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Portinari em Pequim: quando a arte do povo brasileiro encontra o desenvolvimento socialista chinês

Exposição histórica no Museu Nacional da China projeta ao mundo a obra do artista que transformou os trabalhadores e os excluídos em protagonistas

Exoposição Portinari marca o Ano. Cultural China-Brasil (Foto: Brasil 247)
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Por Leonardo Attuch – A abertura da exposição “O Brasil de Portinari”, nesta terça-feira (9), no Museu Nacional da China, em Pequim, transcende o universo das artes. Integrando a programação oficial do Ano Cultural Brasil-China 2026, a mostra representa um dos mais importantes eventos de diplomacia cultural já realizados entre os dois países e projeta para milhões de visitantes chineses a obra daquele que talvez seja o maior intérprete visual da alma brasileira.

Com apoio da Petrobras e organização do Projeto Portinari, a exposição chega ao principal museu da China em um momento de aprofundamento das relações bilaterais entre Brasília e Pequim. Mais do que apresentar pinturas, desenhos e estudos de Candido Portinari, a iniciativa estabelece um diálogo entre duas experiências históricas marcadas pela busca do desenvolvimento, pela valorização do povo e pela construção de sociedades mais justas.

A escolha de Portinari para representar o Brasil diante do público chinês possui um simbolismo profundo. Poucos artistas conseguiram retratar com tanta intensidade os trabalhadores, os camponeses, os migrantes e os excluídos. Em suas telas, o povo brasileiro deixa de ser figurante e passa a ocupar o centro da narrativa nacional.

Essa visão social da arte dialoga diretamente com uma das características mais marcantes da experiência chinesa contemporânea: a centralidade do desenvolvimento humano como projeto nacional.

O pintor do povo

Nascido em 1903, em Brodowski, interior de São Paulo, filho de imigrantes italianos que trabalhavam nas lavouras de café, Portinari conheceu desde cedo a realidade das classes populares brasileiras.

Ao longo de sua trajetória, transformou essa experiência em arte.
Obras como “Retirantes”, “Criança Morta”, “Lavrador de Café”, “O Café” e dezenas de outras se tornaram documentos históricos sobre as desigualdades brasileiras. Mais do que denunciar a pobreza, Portinari buscava conferir dignidade aos trabalhadores e revelar sua importância na construção da nação.

Sua pintura foi profundamente influenciada por uma visão humanista e social. Militante do Partido Comunista Brasileiro durante parte de sua vida, Portinari acreditava que a arte deveria servir ao povo e contribuir para a transformação da sociedade.
Em uma de suas reflexões mais conhecidas, afirmou que desejava pintar “o povo brasileiro com aquela roupa e aquela cor”.

Essa opção estética e política transformou sua obra em um retrato da formação social do Brasil.

Um encontro entre duas histórias nacionais

A chegada de Portinari à China acontece em um contexto histórico singular.

Nas últimas quatro décadas, a China protagonizou a maior transformação econômica e social já registrada na história da humanidade. Segundo dados do Banco Mundial e das autoridades chinesas, cerca de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema desde o início das reformas e da abertura econômica promovidas a partir do final dos anos 1970.

Em 2021, Pequim anunciou a erradicação da pobreza extrema em todo o território nacional.

O significado dessa conquista vai além dos indicadores econômicos. Ela representa a materialização de um projeto político que colocou o desenvolvimento, a infraestrutura, a educação e a melhoria das condições de vida da população como prioridades estratégicas.

Embora Portinari tenha vivido em outra época e em um contexto completamente distinto, sua obra dialoga de forma surpreendente com essa experiência.

Os homens, mulheres e crianças retratados em suas telas são justamente aqueles que, em diferentes partes do mundo, permaneceram por séculos à margem dos processos de desenvolvimento.

São os trabalhadores rurais, os migrantes, os pobres, os esquecidos.

Ao observar as figuras monumentais de “Lavrador de Café” ou os rostos marcados dos “Retirantes”, o público chinês encontra personagens que remetem à própria história de transformação do país: camponeses, trabalhadores e famílias que participaram do gigantesco processo de modernização nacional.

A cultura como ponte entre civilizações

A exposição também reforça uma tendência crescente nas relações internacionais contemporâneas: a valorização da cultura como instrumento de aproximação entre os povos.

Brasil e China construíram uma das mais importantes parcerias estratégicas do século XXI. A China é o principal parceiro comercial brasileiro desde 2009 e se tornou um dos maiores investidores em infraestrutura, energia, tecnologia e logística no país.

Mas relações duradouras não são construídas apenas por contratos ou acordos comerciais. Elas dependem também do conhecimento mútuo entre sociedades.

Nesse sentido, o Ano Cultural Brasil-China busca ampliar a compreensão recíproca entre duas civilizações de enorme relevância para a construção de uma ordem internacional mais equilibrada e multipolar.

Portinari oferece ao público chinês uma narrativa visual capaz de explicar o Brasil muito além dos estereótipos frequentemente associados ao país. Suas obras revelam a complexidade social brasileira, sua diversidade cultural e seus desafios históricos.

Ao mesmo tempo, permitem que os visitantes chineses identifiquem experiências humanas universais ligadas ao trabalho, à família, à esperança e à busca por uma vida melhor.

Desenvolvimento e dignidade humana

Existe um aspecto particularmente relevante na convergência entre a obra de Portinari e a experiência chinesa.

Ambos colocam a dignidade humana no centro da reflexão.
Portinari jamais pintou a pobreza como espetáculo. Seus personagens possuem força, grandeza e humanidade. Mesmo diante do sofrimento, suas figuras mantêm uma dimensão heroica.

Essa perspectiva encontra paralelos na narrativa do desenvolvimento chinês, que frequentemente enfatiza a melhoria concreta das condições de vida da população como medida fundamental do sucesso econômico.

Em diferentes linguagens — a arte de um lado e a política pública de outro — emerge uma ideia semelhante: o progresso só possui significado quando alcança as pessoas comuns.

Os trabalhadores retratados por Portinari não são muito diferentes dos milhões de chineses que participaram da transformação econômica de seu país nas últimas décadas. Em ambos os casos, o povo aparece como protagonista da história.

Um símbolo do novo momento Brasil-China

A exposição em Pequim ocorre em um período de fortalecimento dos BRICS e de crescente cooperação entre os países do Sul Global.

Nesse contexto, a presença de Portinari na China adquire uma dimensão geopolítica que ultrapassa os limites da cultura.
Ela simboliza o encontro entre duas nações que defendem maior autonomia estratégica, desenvolvimento soberano e uma ordem internacional baseada no diálogo e na cooperação.

Ao levar a obra do maior pintor social brasileiro ao coração da China, o Brasil apresenta ao mundo não apenas um artista extraordinário, mas também uma visão de país construída a partir do reconhecimento de seu povo.

É justamente essa dimensão humana que torna a exposição histórica.

Mais de seis décadas após sua morte, Candido Portinari continua falando sobre os desafios da desigualdade, da justiça social e da dignidade do trabalho. E talvez não exista lugar mais apropriado para essa conversa do que a China contemporânea, uma nação que transformou o combate à pobreza e o desenvolvimento humano em elementos centrais de seu projeto nacional.

Em Pequim, as telas de Portinari deixam de ser apenas obras de arte brasileiras. Tornam-se uma ponte entre duas histórias nacionais e um testemunho de que o desenvolvimento, quando coloca o povo no centro, pode ser também uma poderosa expressão de humanidade.

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