Vida de escritor

Em entrevista ao 247, Jos Castello fala de sua paixo pela literatura, suas crticas literrias, seus livros - dentre eles Ribamar, vencedor do Prmio Jabuti 2011 na categoria romance - e como nascem os escritores

Vida de escritor
Vida de escritor (Foto: Divulgação)

Aline Oliveira _247 - Em um de seus posts mais recentes em seu blog, José Castello escreveu que “há muito tempo, não acredita em gêneros”, e que essa descoberta literária o leva “além de seus limites”. Basta ler algumas páginas de Ribamar, seu último livro, e vencedor do Prêmio Jabuti 2011, na categoria romance, para confirmar que o escritor, de fato, não se prende às categorias.

A obra, recheada de referências literárias, sendo Carta ao Pai, de Franz Kafka, a mais forte delas, é feita de memórias, ficção e divagações que são “costuradas” por uma canção de ninar. “Certo dia, minha mãe começou a cantar uma música e me disse que meu pai me ninava com ela. Tive a ideia de anotar e pedir para meu irmão músico fazer a partitura. Ela serviu para entrelaçar cada tema do livro, que eu estava escrevendo há mais de três anos, mas até então não tinha encontrado um eixo”, conta o escritor que vive em Curitiba e conversou com o 247 por telefone. Leia a entrevista completa.

247- Ribamar foi seu livro mais difícil de escrever?

José Castello - Sim. Embora não seja um livro de memórias, é um livro que eu reinvento muito de minhas memórias e mexo num tema difícil para mim, que é a relação com meu pai, que era severo. Então tive que rememorar tudo isso, construir o José do livro, inventar histórias, cenas...

247- E o livro tem partes autobiográficas.

José Castello - Tem, mas as pessoas acham que você está escrevendo memórias. Por exemplo, de vez em quando as pessoas me dizem: ‘nossa, não sabia que você dava banho em seu pai?’. Mas eu nunca dei banho em meu pai. Só que o José, do livro, dá vários banhos no pai dele. Foi a partir das poucas lembranças que eu tinha de meu pai e da dificuldade que eu tinha de tocá-lo que vieram essas histórias do banho. Embora meu pai também tenha ficado doente, eu nunca dei banho nele, por exemplo. Mas isso é um ponto da autoficção. E em autoficção você passa por histórias reais.

247- Quando começou a ler Kafka?

José Castello - Descobri o Kafka quando garoto, na aula de literatura francesa. O professor indicou a leitura da versão em francês de A Metamorfose e eu fiquei muito abalado com a leitura. E cada vez que leio me impressiono muito, eu acho um livro maravilhoso.

247- Carta ao Pai te marcou mais?

José Castello - É aquela história do Ribamar. Eu dei o livro para o meu pai, mas ele não leu. Comprei o livro porque tinha uma capa com um homem pequeno, massacrado... E aquilo me impressionou demais. E como sempre achei que eu era massacrado pela vida e que ninguém me compreendia, me vi naquele livro. Enfim, na época que comprei não entendi muito bem, mas resolvi dar para meu pai na esperança de abrir um diálogo entre a gente.

247- Sua primeira biografia foi em 1983 sobre o Vinicius de Moraes e depois você escreveu outro livro sobre ele em 1996. Você já declarou que ele foi o responsável por você conhecer e gostar de poesia. É seu poeta preferido?

José Castello - É um dos meus poetas preferidos, por quem eu tenho uma grande paixão. Eu descobri o Vinicius quando eu era menino, nos bancos do colégio Santo Inácio, em Botafogo, no Rio de Janeiro. E eu me apaixonei por muitos poetas naquela época. Lembro que lia [Manuel] Bandeira e chorava... Aliás, eu tinha esse problema, o professor lia os poemas na aula e eu ficava com as lágrimas escorrendo, tentando segurá-las. Essas leituras que a gente faz entre os 9 e 13 anos marcam demais. Mas também tem as paixões tardias, como a Clarice [Lispector], que eu descobri aos 17.

247- Tem uma história de que você enviou, aos 23 anos, um conto seu à Clarice Lispector e ela o telefonou.

