BRICs, a missão da prosperidade

Entre 2003 e 2007, exatamente no primeiro mandato do presidente Lula e quando de nossa inserção, o crescimento dos países do BRIC’S representou a espantosa soma de 65% da expansão do PIB mundial

O pós-guerra se constituiu em imensa surpresa para o mundo. Países devastados emergiram já na segunda metade dos anos 40, pelas mãos de seus povos e guiados por Estadistas clarividentes. A grande lição foi dada pelos derrotados, os países do Eixo: Alemanha, Itália e Japão. Adenauer soergueu dos escombros a forte economia germânica em tempo recorde, sem renegar o credo democrático. De Gasperi limpou o lixo do fascismo e inaugurou tempos de liberdade e bonança econômica para os italianos. E o Japão aproveitou cada possibilidade ofertada pelo Plano Marshall, reinventou-se e deslumbrou o mundo com a criatividade de seu povo e o arrojo de sua tecnologia. Embora derrotados, logo estariam perfilados com os vitoriosos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, não só por pragmatismo político, mas por afinidades econômicas.

Por pelo menos três décadas, valeu o pactado na Conferência de Bretton Woods, quando já nos estertores do conflito internacional, delegações de dezenas de países – inclusive do Brasil – definiram novos padrões de gerenciamento econômico internacional, estabelecendo regras para as relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados do mundo. O “Sistema Bretton Woods” foi a primeira iniciativa exitosa em toda a história de se forjar uma ordem monetária totalmente negociada. Em verdade, num hotel luxuoso da aprazível cidade do Estado norte-americano de New Hampshire, se delineava o novo capitalismo do pós-guerra.

Mas o velho sistema capitalista, com meio século de existência, práticas de favorecimento às tradicionais e grandes potências do passado e vícios de protecionismo de toda ordem, já dava sinais de exaustão e fadiga de material, diante de um mundo globalizado, quando no apagar nas luzes do século XX o capitalismo passou por diversos reveses, notadamente a crise da bolha imobiliária nos Estados Unidos. Antes, porém, países de economia florescente como o México, a Tailândia, a Rússia, haviam experimentado fortes crises bursáteis, com perdas imensas para seus investidores por obra de ataques de especuladores sem pátria nem bandeira.

O neoliberalismo, inaugurado pela gestão desumana de Miss Thatcher na Inglaterra, ao devastar direitos sociais, vida sindical, empresas públicas e privatizar o que custou sangue, suor e lágrimas ao bravo povo inglês, sepultou o velho e cansado capitalismo. Ele foi moda durante alguns anos. Fascinou os colunistas amestrados. Amealhou a simpatia de incautos e a adesão de oportunistas. Obteve a simpatia de governos sem compromissos populares que terminaram por quebrar as economias de seus países em experimentos frustrados ao longo de duas longas e sofridas décadas. León Febres Cordero, um radical de direita, inaugurou o “thatcherismo andino” e faliu o Equador. Carlos Salinas de Gortari, eleito com as esperanças de que levantaria o combalido México, protagonizou um dos mais dramáticos “defaults” de toda a história internacional, não sem antes ser incensado pela imprensa internacional e os arautos de Wall Street como uma das grandes promessas de “estadistas do século XX”... Não foi diferente com o Brasil de Fernando Henrique Cardoso, e suas três sucessivas quebradeiras em menos de oito anos de mandato, nem as farsas rocambolescas de Alberto Fujimori, no Peru, e Carlos Menem, na Argentina, igualmente apontados a seu tempo como exemplos de governantes “pragmáticos”, “modernos” e “competentes”. A história registra o espetacular fracasso moral e econômico de cada um deles.

Enquanto isso, no longínquo oriente, o velho e sofrido Vietnã, aquele mesmo que ardeu anos a fio sob bombas de napalm e impiedoso fogo de morteiros, vítima de guerra covarde e sem causa, assombrava o mundo com economia pujante, inovadora e sustentável. A milenar China, o “império do centro”, combinou fantástica força de trabalho e notória sabedoria, para colocar-se definitivamente como o grande e novo ator econômico do século XXI, abrindo o seu impressionante mercado interno, tornando-se um exportador agressivo em todos os segmentos do consumo, além de estabelecer parcerias em todas as áreas de atuação comercial e fomentando negócios mundo afora. Não sem esforço e competência, os chineses se firmaram como a nova grande economia do planeta. Um mérito que ninguém nem nada jamais irá lhes arrebatar.

Outros países seguiram o mesmo caminho, destacando-se a Índia, a África do Sul e a Rússia. A Índia com uma alta capacidade de prestação de serviços por conta de sua vasta mão-de-obra, com elevado expertise tecnológico e uma classe de empreendedores brotada nas últimas décadas, mudando a face arcaica do país e dando-lhe mais possibilidades de superação dos bolsões de pobreza ainda existentes em seu interior, ao mesmo tempo em que cresce internamente e ganha mercados externos.

