Previsão para 2014: Economist jogará contra

Em suas apostas para a agenda internacional em 2014, Flávio Aguiar, da Carta Maior, prevê que duas vestais do neoliberalismo, a Economist e o Financial Times, continuarão agindo para desacreditar o governo Dilma

Em suas apostas para a agenda internacional em 2014, Flávio Aguiar, da Carta Maior, prevê que duas vestais do neoliberalismo, a Economist e o Financial Times, continuarão agindo para desacreditar o governo Dilma
Em suas apostas para a agenda internacional em 2014, Flávio Aguiar, da Carta Maior, prevê que duas vestais do neoliberalismo, a Economist e o Financial Times, continuarão agindo para desacreditar o governo Dilma (Foto: Leonardo Attuch)

Por Flávio Aguiar, da Carta Maior

Comecemos pelas efemérides: em 2014, além dos 50 anos do golpe de 1964, comemora-se (!) o centenário do começo da 1ª. Guerra Mundial, que, proporcionalmente, provocou mais mudanças no mapa geopolítico da Europa do que a Segunda.

O cinquentenário do golpe de 1º. de abril estará motivando muitos encontros e debates pelo mundo afora. Aqui na Alemanha a série começa em março e só deve terminar em novembro. Além do golpe propriamente dito, também haverá discussões em torno da Operação Condor – tema agora reavivado pela exumação dos restos mortais do presidente João Goulart, para exames em busca de possíveis indícios de que tenha sido assassinado.

Também em 2014 celebra-se o 70º. Aniversário do atentado de 20 de julho de 1944 contra Adolf Hitler. O atentado falhou, deixando na sua esteira centenas de presos, julgados, condenados e executados com requintes de crueldade, na maioria aristocratas, diplomatas e altos oficiais das Forças Armadas alemãs, entre eles o Conde von Stauffenberg, que colocou a bomba no bunker de Hitler, e o Almirante Wilhelm Canaris, que era nada mais nada menos do que o Chefe do Serviço Secreto, de Espionagem, Contra-espionagem e Sabotagem, a “Abwehr”, do Exército nazista.  A repressão estendeu-se à Áustria e à França, fazendo o número de detidos chegar aos milhares. As execuções dos condenados ou envolvidos, mesmo sem julgamento,  estendeu-se até as últimas semanas de abril de 1945, quando o Exército Vermelho já combatia dentro de Berlim.
 
A Boitempo Editorial vai publicar, em 2014, o livro “Diários de Berlim: 1940 – 1945”, da princesa russa Marie Vassiltchikov, considerado até hoje o relato mais próximo da conspiração e de suas consequências, feito por uma testemunha que acompanhou de perto os fatos e a sorte dos conspiradores, além de descrever a vida na capital alemã e arredores durante a guerra.

O Brasil estará sob escrutínio da mídia mundial, graças à realização da Copa do Mundo e da eleição de outubro do ano próximo, quando a presidenta Dilma Rousseff buscará mais um mandato. A Copa em si já é tema central do noticiário.
 
Mas haverá um pente fino buscando cobrir as esperadas manifestações contrárias.
 
Há uma campanha internacional contra o governo Dilma – liderada pelas duas vestais do neoliberalismo adernado, The Economist e Financial Times, mas com ressonância em muitas outras mídias, inclusive algumas consideradas progressistas, como The Guardian, ou mais de centro do que de direita, como o New York Times. De repente ficou “fashionable” (na moda) falar mal do Brasil, ainda mais com o incentivo autóctone de uma burguesia e de uma velha classe média nacionais que vê o arraial de seus até então privilégios invadido por uma “horda” promovida pelas políticas sociais e de inclusão do “lulopetismo”, pela nossa velha mídia oligárquica e provinciana de sempre, e também por uma nova leva de intelectuais que acha que falar mal do Brasil para plateias estrangeiras pega bem. Outra ponta de lança desta campanha será, possivelmente, o rebaixamento da nota brasileira pelas agências de avaliação da segurança financeira dos países para efeitos de concessão de créditos.

Na Europa, além das austeridades de plantão, que vão continuar a fazer vítimas, e vêm modificando o panorama identitário do continente, as atenções vão se voltar para a eleição do novo Parlamento Europeu, em maio. Espera-se um avanço da extrema-direita, que tenciona formar um bloco no plenário. Para tanto precisará eleger pelo menos 25 deputados em pelo menos 10 países. A extrema-direita vai mobilizar a xenofobia, contra o “terrorismo islâmico”, mas, sobretudo, contra os imigrantes, legais ou ilegais. É muito provável que seu crescimento mais notável se dê na França.

