'Prende quem tem que prender, mas sem essa onda de impeachment'

“Esses caras que estão querendo o impeachment não têm força para pedir porra nenhuma”, diz Paulinho Boca de Cantor, uma das vozes mais conhecidas dos Novos Baianos, em entrevista a Alex Solnik; Paulinho também afirma que o país está dividido meio a meio entre os que defendem e os que atacam o governo porque os mais pobres – “que sabem quem é Lula, mas não sabem quem é Temer” - realmente melhoraram de vida, como ele mesmo constatou em sua cidade natal, no interior da Bahia, onde, depois do Bolsa Família até pizza entrou no cardápio; ele conta que ainda recebe muitos pedidos de fãs para que a banda volte a se reunir depois de 36 anos de separação, apoia a volta dos Novos Baianos e acredita que isso pode acontecer “quando todo mundo tiver vontade”

“Esses caras que estão querendo o impeachment não têm força para pedir porra nenhuma”, diz Paulinho Boca de Cantor, uma das vozes mais conhecidas dos Novos Baianos, em entrevista a Alex Solnik; Paulinho também afirma que o país está dividido meio a meio entre os que defendem e os que atacam o governo porque os mais pobres – “que sabem quem é Lula, mas não sabem quem é Temer” - realmente melhoraram de vida, como ele mesmo constatou em sua cidade natal, no interior da Bahia, onde, depois do Bolsa Família até pizza entrou no cardápio; ele conta que ainda recebe muitos pedidos de fãs para que a banda volte a se reunir depois de 36 anos de separação, apoia a volta dos Novos Baianos e acredita que isso pode acontecer “quando todo mundo tiver vontade”
“Esses caras que estão querendo o impeachment não têm força para pedir porra nenhuma”, diz Paulinho Boca de Cantor, uma das vozes mais conhecidas dos Novos Baianos, em entrevista a Alex Solnik; Paulinho também afirma que o país está dividido meio a meio entre os que defendem e os que atacam o governo porque os mais pobres – “que sabem quem é Lula, mas não sabem quem é Temer” - realmente melhoraram de vida, como ele mesmo constatou em sua cidade natal, no interior da Bahia, onde, depois do Bolsa Família até pizza entrou no cardápio; ele conta que ainda recebe muitos pedidos de fãs para que a banda volte a se reunir depois de 36 anos de separação, apoia a volta dos Novos Baianos e acredita que isso pode acontecer “quando todo mundo tiver vontade” (Foto: Leonardo Attuch)
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Por Alex Solnik

Voz mais conhecida dos Novos Baianos ao lado da de Baby Consuelo, é possível que, depois dessa entrevista a 247, diretamente de Salvador, Paulinho Boca de Cantor passe a ser Paulinho Boca no Trombone, tal a profusão de exclamações indignadas: “O PMDB pode até estar mandando no Brasil, mas não comanda o povo brasileiro”: “Esses caras que estão querendo o impeachment não têm força para pedir porra nenhuma”; “Só faria sentido falar em impeachment se houvesse um Che Guevara, um Fidel”.  “Não tem nenhuma liderança que mereça tomar o lugar de ninguém”

Paulinho também afirma que o país está dividido meio a meio entre os que defendem e os que atacam o governo porque os mais pobres – “que sabem quem é Lula, mas não sabem quem é Temer” - realmente melhoraram de vida, como ele mesmo constatou em sua cidade natal, no interior da Bahia, onde, depois do Bolsa Família até pizza entrou no cardápio. Ele conta que ainda recebe muitos pedidos de fãs para que a banda volte a se reunir depois de 36 anos de separação, apoia a volta dos Novos Baianos e acredita que isso pode acontecer “quando todo mundo tiver vontade”.

O que você acha que vai dar? Como você está vendo a situação política?

