequim – A inauguração da exposição “O Brasil de Portinari”, nesta terça-feira (9), no Museu Nacional da China, em Pequim, marcou um dos momentos mais importantes da diplomacia cultural entre Brasil e China nos últimos anos. Integrando a programação oficial do Ano Cultural Brasil-China, a mostra leva a obra do maior pintor social brasileiro ao principal museu do país asiático, onde permanecerá por quatro meses e poderá receber até 4 milhões de visitantes.

Durante a abertura da exposição, João Candido Portinari, filho do artista e presidente da Associação Cultural Candido Portinari, fez ao Brasil 247 uma reflexão que ajuda a compreender o significado profundo da mostra. 

Tenho a sensação de que o desenvolvimento da China é aquilo que Portinari sonhou para o Brasil”, afirmou.

A declaração estabelece uma conexão entre a obra de Candido Portinari e a extraordinária transformação social promovida pela China nas últimas décadas. Em suas telas, o artista retratou trabalhadores rurais, camponeses, retirantes e famílias pobres que viviam à margem do desenvolvimento econômico. Sua pintura denunciava desigualdades, mas também expressava uma esperança permanente de que o progresso pudesse alcançar aqueles que construíam o país com o próprio trabalho.

Filho de imigrantes italianos e nascido em 1903 em Brodowski, no interior paulista, Portinari dedicou sua trajetória artística à representação do povo brasileiro. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), acreditava que a arte deveria estar comprometida com a realidade social e com a construção de uma sociedade mais justa. Em obras como “Lavrador de Café”, “O Café”, “Retirantes” e “Criança Morta”, transformou trabalhadores e excluídos em protagonistas da história nacional.

Obra clássica de Portinari, sobre o café. exposta na China
Obra clássica de Portinari, sobre o café. exposta na China(Photo: Brasil 247)

Na avaliação de João Candido, existe uma afinidade entre esse olhar social e o processo de desenvolvimento vivido pela China. Ao longo das últimas décadas, o país retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza e promoveu uma das maiores transformações socioeconômicas da história moderna. Se as telas de Portinari retratavam os dramas da exclusão social e a necessidade de superar a miséria, a experiência chinesa é vista por seu filho como uma demonstração concreta de que o desenvolvimento pode ser colocado a serviço da população.

Um texto para apresentar Portinari à China

A reflexão de João Candido ganha ainda mais relevância porque ocorre no momento em que milhões de chineses estão sendo apresentados à obra de seu pai.

Logo na entrada da exposição, os visitantes encontram um texto assinado por João Candido Portinari que apresenta o artista brasileiro ao público chinês. A mensagem foi concebida para explicar quem foi Portinari, sua importância para a cultura brasileira e o alcance universal de sua obra.

A exposição conta com apoio da Petrobras, do Grupo Pátria e de diversas instituições brasileiras e chinesas envolvidas na promoção do intercâmbio cultural entre os dois países.

No texto exibido na abertura da mostra, João Candido descreve a realização da exposição como a concretização de um sonho construído ao longo de décadas de trabalho do Projeto Portinari.
“É com profunda emoção que vejo este sonho se realizar no coração de Pequim.”

A frase sintetiza o significado histórico do evento. Embora Portinari seja reconhecido internacionalmente há décadas, poucas vezes sua obra foi apresentada em uma escala tão grandiosa quanto a proporcionada pelo Museu Nacional da China, uma das mais importantes instituições culturais do mundo.

A essência da condição humana

Ao apresentar seu pai ao público chinês, João Candido procura explicar as razões pelas quais um artista nascido no interior do Brasil alcançou reconhecimento universal.

“Muitos perguntam como um pintor nascido entre as plantações de café da terra vermelha do interior do Brasil pôde alcançar uma linguagem tão universal. A resposta está em uma verdade estrutural: Portinari não pintava apenas figuras; ele pintava a própria essência da condição humana.”

