Portinari emociona Pequim: discursos de João Candido Portinari e Luo Wenli celebram amizade entre Brasil e China
Filho do artista e diretor do Museu Nacional da China destacam a arte como ponte entre civilizações, valor dos trabalhadores e a busca por desenvolvimento
Por Leonardo Attuch, de Pequim – A inauguração da exposição “O Brasil de Portinari” no Museu Nacional da China, em Pequim, transformou-se em muito mais do que a abertura de uma grande mostra de arte. Os discursos proferidos por João Candido Portinari, filho do artista, e por Luo Wenli, diretor do Museu Nacional da China, revelaram uma profunda convergência de valores entre Brasil e China, associando a obra do pintor brasileiro ao diálogo entre civilizações, ao respeito pelos trabalhadores, à paz e ao desenvolvimento humano.
Integrando a programação oficial do Ano Cultural China-Brasil 2026, a exposição reúne 56 obras originais e experiências imersivas que apresentam ao público chinês a trajetória de um artista que transformou o povo brasileiro em protagonista da arte nacional. A mostra permanecerá aberta durante quatro meses e poderá receber até 4 milhões de visitantes.
Em seu discurso, João Candido Portinari apresentou seu pai não apenas como um grande pintor, mas como um intérprete da alma brasileira.
“O grande mestre chinês Lu Xun escreveu uma vez: ‘Apenas o que é profundamente característico de uma nação pode verdadeiramente pertencer ao mundo’. É com esse espírito que trazemos hoje a Pequim a poderosa epopeia de Candido Portinari, que traduz em cores e formas a própria alma do povo brasileiro.”
A referência ao escritor chinês sintetizou uma das ideias centrais da cerimônia: a de que a identidade nacional não é um obstáculo ao universalismo, mas sua condição de existência.
O pintor que encontrou o mundo em Brodowski
Ao apresentar a trajetória de Portinari ao público chinês, João Candido destacou um paradoxo que marcou toda a vida do artista.
Foi justamente durante sua passagem por Paris, nos anos 1920, que ele compreendeu a necessidade de voltar os olhos para sua pequena cidade natal, Brodowski, no interior de São Paulo.
“Foi precisamente no exterior, sob a luz da Paris nos anos 1920, que ele compreendeu que precisava voltar os olhos para a sua pequena Brodowski para, finalmente, ser capaz de ver o mundo.”
Filho de imigrantes italianos, criado entre trabalhadores rurais das lavouras de café, Portinari transformou os homens e mulheres simples do interior brasileiro em personagens universais.
Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), ele acreditava que a arte deveria estar comprometida com o povo e com os grandes desafios sociais de seu tempo. Suas telas retratam retirantes, trabalhadores, camponeses, crianças pobres e migrantes não como figuras marginais, mas como protagonistas da história.
Essa dimensão social da obra foi um dos elementos que mais chamaram a atenção dos anfitriões chineses.
Uma mobilização cultural entre Brasil e China
A realização da exposição mobilizou uma ampla rede de instituições dos dois países. Em sua fala, João Candido agradeceu ao diretor do Museu Nacional da China, Luo Wenli, aos curadores Zheng Ye, Baihui Li e Stacy He, à Expomus, a Marcello Dantas, ao Projeto Portinari e ao Governo Brasileiro.O filho do artista fez também um reconhecimento especial à Petrobras, patrocinadora master da exposição, destacando que o apoio da companhia foi fundamental para viabilizar a realização da mostra em Pequim. João Candido agradeceu ainda ao Grupo Pátria, representado por seus cofundadores Alex Saigh e Olimpio Matarazzo, além da assessoria jurídica prestada pelo escritório Veirano Advogados.
A participação dessas instituições permitiu levar ao principal museu da China uma exposição concebida para apresentar ao público chinês a trajetória artística, humana e social de Candido Portinari.
O reconhecimento chinês
Em uma fala que impressionou os convidados brasileiros pela profundidade de sua leitura da obra portinariana, o diretor do Museu Nacional da China, Luo Wenli, definiu a pintura como uma ferramenta de aproximação entre os povos.
“A pintura é uma linguagem espiritual comum à humanidade e, mais do que isso, uma importante ponte para o diálogo entre civilizações.”
Ao apresentar Portinari ao público chinês, Luo demonstrou uma compreensão notável dos elementos centrais da produção do artista.
“Em suas obras, a terra vermelha é a cor de fundo, e os trabalhadores, a espinha dorsal: em suas pinceladas condensam-se a respiração da terra brasileira e o destino do seu povo.”
A observação ecoa uma das marcas mais profundas da trajetória de Portinari: sua capacidade de transformar o trabalhador comum em símbolo da identidade nacional.
Ao longo de décadas, o artista retratou aqueles que construíam o Brasil com suas próprias mãos. Foi justamente essa valorização do trabalho e da dignidade humana que levou João Candido Portinari a afirmar, em conversa com o Brasil 247 durante a inauguração, que vê no desenvolvimento da China algo muito próximo dos ideais sociais presentes na obra de seu pai.