Olha, eu estou vendo como desfecho de uma tragédia anunciada há muito tempo. Se eu não me engano, desde quando Cabral chegou aqui que isso está anunciado: que esse negócio daria errado. Porque não tem regime de governo... não tem nada que controle esse impasse que é político, mas, acima de tudo, é cultural. A gente vem de uma tradição de se levar vantagem em tudo, então, é muito difícil mudar isso. Aqui no Brasil, a sensação que a gente tem é que todo mundo trabalha para ganhar dinheiro e não querer pagar nada. Querer só usufruir. A gente tem exemplos disso nos shows. Outro dia eu fiz um show em casa noturna, onde as pessoas têm que pagar o couvert, então algumas pessoas foram falar com a produção para liberar o couvert, dentre as quais um cara que era dono de um posto de gasolina. O cara da produção falou pra mim: “amanhã tu passa no posto de gasolina dele enche o tanque e diz que você é amigo dele e não vai paga”! Essa ideia é que a gente tem aqui. Quando você diz para um cara: você roubou! Ele alega: pô, mas seu tio também roubou, seu avô também roubou, seu bisavô, todo mundo roubou, o outro partido roubou, o outro presidente roubou... Então, ou a gente para tudo e começa agora e diz: bom, vamos dar aula geral para todo mundo: não pode roubar senão vai todo mundo em cana... entenderam bem isso? Então... Não é só entender isso... vocês absorveram isso? Nós temos que ser honestos, nós temos que ser pessoas gentis, legais, tratar todo mundo muito bem. Isso é natural do ser humano. Aqui tudo parece que só o errado dá certo. Tudo leva as pessoas a crerem que só o errado dá certo. Isso não é no mundo, não! Em outros lugares por aí a gente vê que as pessoas não vão quebrar a máquina para não botar uma moeda e pegar uma garrafa d’água.

Começa na escola... o bom aluno é o CDF...

Mas o que é importante agora é: pô, fodeu tudo, se é que a gente pode falar assim, vamos fazer o que? Como dizia o grande baiano João Ubaldo Ribeiro: não adianta tirar o Lula, botar Fernando Henrique, tirar a Dilma, botar outro, o problema é mais embaixo. Somos nós. A gente vai num churrasco de um cara e de repente elege o cara deputado. Qualquer artista hoje vira celebridade, qualquer um vira celebridade em uma semana... O artista só conseguia esse título de celebridade quando ele apresentava muito serviço, sabe? Prestava muito serviço à cultura... tinha uma visão de mundo legal... é um João Gilberto, é um Caetano Veloso, um Chico Buarque.

Agora o cara vira celebridade em meia hora.

Só basta ter uma bunda bonita... eu mesmo estou querendo fazer um implante...levantar a bunda de novo para ver se começo a tocar no rádio de novo...porque música a gente nunca parou de fazer, nem ninguém para de fazer música... música é uma coisa que você dorme com ela, acorda com ela, tá o tempo todo ouvindo ela no seu íntimo, então é uma questão só de...  A sensação que a gente tem é que essa impunidade é que ocasiona isso. E essa impunidade às vezes leva para um bem e às vezes leva para um mal. Um exemplo: os caras estão falando que a inflação vai voltar, pronto, todo mundo aumentou os preços! E o que que acontece? As pessoas estão deixando de ir. Aqui em Salvador tem um exemplo claro disso. O estacionamento do shopping era free. Agora começaram a cobrar. Conclusão: o shopping está vazio. É uma loucura! Por isso eu digo que a questão é cultural. As pessoas têm que aprender que elas têm que arrumar um meio na vida de ganhar dinheiro para pagar as coisas. Tudo tem que ser pago! Não existe nada de graça. Nem injeção na testa, nem ônibus errado, como dizia a malandragem. E quem não conseguir isso é o governo que tem que segurar a onda, porque senão é essa loucura que está aí, um desmando total e a gente fica sem saber quem é que manda.

Ué, não é o governo?

O governo não manda porra nenhuma. O crime organizado manda mais que qualquer coisa. Que governo, que polícia, que qualquer coisa. Porque se o governo está perdido, imagina a polícia como é que não está?! Não tem nem carro para ir atrás de bandido. O fuzil, a granada, o revólver do bandido é muito mais poderoso. Então, a gente chega à conclusão que o Estado Islâmico também manda aqui! Aqui nego lhe dá ordem para não sair de casa, não abrir comércio... então, como é que é? Não é Estado Islâmico isso? E mata-se, como recentemente, num  fim de semana, em Natal, que é uma capital tranquila do Nordeste brasileiro, com praias lindas, maravilhosas, um povo acolhedor e... vinte e tantos homicídios num fim de semana!

São números de regiões conflagradas do Oriente.