A definição ajuda a compreender por que suas obras continuam despertando interesse em diferentes culturas e continentes.
Portinari retratou personagens profundamente brasileiros, mas os sentimentos presentes em suas pinturas — esperança, sofrimento, dignidade, solidariedade e resistência — pertencem à experiência humana universal. É justamente essa capacidade de falar simultaneamente sobre o Brasil e sobre a humanidade que faz sua obra dialogar com públicos tão diversos.

O artista que deu rosto ao povo

Ao longo do século XX, poucos artistas brasileiros construíram uma representação tão poderosa do país quanto Portinari.
Enquanto boa parte da produção artística tradicional concentrava-se nas elites e nos centros urbanos, ele voltou seu olhar para os trabalhadores rurais, os imigrantes, os retirantes nordestinos, os negros, os camponeses e as crianças pobres.

Sua arte tornou-se um testemunho visual das desigualdades brasileiras, mas também uma celebração da força e da dignidade do povo.

Essa visão estava profundamente ligada às suas convicções políticas. Militante comunista e defensor da justiça social, Portinari acreditava que a arte deveria contribuir para ampliar a consciência sobre os problemas do país. Sua obra jamais foi neutra diante do sofrimento humano.

Ao mesmo tempo, nunca se limitou à denúncia social. O artista sempre buscou afirmar valores universais de fraternidade, solidariedade e paz.

A ponte entre Brasil e China

Em outro dos trechos mais marcantes do texto apresentado aos visitantes, João Candido define a obra de seu pai como uma ponte entre os povos.

“Ver a obra de Portinari é ver o povo brasileiro — suas lutas, sua fé e sua resiliência. Mas é mais do que isso: é ver uma ponte.”

A metáfora parece especialmente apropriada para uma exposição realizada em um momento de crescente aproximação entre Brasil e China.

Mais do que apresentar um artista brasileiro ao público chinês, a mostra promove um encontro entre duas experiências históricas marcadas pela valorização do desenvolvimento nacional e pela busca de melhores condições de vida para suas populações.

A partir das telas de Portinari, os visitantes chineses têm contato com a história social brasileira, suas contradições e seus desafios. Ao mesmo tempo, a própria realização da exposição simboliza o fortalecimento dos laços culturais entre duas nações que desempenham papel central na construção de uma ordem internacional mais equilibrada e multipolar.

Guerra, paz e humanidade

No texto de apresentação da exposição, João Candido também recorda o compromisso humanista que marcou toda a trajetória do artista.

“O compromisso absoluto de meu pai com a humanidade culminou no monumental díptico Guerra e Paz, nas Nações Unidas, um manifesto ético e um clamor pela harmonia entre os povos.”

Os painéis, considerados uma das maiores obras da arte brasileira, sintetizam a visão universal de Portinari. Mais do que retratar o Brasil, ele buscava compreender os dramas e as esperanças da humanidade.

Essa mensagem adquire significado especial em um período marcado por conflitos geopolíticos e tensões internacionais.

Um abraço entre culturas

Ao concluir sua mensagem aos visitantes chineses, João Candido resume o espírito da exposição e do Ano Cultural Brasil-China.
“Que esta exposição seja o abraço entre nossas culturas e a prova de que, por meio da arte, nossos povos sempre caminharão juntos.”

A frase encerra uma apresentação que vai muito além da biografia de um artista.

Durante os próximos quatro meses, milhões de chineses conhecerão um Brasil retratado por um homem que dedicou sua vida a pintar trabalhadores, camponeses, migrantes e excluídos. Conhecerão também um artista que acreditava que o desenvolvimento só possui sentido quando alcança o povo.

Talvez seja justamente por isso que João Candido Portinari tenha encontrado na China contemporânea uma imagem tão próxima dos ideais que inspiraram a obra de seu pai. Em Pequim, as telas de Portinari não contam apenas a história do Brasil. Elas ajudam a construir uma ponte entre duas nações unidas pela convicção de que a cultura, a soberania e o desenvolvimento humano podem caminhar juntos.

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