Sabato, o mestre da caleidoscopia

Sua obra tem de ser lida como a de um físico argentino, habitante de um continente de ditaduras violentas

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A obra de Ernesto Sabato não pode ser vista fora dos propósitos da filosofia das ciências. Talvez esse profundo insight entre a sua literatura e a física comecem naquele distante ano de 1938, quando obteve seu doutorado em Física pela Universidade Nacional de La Plata. Seguiram-se a isso uma série de trabalhos sobre a radiação atômica, no laboratório Curie, em Paris, e sua estada no Massachusetts Institute of Technology. Veja você que o universo de Sábato sempre foi o universo a qual Albert Einstein chamava de “ich zeit”, ou “o tempo de cada um”. Sábato era o senhor do “eu”.

Os gracejos de Sábato contra a ciência geraram seu primeiro livro, “Nós e o universo”. Corria o ano de 1945. A física mostrara-se um instrumento terrível para a construção da bomba atômica. Sábato revolta-se contra a suposta independência da ciência e aponta nela um aparelho ideológico de estado, como, de resto, Althusser postularia quase quarenta anos depois. Ernesto Sábato não se compraz, a partir de então, com uma ciência assentada sobre um ato de fé. Volta-se então para o grande inimigo de Einstein, Niels Bohr. Einstein, primeiramente tão querido pelo físico Sábato, vindicava o seu “der liebe würfelt nicht mit der welt” (“o meu querido Deus não joga dados com o mundo”). Desde a bomba atômica, o físico Sábato abjura da fé em Einstein: prefere acreditar que Deus joga sim dados com o mundo. Curva-se ante Niels Bohr e, junto dele estava obviamente certo. O grande gênio do século XX, ao contrário do que diz a mídia, foi Bohr, e não Einstein. O seu iPad, o seu iPhone, o seu celular, a sua internet brotaram de Bohr, e não de Einstein. Nosso dia-a-dia tecnológico construiu-se a partir da mecânica quântica e do princípio da incerteza: o que de resto Niels Bohr pregava desde, pelo menos, 1905. A obra de Sábato tem de ser lida como a de um físico argentino, habitante de um continente de ditaduras violentas, e de surtos idem de instabilidades – mas que, por obra do destino, teve acesso ao que de melhor o primeiro mundo produziu em cultura e ciência. Sábato era um canário numa mina de carvão.

Foi ainda depois da bomba atômica que Sábato vindicou sua resplandecente e resoluta disciplina em seguir o existencialismo, o “ich zeit” que ele ainda seguia em Einstein, e o psicologismo mais profundo dos indivíduos ,contra as objetividades daquilo que convencionamos chamar de “mundo objetivo”. Foi daí, desse “melting pot” entre ciência e absoutismos latinos, que brotou o seu primeiro romance, “O Túnel”. Esse primeiro perjuro de Sábato contra a objetividade foi imerecidamente esquecido pelos bocejo que a Argentina produz hoje na literatura. Mas sua pena digressiva, graças ainda aos traumas do dissuasivo nuclear pós-45, buscava aquilo que Sábato aprendeu ao idolatrar Niels Bohr: a filosofia pré-socrática de Pirro, Zenão de Eléia e Protágoras. Aliás, Sábato adorava repetir o axioma inequívoco de Protágoras, para quem “só o homem é a medida de todas as coisas: das que são o que são e das que são o que não são”.

Por quase 15 sonoros anos, Sábato entrevia o surgimento de um romance insondável. Ele já tramava misturar o existencialismo com a interminável crônica latina, que tanto comoveu Jorge Luís Borges, Octavio Paz, Gabriel García Márquez e Carlos Fuentes. O atalho militar para conter as incertezas de um continente mergulhado na escuridão e rutilância. Tudo isso ferveu em Sábato e está em sua obra “Sobre heróis e tumbas”, de 1961, considerada até hoje o melhor romance argentino do século XX. O general Juan Lavalle era, antes de mais nada, um epígono do poço de contradições que foi uma América Latina mergulhada em alternâncias de ditaduras liberalizantes e democracias restauradoras do conservantismo.

A obra de Sábato jamais afirma: ela sempre sugere. Sua narrativa é uma imperiosa luta entre um eu abismal, quântico, mergulhado em caleidoscopias, e uma realidade objetiva, sempre em busca de resultados. Sábato buscava no fundo a mistura dos dois: era um niilista de resultados. Como disse o pai da física sub-atômica, de resto tão admirado por Sábato, o doutor Murray Gell-Mann, “ninguém aqui é apolíneo e/ou dionisíaco. Somos e não somos os dois: somos odisseicos”.

Ernesto Sábato sempre comeu pela borda: era um mestre de salientar os sub-tons. Afinal, era um seguidor da mecânica quântica e da ideia de que o mundo nunca será repouso: sempre fricção – como tanto vindicava dois de seus mestres: Walter Pater, no século XIX, e Benedetto Croce, no primeiro lustro do século XX.

Sábato e Borges nunca se bicaram. E um tinha paúra em citar outro nas mais públicas das luzes. Mas talvez a melhor definição desse sugestivo Sábato esteja nas dez últimas linhas do conto “A muralha e os livros”, justamente de Jorge Luís Borges. “Certas pessoas, certos lugares, os rostos marcados pelo tempo, as mitologias, querem nos dizer algo, algo estão para nos dizer ou algo nos disseram que não conseguimos capturar. A iminência dessa revelação, que jamais se dará, talvez seja o fato estético”. É por isso que a obra de Sábato perdura, como uma cabala cujas chaves se revelam a cada nova leitura. Uma releitura da obra de Sábato revela uma outra obra. E assim sucessivamente, como nos labirintos quânticos que ele tanto aprendeu a gostar admirando a obra de seu mestre Niels Bohr.

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