Política errática

O País convive com um modelo errático em que a vontade do governo fala mais alto que as forças de mercado. Esse intervencionismo ocorre de modo desorganizado, pontual, sem transparência e com total viés político

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Gradualmente o governo Dilma vem desmontando a política econômica baseada no regime de metas de inflação, câmbio flutuante e superávit fiscal. Esse tripé, criado no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi um dos sustentáculos para a consolidação da estabilidade econômica do País ao longo de dez anos e permitiu que trinta milhões de brasileiros ascendessem à classe média durante o governo do PT.

Além de mudanças na política econômica, o atual governo vem sendo marcado pela adoção de um modelo fortemente intervencionista. Durante a campanha eleitoral a presidente Dilma repetiu várias vezes que o Estado seria "grande e forte" para iniciar um novo "desenvolvimentismo", linha que ela vem seguindo.

Nesse cenário de mudança e intervencionismo a incerteza predomina, o crescimento econômico se mantém pífio, os investimentos não decolam e a inflação pressiona. O meio empresarial se retrai frente à atual gestão por conta da falta de um horizonte claro nas regras do jogo.

O País está convivendo com um modelo errático onde a vontade do governo fala mais alto do que as forças de mercado. Esse intervencionismo ocorre de modo desorganizado, pontual, sem transparência e com total viés político. Um exemplo recente foi a falta de clareza que levou o governo decidir que o preço da energia elétrica deveria ser reduzido em 20%, mesmo que isso desestruture esse setor. As empresas da área de energia estão sendo fragilizadas.

Outro exemplo são as intervenções nas estatais. A Petrobras, que é uma empresa dinâmica e importante na economia brasileira, também está sendo fragilizada por decisões tomadas nos gabinetes políticos, com os aspectos econômicos sendo deixados de lado. Outro ponto é o fato das agências de crédito terem ampliados os dutos de comunicação direta com o Tesouro. Isso está acontecendo com o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa, que se tornaram agências fortemente controladas, cuja política de crédito é gerenciada por vontades políticas.

Em termos de política econômica a atual gestão contribuiu para a volta da inflação ao intervir além da conta no câmbio e elevar os gastos correntes de 24% para 26,5% do PIB em dois anos. Por sua vez, o Banco Central, submisso ao governo, deixou de agir como deveria para manter o regime de meta de inflação. Os interesses políticos pesaram mais do que as necessidades da economia.

Tudo indica que o governo pretende obter um câmbio mais elevado para dar mais competitividade à indústria, mais crescimento econômico para reagir às pressões e ao dinamismo da economia internacional e, ao mesmo tempo, controlar a inflação. São objetivos desprovidos de ações eficazes. Não dá para fazer tudo ao mesmo tempo. Isso explica o fato da equipe econômica ter acumulado insucessos.

No momento em que se quer controlar coisas demais, não se consegue controlar nada. A inflação tem permanecido consistentemente acima da meta e o desempenho do PIB tem sido medíocre. A política errática do governo terá um custo social muito alto mais à frente. A conta deve vir após as eleições do ano que vem.

Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas
[email protected]
www.facebook.com/marcoscintraalbuquerque

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