Uma odisseia urbana

Em Drive, personagens e cidade se misturam para criar uma pequena obra-prima

Nos anos 90, Quentin Tarantino renovou o gás do cinema americano e fez escola com seus filmes recheados de referências à cultura pop, trilhas sonoras empolgantes, violência estilizada e diálogos rápidos. O diretor de Cães de Aluguel e Pulp Fiction virou referência pelo seu estilo, tratando de temas pesados com uma acidez pontual e conquistou crítica e público. Desde então, o cinema Pop teve seu auge e decaiu.

Indo na contramão da escola Tarantino, Drive de Nicholas Winding Refn (premiado com a láurea de melhor diretor no festival de Cannes), define um tom mais sombrio para definir suas referências. Desde a acertada escolha da cidade onde a trama se passa, afinal nenhuma cidade americana (nem Nova York) tem a aura de Los Angeles, sempre transpondo as barreiras e se tornando mais um personagem (Como em Los Angeles: Cidade Proibida), Refn faz um resgate do cinema pop sem largar a veia de autor.

Iniciando-se de forma vibrante, em um epílogo introdutório do modus operandi do motorista (Ryan Gosling), Drive surpreende já nos seus créditos iniciais (com suas letras em rosa choque) e apresenta um outro personagem importantíssimo : sua trilha sonora. Composta por Cliff Martinez em seus temas incidentais e com contribuições de outros artistas, a música em Drive transmite sensualidade, significado e emoções. Usando de uma fotografia escura em suas tomadas urbanas, o filme mistifica ainda mais a imagem da Cidade dos Anjos. E aí entra a música. Isolada é correta, simpática, porém pouco instigante. Mas em contraste com a cidade, é personagem, é alma, é atemporal. E em momentos de exposição urbana, ouvir a empolgante Bride of Deluxe é como ouvir o chamado da cidade, envolta em mistérios e tentação.

E em mistérios se calca a vida do Driver. Sem saber de onde veio, o que fez e até mesmo o seu nome, e compartilhamos desse desconhecimento com os personagens, somos introduzidos a um dos mais simpáticos anti heróis do cinema. Tipo caladão e boa-praça, não abre a boca se achar que alguma palavra seja desnecessária. E entra aí um dos trunfos do filme. A facilidade com que Ryan Gosling, cada vez melhor, passar emoções (mesmo que contidas) e expressar o estado de espirito do personagem com expressões é notável. O motorista trabalha em uma oficina com Shannon (Bryan Cranston, mais conhecido pelo seu papel no excelente, com ênfase, seriado Breaking Bad). Um misto de figura paterna e parceiro de crimes, Shannon agencia o motorista que na noite de L.A., faz o papel de piloto de fuga em pequenos furtos.

Extremamente metódico e calculista o que acaba por frear os ânimos de quem esperava por um filme de ação desenfreada, o motorista faz movimentos estratégicos como parar em determinadas ruas e desligar os faróis ou até mesmo manobras inusitadas como andar logo atrás de carro de polícia.

Shannon tem planos para os dois e acaba colocando-os em rota de colisão com os perigosos Bernie (Albert Brooks, sensacional) e Nino (Ron Perlman). Um lobo solitário por natureza, ele conhece a bela Irene (Carey Mulligan, o rosto perfeito para o papel). Uma mulher que clama por cuidado e que apesar de castigada pela vida, (reparem o desamparo com que ela fala que o marido está preso), não perde o olhar de esperança, e o belo rosto de Carey Mulligan expressa muito bem isso.

Em uma trama que irá interligar os personagens, Standard Gabriel (Oscar Isaacs em um papel trágico), o marido de Irene, deixa a cadeia, mas passa a ser perseguido por uma dívida de proteção. Obstinado em obter redenção no braço de mulher e filho, é sobrepujado pelo passado e comete um novo crime, com a ajuda do motorista, com consequências trágicas.

Evitando contar detalhes da história (quebrarei essa regra em instantes), Drive passa do tom intimista da sua primeira metade para a crescente violência física e psicológica do final. Simbolizada pela figura do escorpião presente na sua jaqueta (perceba como em seus acessos, a figura do escorpião se mostra presente enquanto nos momentos de calmaria, ele inverte a jaqueta e "esconde" essa faceta), o motorista mostra-se dono de uma natureza absurdamente violenta, um predador silencioso meticuloso e mortal, com um instinto de proteção, aqui externado para Irene e Benicio (filho de Irene e Standard), que assusta até a si mesmo (repare no seu tremor após confrontar um inimigo em uma boate), é um personagem capaz de ir do estado tranquilo a uma explosão de fúria desenfreada (o que me lembra muito o excelente Marcas da Violência de David Cronenberg). Um homem perseguido por um passado violento (meramente uma suposição), em busca de calmaria.

E essa calmaria é encontrada na figura de Irene. Nessa relação, que é o grande trunfo do filme, palavras são perfumaria e os simples olhares e gestos dos dois dizem tudo. Procurando algo a que proteger e se agarrar, vive a promessa do amor nunca consumado. E na fantástica cena do elevador, onde o singelo e o assombro se sobrepõem em questão de segundos, e Irene transmite em um olhar toda sua insegurança e temor por adentrar em um mundo de violência para o qual não está pronta, o motorista entende que o futuro é impossível e por isso o filme ganha força na sua resolução final. É o sacrifício do ''mártir'' pela paz do objeto de desejo.

Dono de uma filmografia contundente, sempre tratando os marginalizados e o submundo, Refn tem total controle de seus personagens, atores e da sua estética. Com planos que beiram o primor visual, como na fantástica cena do farol onde Nino conhece seu destino, Drive é claramente uma experiência sensorial. Um fantástico trabalho de direção que conhece as limitações do seu roteiro, e trabalham de modo a amplificar as virtudes do mesmo. Dotado de um estilo único, Drive é certamente um forte candidato a um futuro Cult, um dos melhores filmes do ano e devido ao moralismo da academia, um esnobado no Oscar. Uma pena. Certamente teria tornado a premiação muito mais Cool.

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