Peraí! É uma guerra, é um terrorismo que ninguém consegue controlar. Por que? O que é que um bandido deve pensar? "Muito mais bandido do que eu é aquele deputado, ele que é bandido, porque eu arrumo um troco para sobreviver, e ainda tomo tiro da polícia pra caramba... aquele malandro lá, 171, vai lá, faz a cabeça de todo mundo, nego bota ele lá e ele ganha milhões, e aí fica passeando de lancha com uma mulher gostosa que não consegue nem comer mais, não consegue nem ver o pinto, de tanta barriga, de tanta comida, de tanto champanhe”. Então, bicho, é isso que eu vejo... E acho, na minha opinião prática, que não tem essa, não... eu acho que deixa acontecer, prende quem tem que prender, mas não fica com essa onda de impeachment porque não tem nenhuma liderança que mereça tomar o lugar de ninguém! Só se fala em impeachment quando aparece um Che Guevara... um Fidel Castro... um cara em quem o povo todo acredita...e aí você pode tomar o poder, dizer “sai daí porque você não está fazendo nada”, um cara arretado, que é líder, que o Brasil todo gosta dele...

Tem alguém com esse perfil no Brasil?

Isso há muito tempo não tem no Brasil. E os últimos líderes os caras botaram para escanteio...você pega um Pedro Simon... um Cristóvão Buarque...um Eduardo Suplicy...uns caras legais... deputados aqui da Bahia que eu conheço... o doutor Luiz Carreira... o ex-governador Roberto Santos...aí em São Paulo tem vários esteios da moralidade... que tem ainda... Se fosse todo mundo ladrão a gente não estava falando mais aqui! Tem imoralidade? Tem. Mas você vê: o Eduardo Suplicy não foi reeleito! O cara até Bob Dylan ele canta, cacete! Um cara legal pra cacete, que você nunca ouviu falar que... sabe?, gosta de mulher, de rock’n’roll, um cara completamente normal. Porque a figura do deputado não pode mais ser aquela do coronel, tem que ser um cara moderno e tem uns caras modernos aí, legais, que pensam. É impressionante como essas pessoas não conseguem chegar! Não é nem que não conseguem chegar. Não querem chegar! Não vão, senão vão dar de cara com homofóbicos... ignorantes...palhaços... analfabetos... eles vão encontrar esse pessoal no Congresso?! Não vão! Tem gente aqui na Bahia que não se mete com a política há anos! Porque sabe que só dá isso aí. Então é isso aí, para tudo, fecha tudo, mas deixa acabar o mandato, senão é pior ainda! Sabe aquela coisa?

É isso que eu acho. Melhor o governo continuar.

Sabe aquele negócio que não tá andando mas às vezes é melhor você engolir os sapos e deixar passar esse tempo? É como diz o samba do Caetano: “esse tempo que está demorando em ser tão ruim”. É o que eu acho que tem que acontecer. E vai acontecer! Esses caras que estão querendo impeachment não têm força para pedir porra nenhuma, quanto mais impeachment!

Impeachment não é uma coisa que se peça, ele se torna evidente, não precisa pedir, é um fato notório. Ninguém precisou pedir o impeachment do Collor.

Eu acho que não é nem por causa da clareza. É porque quando o cara vai falar o cara mostra o rabo. Aí, pronto: quando ele vai falar do impeachment da Dilma, no outro dia sai: o juiz não- sei-quê que estava pedindo impeachment da Dilma vendeu sentença... O deputado que pediu também tá envolvido... Pô! Meu amigo, tem que parar tudo! Tem que mandar todo esse pessoal pra Disneylândia.

E tem outra coisa: o PMDB não tem nenhum interesse no impeachment. Não acha?

Escute bem: o meu papo, na realidade, é mais filosófico que político. Eu acho o seguinte. Você falou em PMDB...O PMDB, se tivesse moral para comandar o país... ele está comandando, mas não está. A situação chegou num ponto em que o PT está tão esculachado que está precisando do PMDB. E o PMDB, raposa velha política, está esperando a hora exata de ser eleito... não quer impeachment, eles já estão com os ministérios, vão trabalhar, vão tomar o poder da mão do PT, ficou mais fácil. Eles não romperam com o PT porque o PT é governo que foi eleito democraticamente. O PMDB pode até estar mandando no país, mas não tem comando sobre o povo brasileiro. Então, ele não tá mandando porra nenhuma! Porque se quiser fazer passeata, se faz. A única coisa que tá segurando a onda desse país ainda é uma disputa bilateral entre a população... a disputa bilateral que eu falo é o seguinte: é quase meio a meio... porque o grande povão foi beneficiado pelo governo do PT!

Você acha?

