Marcelo Odebrecht imprimiu seu estilo de negócios no departamento da propina

Ao assumir o comando do grupo em 2009, Marcelo Odebrecht multiplicou os pagamentos de propina e caixa dois; de largada, eles dobraram; a disparada foi impulsionada pela decisão de descentralizar o fluxo da propina; até 2008, quando estava na presidência da construtora, os pagamentos só eram feitos com sua autorização; ao assumir o conglomerado, deu autonomia a ao menos seis executivos do alto escalão para autorizá-los junto ao setor de propina —as negociações dos valores com os agentes públicos eram feitas livremente pelos funcionários

Marcelo Odebrecht 
Marcelo Odebrecht  (Foto: Giuliana Miranda)

247 - Conhecido por seu estilo metódico de gestão, Marcelo odebrecht também imprimiu sua marca ao departamento de propina da companhia que leva o sobrenome de sua família.

O relato é de reportagem de Renata Agostini na Folha de S.Paulo.

"O ano de 2006 caminhava para o final quando Marcelo Odebrecht chamou Hilberto Mascarenhas Silva à sua sala no Centro Empresarial Villa Lobos, em São Paulo. Tinha a ele uma proposta: montar uma área para gerenciar os pagamentos de propina da empreiteira.

Há quatro anos no comando da construtora, Marcelo se preparava para assumir a presidência do grupo e precisava de alguém de confiança para a área, considerada central nos negócios da companhia. Próximo da família e com 30 anos de firma, Hilberto era o nome ideal.

A profissionalização do setor de propina era, aos olhos de Marcelo, uma necessidade. Desde o início da década, o conglomerado triplicara o faturamento. Para manter o ritmo dali em diante, em sua visão, seria preciso pagar muito dinheiro, a muitos políticos, de forma eficiente e segura.

Hilberto cumpriu a missão. Montou um setor de propina "padrão Odebrecht", como se diz dentro da empresa. E a companhia prosperou. As receitas aumentaram de R$ 24 bilhões em 2006, ano da gênese do setor, para R$ 132 bilhões em 2015, quando Marcelo foi preso pela Polícia Federal.

Desnudado pela Lava Jato, o esquema de corrupção empresarial da Odebrecht mostrou-se colossal —o maior já descoberto no mundo, nas palavras do governo americano. À luz dos depoimentos da cúpula do grupo, revelou-se quase tão antigo quanto a própria empresa, que cresceu ancorada em contratos públicos e no estreito contato com o poder. 

Ao assumir o comando do grupo em 2009, Marcelo multiplicou os pagamentos de propina e caixa dois. De largada, eles dobraram. A disparada foi impulsionada pela decisão de descentralizar o fluxo da propina.

Até 2008, quando estava na presidência da construtora, os pagamentos só eram feitos com sua autorização. Ao assumir o conglomerado, deu autonomia a ao menos seis executivos do alto escalão para autorizá-los junto ao setor de propina —as negociações dos valores com os agentes públicos eram feitas livremente pelos funcionários.

Ao delegar aos seus mais fiéis subordinados as decisões, Marcelo seguia um dos princípios basilares da Odebrecht, transcritos em 1983 por seu avô, Norberto, numa série de três livros e repetidos à exaustão aos funcionários da empresa nas décadas seguintes."

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