Coutinho fala de uma retomada em U da economia

Segundo presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o crescimento já está a caminho, mas em uma reposta muito mais lenta do que a obtida em 2009, quando houve a recuperação em V

Coutinho fala de uma retomada em U da economia
Coutinho fala de uma retomada em U da economia (Foto: Lola Oliveira)

247 – O Brasil pode reverter a quase estagnação da economia brasileira. É o que aponta Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo ele, o crescimento, já está a caminho e será reforçado, nos próximos anos, por uma extensa "fronteira de oportunidades", que vai da infraestrutura à saúde, entre outras áreas.

Leia trechos da entrevista concedida ao Valor:

Estímulos monetários

Talvez, a economia já tenha reagido e isso vai ficar claro no fim do mês, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar os dados. Todos os indicativos são de que houve um crescimento expressivo no primeiro trimestre. Eu gostaria de mencionar uma série de processos que caracterizaram parte de 2011 e de 2012 e que a diferenciam da resposta rápida da economia em 2009 e 2010, quando houve uma recuperação em forma de V.
Agora, estamos tendo uma recuperação em U, muito mais lenta. A crise na zona do euro foi em ‘câmera lenta’, com a repetição de vários episódios críticos que mantiveram uma incerteza muito densa por pouco mais de um ano. 

Consequências

Afeta o canal de expectativas e o de cautela. Outro fato é que a desaceleração de 2011 começou como um ato deliberado da política macroeconômica. Foram usados instrumentos macroprudenciais e uma subida inicial de juros para controlar a inflação. Sobrepôs-se a isso a crise externa. Além disso, 2011 e 2012 foram marcados por um lento processo de ajuste de estoques na indústria. E foi um processo, em certo sentido, autoalimentado.

2004 - 2010

O forte crescimento ocorrido entre 2004 e 2010, com breve interrupção em 2009, alavancou muito o consumo e o   endividamento das famílias, além do endividamento das pequenas empresas. Esse processo em 2011 e 2012 se revestiu, diferentemente de 2009, da necessidade de desalavancagem do endividamento das famílias e das pequenas empresas, o que também travou uma das molas importantes da recuperação. Em que pese o esforço dos bancos públicos, a taxa de concessão do crédito com recursos livres desacelerou em 2011 e 2012. Só agora esse processo de desalavancagem está sendo concluído.

Freada

Os índices de inadimplência começaram a ceder, mas demoraram muito. Mas esses processos são longos. E, finalmente, tivemos um ano ruim para a agricultura em 2012. A questão relevante é: se o governo não tivesse atuado intensamente no sentido de reduzir taxa de juros, melhorar a posição relativa da taxa de câmbio em termos de competitividade, desonerar IPI e depois folha de pagamento, e se não tivesse motivado uma atuação mais forte dos bancos públicos, é muito provável que o quadro tivesse sido muito pior. Há, portanto, uma configuração conjuntural nesse período de 2011 e 2012 que está sendo extrapolada como se fora estrutural, como se tivéssemos uma perda de vitalidade da economia brasileira. O que em economês chamam de redução do PIB potencial, o que não é verdadeiro.

Modelo de energia

O interesse nos leilões é ascendente, e não há razão para que não seja, e também é ascendente a curva de investimento em energia. Terceiro, temos uma grande fronteira na área de óleo e gás, onde eu enxergo a abertura das novas rodadas como uma grande oportunidade de acelerar os investimentos no setor e, se tivermos a capacidade de desenvolver a cadeia supridora, tanto melhor. Temos, ainda, a fronteira da construção. A construção residencial tem ainda um grande potencial. É preciso terminar o ciclo de desalavancagem familiar, mas há ainda um déficit de habitação. A combinação de instrumentos de habitação social - Minha Casa, Minha Vida - com instrumentos de créditos de longo prazo para o avanço da habitação residencial é outra avenida importante, e ela tem um efeito de empuxe sobre uma ampla cadeia de materiais, insumos, etc.

Também devo mencionar os agronegócios competitivos, que têm uma perspectiva na medida que a Ásia, com seus processos de urbanização, é fonte de demanda e uma grande oportunidade.

Custos

Os custos salariais e de certos insumos importantes. Várias cadeias reclamam disso. Queria lembrar que o governo atuou. A desoneração de folha em parte visou aliviar pressão de custos sobre os salários. A redução da tarifa de energia foi em grande medida motivada para aliviar os custos de produção da indústria. A melhora relativa da taxa de câmbio também foi justificada publicamente pelo governo como um movimento em direção a melhorar a competitividade da indústria. Temos que olhar as oportunidades que o Brasil tem de desenvolvimento industrial. É importante mencionar iniciativas como o plano Brasil Maior e iniciativas como o Inovar-Auto. O governo sinalizou claramente que a indústria é estratégica a longo prazo para o Brasil. Vejo que uma reflexão de como revitalizar a indústria é algo que está na ordem do dia. Tenho uma visão de que é, sim, possível revitalizar a indústria brasileira, ampliar um pouco o seu espaço na formação da renda nacional e voltar a ter uma política de competitividade e de exportação para a indústria.

Leia a entrevista na íntegra aqui. 

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