Com a África do Sul não foi diferente. Superada a chaga vergonhosa do “apartheid”, com o reencontro daquela bela e rica Nação consigo mesma, por obra dos grandes estadistas, Nélson Mandela e Frederik De Klerk, os sul-africanos puseram-se a construir um país justo e fraterno, inserindo-o no mercado internacional após anos de necessária segregação por conta do regime racista. A tarefa não foi fácil, mas foi atenuada pela imensa dotação de riquezas naturais e variadas potencialidades que saltam generosas do fértil solo sul-africano. Trata-se, pois, de um dos países mais ricos do novo milênio, com uma população absolutamente disposta a trabalhar no sentido de superar eventuais dificuldades e consolidar avanços nos campos social e econômico.

Por fim, a velha Rússia se somou ao esforço dos que formam o mais vigoroso bloco econômico do século XXI. Chegou com seu fantástico território, riquíssimo e continental. Sua cultura, os povos que a formam, sua história e tradições, as potencialidades já exploradas de seu subsolo e uma comprovada capacidade negocial que fazem dela uma parceira fundamental para o Brasil, a Índia, a China e a África do Sul.

Desde 2006 os BRIC’S se colocaram como uma nova, válida e consistente alternativa aos velhos e fatigados blocos econômicos tradicionais. Em verdade, o economista norte-americano Jim O’Neil, em estudo de 2001, intitulado “Building Better Global Economic BRICs”, já o antevia ao formular a idéia de sua criação. A diplomacia brasileira, desde os esforços do notável embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, ao fomentar o Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty e abrir novos mercados ao Brasil ainda em pleno regime militar, já se preparava para esse salto qualitativo. Nos anos nefastos de FHC, quando mesmo o Mercosul foi sabotado de forma evidente, a diplomacia foi estagnada e os esforços de abertura do Brasil ao mundo se limitaram a humilhante postura de um permanente “a reboque” das políticas norte-americanas com  amesquinhamento, sem inovação ou ousadia, quem dirá altivez. Mas foi com o presidente Lula, já com o Itamaraty sob o comando sereno do Chanceler Celso Amorim, que o Brasil firmou-se no BRIC’S, assumindo o papel que lhe cabia. E não podia ter feito coisa melhor! E o governo Dilma Rousseff, atento a decadência do velho bloco, continuou de forma efetiva a participação decidida do Brasil na nova ordem que se impôs.

Entre 2003 e 2007, exatamente no primeiro mandato do presidente Lula e quando de nossa inserção, o crescimento dos países do BRIC’S representou a espantosa soma de 65% da expansão do PIB mundial. Em paridade de poder de compra, o PIB dos países integrantes já supera hoje o dos EUA ou o da União Européia. Em 2003, os países do BRIC’S eram responsáveis por 9% do PIB mundial. Já em 2009 esse valor aumentou para os 14%. Em 2010, o PIB conjunto dos cinco países do BRIC’S totalizou US$ 11 trilhões, ou seja, nada desprezíveis 18% da economia mundial. E se considerarmos o PIB pela paridade do poder de compra, esse índice é ainda maior: chega aos US$ 19 trilhões, ou seja 25%.

Esses números, cifras, índices, indicadores, dados impressionantes, nós não veremos estampados na grande mídia nacional. Eles não interessam a quem só expressa o derrotismo e esconde o sucesso. Mas são a expressão da verdade. A verdade que grita, que pesa nas relações multilaterais, que preside o novo milênio, que consolida os esforços em benefício de um mundo mais justo e melhor. Não só os governos estão empenhados em cimentar as vitórias dos BRIC’S, mas associações empresariais, como a ativa Câmara de Comércio Brasil China, comandada com imensa competência pelo empresário e acadêmico Charles Tang, e empresários brasileiros, hindus, sul-africanos, russos e chineses.

O Brasil que superou em muito a pobreza, tem vencido etapas importantes na luta pela superação de suas dificuldades e conseguido firmar-se diante do mundo como uma nova e promissora potência, voltou seus olhos para um novo mundo. Um mundo melhor e mais viável. Um mundo mais que possível. O mundo dos que tem mais afinidades e convergências. E os gigantes que emergem na África Austral, na Europa do Leste e na Ásia Central, quer por afinidades do presente, quer por vislumbrarem um mesmo futuro, ou até mesmo pelas amargas experiências de um passado de desafios, são os irmãos escolhidos para a venturosa missão da prosperidade.

(*) Delúbio Soares é professor

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