Não tenha dúvida! Eu sou de uma cidade do interior da Bahia que quando eu nasci tinha uns três mil habitantes, hoje deve ter uns 30 mil, 40 mil. A pousada com o café da manhã era oito, dez reais...não tinha dinheiro... hoje deve estar custando 30 por causa do Bolsa Família, por causa dessa esmola, que não é legal, mas tinha muita gente precisando. A moça que trabalhava na minha casa voltou para o interior, separou do marido e foi fazer pizza. E hoje vive numa casa de família, ganha um salário e ainda vende pizza no supermercado. Existe essa possibilidade de se comprar uma pizza na minha cidade que não tinha. Por isso que é dividido. Por isso que se você chegar no meio do pobretão, do cara que saiu da miséria, ele não sabe quem é Temer, ele sabe quem é Lula, ele sabe quem é Dilma, que Lula botou. O cara do Vale do Jequitinhonha que só conseguiu comer depois que já tinha 30 anos, conseguiu almoçar e jantar, que a situação é barra pesada, nego não sabe, mas é, a gente viaja, a gente faz show aqui no interior e vê o pessoal dizer “fome ruim é com a boca quieta”. Não tem coisa pra se comer, às vezes.  É seca, é loucura, mas o povo sobrevive, vai, planta. Tem saída, bicho, tem muita saída, vai ter que ter saída porque a árvore continua crescendo, o dia continua amanhecendo, a noite chegando, a gente comendo todo dia, dormindo, então a gente vai ficando velho, então as coisas vão acontecer. Agora, eu pediria que a gente parasse de botar essa coisa dos políticos na mídia, porque esses caras não vão resolver porra nenhuma! Quem vai resolver isso é a gente, na próxima eleição. Pode ter certeza.

Tantos anos se passaram, mas não dá para pensar em você sem pensar nos Novos Baianos. A força de vocês era vocês estarem juntos. Por que vocês não estão juntos?

Olha, há muito tempo a gente se separou. Nós não estamos juntos porque nós nunca nos chamamos para ficarmos perto. Fomos chegando e fomos ficando, daqui a pouco a gente tinha um time de futebol, um trio elétrico, tinha um conjunto de pop rock, mas tinha também um regional de choros e de sambas. A gente não está junto exatamente por que? Quando nós chegamos na Record e perguntaram “qual é o nome do conjunto de vocês”? nós respondemos: “isso aqui não é um conjunto, são várias pessoas, várias personalidades que fazem música... ele é o Moraes, eu sou o Paulinho Boca de Cantor, ele é o Galvão, ela é a Baby Consuelo, esse é o Pepeu”, cada um tinha a sua história, cada um levou a sua experiência para dentro da casa dos Novos Baianos. Mas cada um era um artista em si. A gente não era um grupo. A gente não se junta porque tem que estar todo mundo junto. Tem que todo mundo querer fazer. Agora, a filosofia e o jeito que nós vivíamos também tem muito a ver. Porque a gente se conhece muito! A gente viveu mais do que como irmão. Nós éramos irmãos cósmicos! E sabemos das qualidades e dos defeitos de todos. Então, às vezes isso assusta um pouco, fora outras coisas mais pessoais que não vem ao caso: casamentos que acabaram... trocas entre integrantes do grupo... um tá com um, depois tá com outro, essas coisas... às vezes é complicado se juntar... coisas banais... mas nenhuma dessas coisas impede que a gente, uma hora, quando todo mundo tiver vontade, a gente volte e faça uma coisa junto. Porque você está certo: é inegável, eu também sei disso, que nós juntos somos muito mais fortes do que cada um por si. Isso a gente tem certeza. O povo pede muito.

E como está o Moraes? Está próximo de vocês? Você tem falado com ele?

Eu não tenho falado com o Moraes há algum tempo. Moraes é meu compadre, toda vez que a gente se encontra a gente dá muita risada, a gente se abraça, mas existe também um certo temor, por exemplo: até pouco tempo atrás eu era o grande agregador dos Novos Baianos... eu conseguia falar com cada um, entendeu? “Ô, vamos lá”... Hoje, eu não consigo mais. Tivemos alguns momentos que não foram muito bons, sabe? Justamente porque se tentou forçar um pouco a barra pra fazer de novo os Novos Baianos. A primeira vez que eu senti que a gente podia estar forçando a barra eu parei e nunca mais de minha parte eu vou começar... só se vierem me convidar. Porque é muito chato ficar parecendo que a gente tá querendo forçar a barra para que os Novos Baianos se juntem. Quando na realidade, amigo, quem quer forçar a barra para que os Novos Baianos se juntem é o povo, é o povo que pede direto para nós voltarmos, para a gente ficar junto...

Nada impede inclusive, que cada um mantenha a sua carreira solo e também faça Novos Baianos, não acha?

Não tem nada que impeça!

O Moraes não precisa abandonar a carreira solo dele...

