“Vicente e Antonio nos ensinam que é possível viver fiel a si mesmo e a uma amizade”

Autor da peça “Vicente e Antonio - A história de uma amizade: Florestan Fernandes e Antonio Candido”, Oswaldo Mendes descreve como surgiu a ideia do trabalho, que celebra o centenário do sociólogo

(Foto: Reprodução)
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Por Oswaldo Mendes, autor da peça “Vicente e Antonio - A história de uma amizade: Florestan Fernandes e Antonio Candido” (assista ao final do texto)

Por que Vicente e Antonio

Quando Florestan Júnior, na presença cúmplice de Mário Vítor Santos na Casa do Saber, me entusiasmou com a ideia de escrever uma peça de teatro sobre a amizade de seu pai com Antonio Candido, fiz dois alertas.

Primeiro, não busque ver o seu pai na peça. Esse só você conheceu, pertence à esfera privada das relações familiares. Guarde-o para si. A peça não vai olhar pelo buraco da fechadura da casa de ninguém. O Florestan Fernandes que interessa ao teatro é o personagem público, que se revela nas histórias, cartas e ideias trocadas com Antonio Candido. Interessa o seu legado.

Segundo, o teatro não é um tratado sociológico, histórico, genealógico, nem biográfico, no sentido documental. O teatro, e espero que a peça reflita isso, trata de gente, seres humanos em suas circunstâncias, com as alegrias, inquietações, conquistas, angústias e superações de cada um. Como as experimentadas por Vicente e Antonio.

Meses depois, ao concluir a peça, percebo que "sempre que chego ao fim não terminei". Ainda mais no teatro, em que o texto se destina não só a ser lido, mas a ganhar vida no palco e ali cumprir seu destino efêmero. Com a peça pronta é possível olhar o resultado e dizer do que se trata. O que é Vicente e Antonio? É o encontro em tempo de pandemia de quatro atores, dois jovens e dois na maturidade, conversando sobre a amizade exemplar de dois intelectuais, cujas vidas, ideias e histórias são trazidas à lembrança. Simples assim. A esperança é que, ao final dessa conversa, quem a assiste ou lê possa saber um pouco dos dois personagens e, como os quatro amigos atores, divertir-se, comover-se e estimular a própria imaginação, sensibilidade e pensamento.

Por fim, por que Vicente e Antonio? Por que não Florestan e Candido, como eram chamados por seus contemporâneos? Exatamente para que esse estranhamento acentue que não importam os seus nomes e sim os personagens que construíram e o que deixaram para até quando ninguém mais se lembrar quem foram eles. Sem falar no fator teatral que é alguém não ser tratado pelo próprio nome, da infância à idade adulta. A tenacidade de Vicente em ser Florestan é a síntese da sua trajetória, embora dissesse em momento de crise que "ninguém escolhe a própria história e sequer faz a própria biografia". Engano. Vicente e Antonio nos ensinam que é possível viver fiel a si mesmo e a uma amizade.

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