Globo elogia BC, mas Estadão pede juros maiores

Para o jornal carioca, "Banco Central assume tarefa do governo como guardião da moeda"; já para a publicação da família Mesquita, "submisso à desorientação do Palácio do Planalto", banco demorou quase dois anos para agir 

Globo elogia BC, mas Estadão pede juros maiores
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247 – O jornal 'O Globo' elogiou a atitude do Banco Central de elevar a taxa básica de juros na tentativa de controlar a inflação. Mas a publicação da família Mesquita queria juros maiores. Leia:

Timidez contra a inflação - EDITORIALO ESTADÃO

A inflação disparada parece haver preocupado, afinal, a presidente Dilma Rousseff e os dirigentes do Banco Central (BC). Não havia mais como olhar para outro lado. Em março a taxa acumulada em 12 meses chegou a 6,59% e estourou o limite de tolerância, de 6,5%. O assunto ganhou destaque nas primeiras páginas dos jornais, nas capas de revistas semanais e nos programas de rádio e TV. A demorada resposta foi dada na quarta-feira, quando o Comitê de Política Monetária (Copom), de maneira quase envergonhada, elevou de 7,25% para 7,5% a taxa básica de juros da economia. O tímido aumento foi acompanhado de uma promessa de "cautela" nos próximos passos.

A timidez transparece também no comunicado emitido pelo Copom. A nota menciona a inflação elevada, a disseminação dos aumentos e a resistência da inflação, fatos bem conhecidos e apontados muitas vezes, desde o ano passado, por analistas do mercado financeiro e de instituições independentes. O documento sugere a possibilidade de novas altas de juros, mas com uma ressalva: "Incertezas internas e, principalmente, externas cercam o cenário prospectivo para a inflação" e recomendam cautela na política monetária.

A ressalva, um tanto cabalística, é menos misteriosa e mais preocupante do que pode parecer à primeira vista. O pessoal do BC continua argumentando como se os grandes problemas internos, como a persistente alta de preços e o fiasco do crescimento, fossem determinados principalmente, ou em grande parte, pelas condições externas. Essa alegação foi usada em agosto de 2011, quando o Copom iniciou a redução dos juros. A recessão internacional, segundo se explicou na época, derrubaria as cotações dos alimentos e de outros produtos básicos e isso ajudaria a frear a inflação no Brasil.

A previsão foi errada, como se verificou em 2012, e o erro decorreu principalmente de um diagnóstico falho. Ao contrário da tese oficial, a inflação brasileira, claramente vinculada a fatores como o gasto público excessivo e a rápida expansão do crédito, é um produto essencialmente nacional, assim como a estagnação do PIB. Basta olhar a evolução de outros países emergentes e em desenvolvimento para ver como é falso o discurso repetido em Brasília. Pode-se crescer muito mais, com inflação bem menor, apesar do ambiente externo desfavorável. Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru comprovam essa possibilidade.

O erro maior e mais sério, no entanto, resulta de uma espécie de vesguice mental. A presidente Dilma Rousseff insiste em proclamar a redução dos juros como grande realização de seu governo. Se novos aumentos forem necessários, diz a presidente, a taxa ainda será menor do que a vigente em outros tempos.

Há dois equívocos nesse palavrório. De fato, os instrumentos de política monetária tornaram-se mais eficazes, mas isso é consequência da integração financeira. Há dez anos o crédito correspondia a 25% do PIB. Essa relação dobrou. Qualquer medida - alta dos juros ou aperto do crédito, por exemplo - pode produzir mais efeitos do que há alguns anos. É uma tolice atribuir essa mudança ao voluntarismo da presidente da República. Mas instrumentos mais eficazes só funcionam se forem usados, e o BC, obediente à Presidência, demorou muito a agir.

Além disso, a presidente Dilma Rousseff, aplaudida por uma parte do empresariado, agiu sempre como se o grande problema do Brasil, no setor monetário, fosse a persistência de juros mais altos que os de outros países. Essa tese desvia a atenção do problema central. Juros altos podem ser ruins, mas a questão realmente grave é a persistência de uma inflação endêmica e bem maior que a de quase todos os participantes do comércio global. Em outros países, surtos inflacionários são combatidos com rapidez e determinação. No Brasil, a própria meta de inflação, de 4,5%, com margem de tolerância de dois pontos porcentuais, já revela uma perniciosa tolerância inflacionária. Como o governo gasta demais e ainda transforma em farsa o compromisso com a meta fiscal, sobra a política monetária como arma contra a alta de preços. E mesmo essa arma o BC, submisso à desorientação do Palácio do Planalto, deixou de usar por quase dois anos.

Elevação dos juros foi inevitável diante da inflação - EDITORIAL O GLOBO

Os índices de preços não deixam dúvida sobre o comportamento da inflação nos últimos meses. Mesmo que a trajetória tenha sido de declínio a partir do salto registrado em janeiro, a variação mensal permanece muito alta, considerando-se que o país tem como meta conter a inflação anual em 4,5%, com tolerância de dois pontos percentuais (teto de 6,5% e piso de 2,5%). O preocupante é que a inflação já não mais se concentra em alguns itens ou alguns segmentos específicos, como é o caso dos serviços, pois a maioria dos preços pesquisados (representando cerca de 70% do índice oficial, o IPCA) subiu em março em relação ao mês anterior.

Diante desses resultados, os agentes econômicos e até mesmo as pessoas em geral começaram a não acreditar que o governo, com sua política atual, conseguirá derrubar a inflação. Com o longo histórico de inflação aguda e crônica do Brasil, o fator psicológico acaba sendo muito relevante na formação dos preços. Basta que se multipliquem as apostas na direção de uma alta da inflação (ou de que não haverá queda) para aumentar a probabilidade de tal previsão se concretizar.

Daí a importância de se vencer a chamada batalha das expectativas. A conquista da credibilidade depende do conjunto da política econômica. Se as finanças públicas estão em ordem, com receitas e despesas se comportando dentro das estimativas do Orçamento, os agentes e econômicos e os mercados passam a confiar mais na estabilidade da moeda. Mas, se a política fiscal é expansionista, com despesas se expandindo mais rapidamente que as despesas, esse sentimento se inverte e ainda introduz no cenário o receio de elevação futura de impostos para restabelecimento do equilíbrio. Não por acaso o governo sempre deve dar provas de sua preocupação com o equilíbrio de curto, médio e longo prazos nas finanças públicas (é nesse ponto, por exemplo, que a resistência a reformas na previdência contaminam as expectativas quanto à trajetória da inflação).

Se o conjunto da política econômica não caminha claramente no sentido de conter a inflação, resta ao Banco Central assumir a tarefa, como guardião da moeda. Reduzir as taxas de juros é um objetivo que a economia brasileira deve buscar ao longo do tempo, para equipará-las às que vigoram no mercado internacional. No entanto, mesmo que, pela média, sejam consideradas altas, os níveis dos juros básicos no Brasil vêm sendo vistos como incompatíveis com o esforço para se derrubar a inflação e trazê-la ao centro da meta (4,5%). O Banco Central tem avaliado essa questão há vários meses e finalmente tomou a decisão mais sensata no momento, elevando de 7,25% para 7,5% a taxa Selic. O BC não podia ficar engessado diante do objetivo de médio prazo de de equiparar os juros brasileiros aos do exterior. Se no curto prazo for preciso elevar os juros, as autoridades monetárias não podem se negar a isso, por mais desagradável que seja a decisão.

 

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