Isso eu acho também. A gente acha isso. E, sinceramente eu não sei bem porque a gente não consegue fazer isso. Existe uma disposição e uma vaidade pessoal que impede isso, uma disposição para mostrar que você está bem sem os Novos Baianos. Eu estou bem sem os Novos Baianos, estou na beira da praia, moro bem, trabalho bem, vivo bem, graças a Deus, mas não são todos Novos Baianos que estão assim. Então, eu de vez em quando penso nessa possibilidade também de se ajeitar... a gente tem componentes dos Novos Baianos que não são da primeira linha que precisam de uma certa ajuda ainda em vida, entendeu? E a gente nem consegue fazer esse tipo de doação!

Como vocês lidavam com grana?

A gente não queria ser dono de nada. A gente achava que o dinheiro era para todo mundo e que ninguém mandava e quem precisasse mais naquele momento pegava. Às vezes dava uma confusão, mas nada que não se resolvesse logo...todo mundo estava ali se defendendo do sistema...da repressão... nós éramos de um exército e não podíamos ser desertores nem traidores daquele momento. A gente era tão comprometido com as normas mudas que regiam o nosso “estado de sítio” ou “estado de apartamento”, a gente era tão unido, que foi muito difícil. O primeiro que saiu para fazer carreira solo foi o Moraes Moreira.

Por que?

Porque ele se casou, a moça era do Rio de Janeiro... e tinha crianças nascendo... então ele sentiu necessidade de sair e fazer carreira solo. E como ele era um dos esteios dos Novos Baianos isso deu uma balançada na gente. Mas a gente conseguiu fazer ainda três ou quatro trabalhos depois que ele saiu e fazer shows e tudo o mais. Mas não vamos dizer que o Moraes Moreira não tenha feito falta, claro que fez falta. Moraes Moreira é uma pessoa fantástica, um grande músico, um puta poeta, um cara que tem canções ótimas e tal, um cara com o espírito dos Novos Baianos. A dificuldade em se retomar é que ele renunciou e a gente continuou e a gente achava que ia vencer o sistema. Mas o sistema é bruto.

Quando acabou vocês dividiram a grana?

Quando a gente separou não tinha grana nenhuma, nunca teve grana. A gente sempre foi perdulário, cara! A gente vivia do que tecia. Ninguém ganhou dinheiro. As portas do show da gente tinham mais gente do que lá dentro. A gente ganhou dinheiro com disco, shows, mas quando a gente chegava em casa, no tempo em que éramos quatro, a gente saía em São Paulo, no Rio, comprava o que quisesse, pagava as contas dos outros, chegava em casa, juntava o dinheiro e dividia por quatro de novo. A gente se gostava muito, a gente dava muita risada, a vida era divertida para cacete! Mas só na carreira solo a gente conseguiu juntar algum. Na hora que estava todo mundo lá era difícil.

O João Gilberto frequentava o sítio de vocês?

O João ia no apartamento e no sítio. No sítio menos, no apartamento mais. O João ia quase toda noite lá... chegava de madrugada... João é uma pessoa incrível, uma pessoa que poucas pessoas entendem. Gênio, né, cara! Einstein também quando descobriu a Teoria da Relatividade umas 20 pessoas no mundo entenderam...gênio é gênio e o João é isso aí..A gente fica assim porque...o tempo é cruel e o João... outro dia eu vi uma foto dele, e faz um tempo que não o vejo pessoalmente, falei algumas vezes pelo telefone, aí eu vejo que o tempo chega também para o João Gilberto... que eu achei que ia ver ele com aquela carinha tocando violão em posição de iogue, sentado na cama, a vida toda, como muitas e muitas noites a gente fez isso, nos hotéis, aqui, em Nova York, no Rio, em vários lugares, a gente ficava às vezes dias perdido, ele tocando violão e me botando pra cantar, eu fazendo vocal com ele, como ele fazia na casa dos Novos Baianos todas as noites. O Brasil é maluco. Por isso pode encerrar essa entrevista dizendo: o Brasil é louco, tudo isso que está acontecendo no Brasil já vem acontecendo há muito tempo. Essa loucura brasileira é maravilhosa, mas ao mesmo tempo chegou um momento em que a gente tem que decidir completamente o que é que a gente quer fazer desse país. Porque o pessoal que está no poder não está sabendo como fazer, não.  Tem que fazer o que o Gilberto Gil falou uma época: tem que chamar as melhores cabeças do Brasil e tentar fazer alguma coisa.

Confira, abaixo, um clássico dos Novos Baianos, Mistério do Planeta, na voz de Paulinho:

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