A arte como expressão da paz
Outro ponto de convergência entre os discursos foi a defesa da paz e da fraternidade entre os povos.
Luo Wenli destacou os painéis Guerra e Paz, criados por Portinari para a sede das Nações Unidas, como uma das maiores expressões artísticas do desejo universal de convivência pacífica.
“Os monumentais murais Guerra e Paz, criados para a sede das Nações Unidas, há muito transcenderam fronteiras nacionais, tornando-se uma das mais profundas e sinceras aspirações da humanidade pela paz.”
Em seguida, o diretor do museu relacionou diretamente a obra do brasileiro à preocupação com o bem-estar coletivo.
“Suas obras não são apenas preciosos tesouros artísticos, mas também uma vívida expressão dos ideais de paz e da preocupação com a vida e o bem-estar do povo.”
A formulação chama atenção porque toca em um aspecto essencial da trajetória de Portinari. Embora seja celebrado mundialmente como um dos maiores pintores do século XX, ele nunca separou arte e compromisso humano.
O burro azul e a necessidade da esperança
João Candido também emocionou os presentes ao recordar uma história que revela a essência da visão de mundo de seu pai.
Ao comentar a obra Os Despejados, ele lembrou que, em meio a uma cena marcada pelo sofrimento e pela miséria, Portinari decidiu pintar um pequeno burro azul ao fundo da composição.
Quando perguntaram por que havia colocado um burro azul em uma paisagem tão trágica, respondeu:
“Porque a poesia deve existir.”
Segundo João Candido, aquela resposta resume toda a trajetória do artista.
Mesmo diante da pobreza e da injustiça, Portinari nunca abandonou a esperança. Sua pintura denunciava a dor humana, mas recusava o desespero.
Louis Aragon e a consagração universal
Outro momento marcante do discurso foi a lembrança da histórica exposição de Portinari em Paris, em 1946, quando suas obras chamaram a atenção do poeta e intelectual francês Louis Aragon.
Diante das telas que retratavam o sofrimento humano em um continente ainda marcado pelas feridas da Segunda Guerra Mundial, Aragon percebeu que aquela dor ultrapassava fronteiras nacionais.
Segundo João Candido, profundamente emocionado, o escritor francês afirmou que Portinari não estava sendo recebido como estrangeiro.
“Um dos nossos.”
A frase tornou-se uma das maiores homenagens já recebidas pelo artista brasileiro e simboliza o alcance universal de sua obra.
Uma exposição para aproximar povos
A mostra inaugurada em Pequim foi concebida justamente com esse espírito.
Segundo Luo Wenli, a exposição percorre toda a trajetória criativa de Portinari, desde as memórias da infância e da família até sua preocupação social, sua religiosidade, suas experimentações técnicas e sua visão humanista.
A exposição está organizada em núcleos como “Sentimentos da Terra Natal”, “Faces da Humanidade”, “A Alma do Mundo” e “Explorando a Arte e o Ofício”.
“Cada núcleo constitui uma janela aberta para a alma do Brasil”, afirmou o diretor do museu.
Ao destacar o significado do Ano Cultural China-Brasil, Luo lembrou que a iniciativa foi construída conjuntamente pelos dois países e busca ampliar o conhecimento mútuo entre seus povos.
“Esperamos sinceramente que esta exposição possa conduzir os amigos chineses por essa vasta trajetória artística, permitindo-lhes sentir a força vital e a alma cultural profundamente enraizadas na terra brasileira.”
Uma ponte de afeto entre duas civilizações
Nos momentos finais da cerimônia, os discursos convergiram para uma mesma ideia: a cultura como instrumento de aproximação entre povos e civilizações.
João Candido citou um antigo provérbio chinês:
“A amizade não conhece distância; dez mil milhas são menos que uma batida de coração.”
E concluiu:
“Através do olhar atemporal de Candido Portinari, o Brasil e a China se encontram no amor pela terra, no respeito pelos trabalhadores e na fé inabalável na alma humana.”
Sua última mensagem resumiu o espírito da exposição:
“Que esta exposição seja uma ponte de afeto, memória e profunda compreensão entre as nossas nações.”
A julgar pela recepção calorosa da mostra e pela profundidade dos discursos que marcaram sua inauguração, essa ponte já começou a ser construída. Em Pequim, a obra de Candido Portinari deixou de ser apenas patrimônio brasileiro para se tornar também um elo entre duas das mais importantes civilizações do século XXI. Em um momento de fortalecimento das relações entre Brasil e China, o apoio da Petrobras e do Grupo Pátria à exposição simboliza também o compromisso de instituições brasileiras com a projeção internacional da cultura nacional, reforçando os laços de amizade, cooperação e aprendizado mútuo entre os dois povos.



