Disparo do Departamento de Guerra dos EUA contra BYD, Alibaba e Baidu causa "mais atrito"
Negociadores brasileiros, ex-ministros Henrique Meirelles e Luiz Fernando Furlan criticam inclusão de empresas chinesas em lista negra do Pentágono
Por Marco Damiani, especial para o 247 - O disparo anunciado nesta terça-feira (9) pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos contra três grandes empresas chinesas - a fabricante de carros elétricos BYD, a rede de e-commerce Alibaba e a plataforma de buscas Baidu - pode sair pela culatra. Isto é, provocar o efeito inverso ao desejado pelo Pentágono, especialmente no campo comercial. Esta é a avaliação de dois experientes ex-ministros brasileiros da área econômica, Henrique Meirelles e Luiz Fernando Furlan, ouvidos nesta manhã, em São Paulo, pelo 247.
O trio de gigantes chinesas foi incluído pelo Pentágono em uma lista que já chega a 188 companhias do país asiático suspeitas de colaboração com as forças armadas da China. Elas poderão sofrer sanções como o impedimento de manterem relações comerciais com o governo americano, além de danos na imagem junto ao público.
"O comércio internacional é formado por vasos comunicantes", apontou Luiz Fernando Furlan, ex-titular da pasta do Desenvolvimento (2003-2007), durante o primeiro governo Lula. "Se a água sobe em um lado, a empresa corre para outro para poder respirar", completou ele, em referência à medida do Departamento de Guerra dos EUA contra as companhias chinesas. "As empresas são ágeis. Quando enfrentam um ambiente adverso, procuram outro mais amigável. É simples assim."
O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles adotou uma linha semelhante. "Trata-se de uma medida que aumenta as tensões, o que nunca é positivo", disse. "É uma decisão que causa mais atrito." Para ele, as tarifas impostas recentemente pelos EUA contra setores da economia brasileira fazem parte do mesmo contexto. "Entre os componentes políticos em torno do tarifaço pode estar, sim, um pouco de ciúme em relação ao comércio do Brasil com a China, que é crescente."
Experiente capitão de indústria, Furlan acredita na hipótese de a BYD, em razão da sanção americana, avaliar um incremento de produção e negócios com o Brasil e outros países. "Qualquer empresa que passa a enfrentar restrições em um território pode buscar outro. Isso faz parte do comércio internacional." A companhia chinesa inaugurou, em setembro do ano passado, em Camaçari (BA), a maior fábrica de carros elétricos da América Latina, com investimentos anunciados de US$ 5 bilhões.



