Inflação e emprego

O que Dilma disse sobre estabilidade e crescimento nada tem de exótico ou mesmo heterodoxo

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O saudosismo em relação ao tempo em que o dinheiro crescia em árvore e se multiplicava sem trabalho, graças às maiores taxas de juros do mundo, é um esporte com número crescente de adeptos no Brasil. Bastou uma fala banal de Dilma Rousseff, na África do Sul, para que os porta-vozes do velho rentismo saíssem da toca e também disparassem ordens de compra e venda de juros futuros, na natural jogatina do mercado financeiro.

Dilma disse o óbvio: o melhor remédio para se combater a inflação não é matar o doente, promovendo o desemprego. Aliás, sua política já ficou clara. Graças à folga fiscal gerada pela redução das taxas de juros, o governo ganha margem de manobra para promover desonerações tributárias, como já ocorreu na energia e nos alimentos, reduzindo o custo Brasil.

A fala presidencial, no entanto, foi interpretada como heterodoxa e como um sinal de que o governo Dilma despreza e estabilidade de preços, sacrificando o controle da inflação em nome do crescimento. A esses críticos, cabe sugerir apenas a leitura da missão central do Federal Reserve, o banco central americano criado em 1910 e que amadureceu seus instrumentos de política e sua visão de mundo, depois de traumas como a Grande Depressão. A principal missão do Fed é “conduzir a política monetária, influenciando as condições monetárias e de crédito na economia, em busca do maior nível de emprego, de preços estáveis e de taxas de juro moderadas no longo prazo”.

Ou seja, nos Estados Unidos, coração do capitalismo e do sistema financeiro internacional, o emprego vem antes da estabilidade. O que não significa que os norte-americanos sejam lenientes com a inflação. No Brasil, onde o regime de metas foi implantado em 1999, os que mais protestam contra o estouro da meta (que ainda não estourou no governo Dilma) são aqueles que, em seu tempo, a estouraram.

Armínio Fraga, por exemplo, presidiu o Banco Central de 1999 a 2002. No primeiro ano, a inflação foi de 8,94%. Em 2000, de 5,97%. Em 2001, de 7,67%. No ano seguinte, de 12,53%. Em quatro tentativas, portanto, ele chegou perto do alvo apenas uma vez. E o crescimento da economia foi também medíocre durante sua passagem pelo poder.

De espetacular mesmo, só as taxas de juros na lua. Coincidência ou não, da equipe de Armínio brotaram “geniais” financistas, que talvez não tenham se dado conta de que o Brasil mudou e que, agora, a multiplicação do capital depende de um fator essencial chamado trabalho. 

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