José Castello - Na adolescência, eu escrevia poesia, mas eram péssimas, tanto que não guardei nada. Aos 22, vi que poesia não era a minha e comecei a rascunhar uns contos. Teve um que eu achei que estava pronto e resolvi enviar à Clarice. Não lembro como consegui o endereço dela, mas resolvi, como jovem escritor, mandar pelo correio e coloquei meu telefone. Passou quase um mês e ela me ligou, falando de um jeito sumário, bem no estilo dela. Me disse “Tenho uma coisa a lhe dizer: você é um homem muito medroso (imitando o “r” carregado da escritora). E com medo ninguém escreve”. Acho que foi uma forma sumária de crítica literária, porque me marcou muito. Até hoje eu escuto essa voz da Clarice dizendo isso.

247- Continou escrevendo conto?

José Castello - Nos primeiros dez anos que morei em Curitiba escrevi mais de 50 contos, mas não publiquei nenhum. A não ser vários em rascunhos na revista do Sesc e na imprensa literária. Mas eu não gosto da maioria.

247- Sua formação é de jornalista e você trabalhou muito tempo como crítico literário, definindo-se como crítico sentimental. Explique isso.

José Castello - Minha formação acadêmica é toda jornalística. Eu não tenho nem mesmo graduação em Letras. E minha relação com a literatura sempre foi uma relação sentimental, ou seja, de amor. Tenho muitos rombos na minha formação, porque ela foi guiada muito por impulsos e por paixões. Não leio teoria literária, crítica literária e mesmo história da literatura. Tenho muitos dicionários que quando preciso para trabalho eu consulto, mas eu nunca dei muita atenção para isso. Minha relação mesmo é de leitor. Sempre tive muita dificuldade com a definição de crítico literário, porque crítico aponta para a especialização e eu sou um crítico não especializado. Portanto sou um crítico generalista e achei que falar em crítico sentimental tinha mais a ver com essa questão do amor.

247- Você lê as críticas de seus livros?

José Castello - Leio com grande ansiedade, como qualquer escritor. É claro que quero que gostem, que elogiem, que achem uma maravilha... agora, já tive críticas negativas. E muitas delas me machucam.

247- Tanto assim?

José Castello - É... já houve casos de duas ou três – que tentaram pegar por um lado mais pessoal ou com uma certa ironia, que é uma coisa que eu não gosto. Então, eu fico mal, com uma coisa azeda... e aquilo não cai bem...

247- E o que você faz quando isso acontece?

José Castello - Eu jogo numa gaveta, no meu arquivo e deixo passar um, dois ou três meses. Depois, de cabeça fresca, vou ler de novo. Não para me torturar, nem para mudar de opinião, mas para entender o motivo daquele cara não ter gostado do livro. Fazer isso me ajuda a pensar, porque até a crítica negativa mais ácida ajuda a pensar. E, além disso, se o sujeito parou horas e dias da vida dele para ler e escrever sobre seu livro, já é um motivo de você agradecer a ele.

247- Você já comentou que para ser escritor no Brasil é preciso ter outra profissão para poder escrever “na calada da noite”. Ser escritor no Brasil é uma profissão marginal?

José Castello - Acho que tanto no Brasil como no mundo todo. É claro que escritores de best-sellers vivem de seus direitos autorais. Mas os escritores que escrevem com paixão, como eu, e não pensam no mercado, precisam ganhar dinheiro em outro lugar.Por exemplo, para esse livro que eu estou escrevendo agora, eu levanto todo dia às 5h e trabalho nele até o final da manhã. Só depois disso, começo minha vida comum, de escrever pra jornais etc.

247- O que você está escrevendo?

José Castello - Um ensaio sobre como nascem os escritores. É provável que seja publicado em 2013.

247- Como nascem os escritores?

José Castello - Não tem regra. Acho que surge da descoberta de que a palavra é uma coisa mágica. De tudo que a gente tem no mundo, no fim das contas, é a palavra. Se você não dá um nome às coisas e se não atribui adjetivos, frases às coisas e às pessoas, essas coisas não existem. Então, a palavra é crucial no mundo. É por aí que começa uma pouco a possibilidade de surgir um interesse, um talento para a escrita, a literatura. Tudo se dá através da redescoberta da palavra.


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