Presença brasileira em Cuba

Ao ajudar o desenvolvimento cubano, o Brasil amplia suas fronteiras comerciais na região, fortalece a competitividade das empresas exportadoras, gera empregos e exercita o necessário pragmatismo na disputa do comércio internacional

Em 30 de outubro de 2008, a Quinta Avenida, um dos endereços mais nobres de Havana, foi fechada para que a escolta de ministros e de dois chefes de Estado pudesse passar, com destino a uma inauguração histórica que marcaria a presença brasileira em Cuba. Na ocasião, a clássica residência dos anos 50 onde seria inaugurado o Centro de Negócios da Apex Brasil no país estava lotada de autoridades e de jornalistas internacionais. Como manda o protocolo, os anfitriões Alessandro Teixeira, presidente da Agência de Promoção de Exportações e Investimentos do Brasil e atual secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e o embaixador brasileiro Bernardo Pericás Neto, recepcionaram os presidentes Lula da Silva e Raúl Castro. O momento ficou marcado pelo discurso do presidente brasileiro, que, às vésperas das eleições norte-americanas, enfatizou sua indignação ao embargo sofrido pela população cubana há tantos anos e revelou sua predileção pelo então candidato Barack Obama. O fato virou notícia no mundo todo.

Passados pouco mais de três anos, Cuba flexibilizou diversas leis na direção de uma reforma política e econômica que inclui desde a renovação dos membros do partido, como: a facilitação da outorga de 178 atividades, denominadas "por conta própria" (estímulo ao empreendedorismo); realocação de 500 mil trabalhadores demitidos do setor público com um salário para cada 10 anos trabalhados (seguro-desemprego); permissão para locação de casas e estabelecimentos comerciais para estrangeiros e cubanos que trabalharem por conta própria; e ampliação do direito de superfície de 50 para 99 anos para estrangeiros que invistam em instalações turísticas. Do lado norte-americano, autorização para remessa de dólares das famílias cubanas residentes principalmente na Flórida e ampliação na permissão de viagens. Certamente os leitores devem considerar mínimas as medidas, mas significativas para um país que busca libertar-se das limitações impostas pelas restrições econômicas internacionais e promover uma abertura gradativa da economia.

Em 2010, as exportações brasileiras tiveram aumento superior a 50% em comparação a 2009. O resultado foi obtido graças ao esforço de empresas brasileiras cujas marcas já se tornaram conhecidas dos consumidores cubanos, como: Piccadily Calçados, Visconti, Havaianas, Marilan, Sayerlac, Tintas Coral, Bombril, Bauducco, Via Uno, Azaléia, Carolina Castro etc. Outros fornecedores nos segmentos de alimentos, madeira, equipamentos agrícolas, eletroeletrônicos, cozinhas industriais e até audiovisual comemoram a expansão dos negócios em 2011. As maiores oportunidades que têm atraído as empresas brasileiras estão relacionadas ao setor turístico. Em 2010, Cuba recebeu mais de 2,5 milhões de turistas, sendo 37,3% canadenses, 6,9% ingleses e 4,4% italianos. Entre 2005 e 2010, o número de quartos na rede hoteleira saltou de 55 mil para 65 mil. De olho nas obras do setor e nas reformas dos imóveis da população, construção de restaurantes, lojas, parques aquáticos etc., o grupo Tend Tudo (conhecido home center presente em cinco cidades brasileiras e no Distrito Federal) concluiu mais de dois anos de negociação e firmou contrato com a empresa Armacéns Universales, pertencente ao governo e responsável pelo armazenamento e distribuição no país. A empresa espera oferecer seu mix de produtos de mais de 400 fornecedores diferentes. As oportunidades ligadas à expansão do setor são as mais relevantes em virtude das obras de modernização e infraestrutura do país. Nesse sentido, a liderança brasileira sobre os concorrentes estrangeiros é facilitada pela construção do Porto de Mariel, visitado pela presidente Dilma Rousseff na semana passada e ao encargo da Construtora Norberto Odebrecht. A obra, viabilizada com financiamento do governo brasileiro para o cubano, envolve mais de US$ 1 bilhão e garante a participação de mais de 30 fornecedores brasileiros. Concluído, o porto deverá assegurar significativo incremento no fluxo turístico, além de servir de hub para a logística de mercadorias na América Central, ampliando as divisas do país, daí sua importância estratégica.

O Brasil concorre principalmente com os chineses e espanhóis no atendimento às necessidades de Cuba, que juntos detêm 60% das exportações. Ainda figura como oitavo país exportador. Espera-se que a ampliação das linhas de financiamento brasileiro, prometidas na visita, possa garantir significativo crescimento das exportações e maior presença de empresas verde-amarelas em meio às oportunidades identificadas nos setores agrícola, de transportes, máquinas e equipamentos, veículos, telecomunicações, confecções, produtos de higiene, cosméticos, tecnologias de saúde e da informação, produtos metalúrgicos, autopeças etc. identificados em estudo de mercado feito pela Apex Brasil em 2011.

Como se vê, há muito mais em jogo do que a alardeada pauta política noticiada pela imprensa por ocasião da visita presidencial ao país. É preciso observar que, ao ajudar o desenvolvimento cubano, o Brasil amplia suas fronteiras comerciais na região, fortalece a competitividade das empresas exportadoras, gera empregos e exercita o necessário pragmatismo na disputa do comércio internacional. Afinal, não dá para ser a 6ª economia do mundo olhando só para o próprio umbigo do mercado interno.

Gilberto Lima Junior é consultor de negócios internacionais, Presidente da Going Global Consulting e Membro do Conselho do World Trade Center do Brasil

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