Diálogos conecta

Academia, sociedade civil e a disputa pela informação

Durante o período de guerra cultural recente no Brasil, a defesa da democracia e do estado democrático de direito foi possível através de um novo modelo de jornalismo independente

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(Foto: Dado Ruvic / Reuters)


Por Thaiane Oliveira, Roberto Kant de Lima, Afonso Albuquerque e Reynaldo Aragon Gonçalves

Nos últimos anos, principalmente no período em que o Brasil foi cenário de um dos mais notáveis casos de exercício explícito das práticas inquisitoriais processuais penais brasileiras, culminando no impeachment da presidente Dilma Rousseff e consecutivamente na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o termo guerra cultural tem pautado o debate público no país. A guerra cultural vem chamando a atenção de parte da sociedade que se encontra envolvida em um processo de crise democrática das instituições nacionais. Inserida em um contexto de oligopólio midiático e tecnológico, a guerra cultural está relacionada às disputas pela autoridade epistêmica e pela “verdade” como centro de um processo de negociação, legitimação ou manutenção de poder. 

As manifestações desta guerra cultural, o negacionismo, a desinformação, as fake news, entre outras práticas informacionais, passaram a ser temas de debate entre instituições científicas em busca de soluções para lidar com esse fenômeno de grande preocupação mundial. Como eixo central para a discussão, iniciativas científicas buscam debater a qualidade das informações e a soberania sobre os dados, que hoje se apresentam como um dos grandes desafios para as democracias ocidentais. No entanto, o enfrentamento à desinformação e ao negacionismo, assim como a disputa pela soberania informacional, não é uma responsabilidade apenas das instituições científicas, mas sim, de toda a sociedade.

Durante o período de guerra cultural recente no Brasil, a defesa da democracia e do estado democrático de direito foi possível através de um novo modelo de jornalismo independente. Um modelo que através de financiamento do público e com pautas livres de interesses econômicos, serviu como resistência contra a crise das instituições democráticas nacionais que enfrentamos atualmente. Neste ambiente de ruptura institucional, jornalistas, cientistas, formadores de opinião, profissionais liberais, entre outros atores da sociedade civil, encontraram no ecossistema do jornalismo independente e democrático, um espaço importante na batalha sobre a guerra cultural. 

O impacto do novo modelo tem gerado reações de setores conservadores e liberais, como o jornalismo tradicional e as plataformas digitais, que buscam a todo momento desqualificar o profissionalismo destes veículos. Recentemente, durante o processo eleitoral, agências de checagens ligadas a grandes grupos de comunicação comerciais e jornais como a Folha de São Paulo, têm promovido ataques diretos ao jornalismo democrático que vem abordando temas sensíveis e que de forma sistemática são silenciados pela mídia tradicional. Da mesma forma, plataformas digitais como o Youtube têm retirado vídeos produzidos pela equipe editorial do Brasil 247, sob o argumento de promover desinformação. Diante deste cenário, tem sido cada vez mais fundamental reforçar as parcerias entre a sociedade civil, a mídia democrática independente e a academia, como forma de fortalecer os laços institucionais entre as partes e potencializar a capacidade de reação de toda sociedade à quebra de nossa soberania sobre a informação.

Iniciativas como da Rede Conecta¹, um núcleo científico de estudos estratégicos sobre temas relacionados aos desafios atuais, nascido da universidade pública, vem reunindo parcerias entre a academia e setores da sociedade civil para promover um maior diálogo entre o conhecimento gerado dentro da academia, incrementando a circulação e qualidade da informação, e a sociedade. Esse movimento só é possível hoje por consequência da força das redes digitais e do ecossistema de mídias independentes e democráticas, que oferecem espaços para os grandes debates nacionais. Composto por laboratórios de pesquisa como o CiteLab e o Lamide, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC²), entre outros parceiros, conta com uma rede de mais de 200 pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, para debater os desafios atuais a partir dos problemas que enfrentamos hoje, diante de uma disputa sobre a informação neste contexto de guerra cultural.

¹A Rede Conecta é centro de estudos estratégicos que busca promover o enfrentamento a desinformação. Buscamos a ampliação das conversações entre a academia e a sociedade em geral. Para isso, propomos modelos participativos e imersivos que propiciem um maior engajamento do usuário com as metodologias e resultados de todas as áreas do conhecimento. É vital que se empoderem o cidadão com as ferramentas para que ele próprio se torne mais um agente de combate à desinformação.

² O InEAC (www.ineac.uff.br) é uma rede internacional de pesquisas que tem como escopo de atuação a análise dos processos de administração institucional de conflitos e as formas não institucionais, especialmente os processos de demanda de direitos e por reconhecimento por parte de diversos atores. Essas duas vias de pesquisa articulam-se com as ações propostas na área da transferência de conhecimento. Assim, esse projeto se funda em uma perspectiva comparada por contraste e multidisciplinar de análise, voltada para o entendimento do Direito e da Segurança Pública como um campo de disputas e consensos que vai além da criminalidade e da intervenção repressiva. A partir da criação do InEAC, em 2009, as iniciativas de divulgação, difusão e educação científica, como esta de agora, se multiplicaram e se institucionalizaram, inclusive em seu canal de Youtube (https://www.youtube.com/c/ineac).

Sobre os autores:

Thaiane Oliveira é professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense. Líder do Laboratório de Pesquisa em Ciência, Inovação, Tecnologia e Educação (CiteLab). Pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC).

Roberto Kant de Lima é Professor dos Programas de Pós-Graduação em Antropologia e em Justiça e Segurança da UFF e de Direito da UVA. Cientista do Nosso Estado/FAPERJ, Pesquisador 1-A/CNPq e Coordenador do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC - CAPES/CNPq/FAPERJ - www.ineac.uff.br).

Afonso Albuquerque é professor associado 4 da Universidade Federal Fluminense consultor ad hoc da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do RJ, consultor ad hoc da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, consultor ad hoc do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 

Reynaldo Aragon Gonçalves é diretor executivo da Rede Conecta de Inteligência Artificial e Educação Científica e Midiática. Realiza pesquisas em inovação nos campos da comunicação política e científica pela perspectiva da qualidade da informação. É membro pesquisador do INCT em Administração de Conflitos (INCT/InEAC) e dos Laboratórios de Investigação, Ciência, Inovação, Tecnologia e Educação (Citelab-UFF) e do Laboratório de Mídia e Democracia ( LAMIDE - UFF).

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