Ainda na Europa, outro tema central será a queda de braço envolvendo a Ucrânia, a União Europeia e a Rússia. Até o momento, apesar da vaga de manifestações sobretudo em Kiev, a capital da Ucrânia, o governo russo vem ganhando a parada, conseguindo recolocar o governo ucranianona órbita de sua influência. A União Europeia está em posição desfavorável, pois, apesar de grandes parcelas de classe média na Ucrânia se identificarem com ela, o que tem a oferecer é pouca ajuda (relativamente), juros altos e cortes de direitos, como vem acontecendo nos páises periféricos do chamado “sul da Europa”. A questão dos imigrantes deverá polarizar debates do Velho Continente. Na Alemanha, por exemplo, o líder da CSU, que integra o novo governo alemão, já se manifestou favorável a que o país impeça a imigração de “pobres””. Também há debates a este respeito no governo britânico.
 
Na maior parte da Europa, quando se fala no assunto, os alvos principais são claros: norte-africanos e sul-fricanos de todos os tipos, turcos, búlgaros e roma ou sinti (os ciganos).

A Rússia deverá continuar seu protagonismo de 2013, quando emergiu das próprias cinzas como uma potência – agora não só militar, nuclear ou econômica – mas diplomática, forçando alguns lances espetaculares no tabueiro mundial. A ação russa abriu as portas para a possibilidade de uma solução negociada para a questão do programa nuclear iraniano, o que, por sua vez, rebateu sobre a questão síria. Para janeiro espera-se o começo de negociações sobre a Síria em Genebra. Os lados por ora esgrimam condições: Bashar al-Assad exige o fim das “intgervenções estrangeiras”; os rebeldes esperam a sua renúncia ou queda, mas o fato é que todos os lados estão mais próximos da mesa de negociações do que antes.

Antes da Copa do Mundo de Futebol no Brasil se realizarão os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, na Rússia. Os atentados em Volgogrado (outrora a legendária Stalingrado da Segunda Guerra), matando 16 pessoas na Estação Ferroviária (o número pode subir, pois há muitos feridos em estado grave) e outros 10 num tróleibus, no apagar das luzes deste ano, expuseram os riscos que correm os jogos, numa região marcada pelos movimentos separatistas da Chechênia e do Daguestão – motivações longínquas do atentado na maratona de Boston.

Nos Estados Unidos continuará a batalha para por de pé o novo sistema público de saúde conhecido como Obamacare. O Tea Party anuncia uma nova estratégia, procurando “popularizar” temas como o “controle” dos gastos públicos, diminuição de impostos, etc. Desde os confrontos em torno do orçamento de governo e da autorização para elevar o teto do endividamento federal o movimento está na defensiva, tanto no plano externo quanto no interior do Partido Republicano.

A França continuará seu programa de tornar-se em grande escala a potência policiadora de regiões que jáestiveram sob seu domínio colonial, junto com a OTAN no norte do continente. Há ainda a possibilidade de que se abra uma negociação para por fim à guerra civil no Sudão do Sul, novo país que o conservadorismo evangélico louvou como um bastião da cristandade contra o islamismo espumante do Sudão, e que agora está mergulhado num conflito sangrento entre facções políticas, lideradas pelo presidente Salva Kiir e o ex-vice-presidente Riek Machar. O conflito tem também conotações étnicas, com o primeiro liderando a maioria Dinka e o segundo a minoria Nuer, podendo se espraiar pelos países próximos, como Uganda, Quênia, a já conturbada Somália, a Etiópia, Eritréia, Tanzânia.

Na Ásia, espera-se a determinação da profundidade do conflito interno na Coréia do Norte, que provocou a atitude radical de Kim Jong-ju, mandando executar o próprio tio, acusado de articular um golpe de estado contra ele. As atenções também estarão voltadas para o conflito em torno das ilhas Senkaku (em japonês) ou Diaoyu (em mandarim), envolvendo a China, Taowan, a Coréia do Sul, o Japão e os Estados Unidos.

Na América Latina, especula-se, embora sem muita esperança, sobre o significado do enigmático aperto de mão entre Barack Obama e Raul Castro nos funerais de Mandela. O Chile estará possivelmente se aproximando mais do Mercosul e se afastando do chamado “Bloco do Pacífico”.  Com a reintegração do Paraguai e o reconhecimento pleno da entrada da Venezuela, o Mercosul sairá mais fortificado. A China continuará aumentando sua presença na região. Até 2017 espera-se que os investimentos chineses cheguem a 400 bilhões de dólares anuais.

Além da brasileira, haverá uma série de eleições em todo o mundo. A lista completa pode ser consultada aqui: http://www.ndi.org/electionscalendar .

Destaques: o referendo constitucional no Egito, com eleições nacionais no final do ano, inclusive para presidente. El Salvador, Costa Rica, e Colômbia, neste último caso para o Parlamento.  Eleições nacionais no Uruguai, Índia, Turquia e Tunísia. Em fevereiro estão marcadas eleições nacionais na Tailândia, onde uma série de protestos de direita vem tentando derrubar a primeira-ministra Yingluck Shinawatra, acusada, entre outras coisas, de “populismo” e “corrupção”.

O Papa Francisco I vai continuar sua cruzada para tentar a recuperação da Igreja Católica depois da devastação de sua reputação nos últimos anos, enquanto o mundo continuará a debater as revelações de Edward Snowden sobre a espionagem da NSA norte-americana.

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