'Trabalhadores de aplicativo são os maiores exemplos de precariado', diz Ruy Braga

Sociólogo explica que país vive sob uma informalidade, convocado a esquerda para propor políticas mais radicais de proteção aos trabalhadores

Decisão judicial na Espanha abre caminho para mais direitos trabalhistas dos entregadores de aplicativos
Decisão judicial na Espanha abre caminho para mais direitos trabalhistas dos entregadores de aplicativos (Foto: Reuters)
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Opera Mundi - No programa 20 MINUTOS ENTREVISTA desta quarta-feira (13/10), o jornalista Breno Altman entrevistou o sociólogo Ruy Braga sobre as novas relações de trabalho na era dos aplicativos.

Especialista em sociologia do trabalho, Braga fala em “precariado” ao invés de utilizar o termo proletariado. Para ele, essa expressão indica uma fração precarizada da classe trabalhadora submetida às incertezas do trabalho e que "pendula entre o aumento da exploração econômica e a ameaça mais ou menos permanente de exclusão social e perda de direitos trabalhistas”. 

Apesar de afirmar que o fenômeno já está atingindo classes médias, de trabalhadores mais qualificados, “o maior exemplo de precariado são os trabalhadores de aplicativo”.

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“É uma tendência mundial. A desregulação do mercado de trabalho se somou ao aumento exponencial de startups. Hoje, você tem uma economia de plataformas, dominada por grupos de tecnologia e presentes em todos os setores. Então você vê o trabalhador dessas plataformas como o menos qualificado, numa relação totalmente informal e desprotegida. É uma relação muito mercantilizada”, explicou.

De acordo com Braga, a precarização é um fenômeno de certa forma inevitável à desindustrialização e um elemento estrutural do capitalismo. Assim, “o fim da precarização do trabalho depende da superação do capitalismo, porque está ligado à natureza da relação salarial que, por sua vez, está ligada à mercantilização, à volatilidade do mercado de trabalho”.

Consequências do precariado

O sociólogo discorreu sobre os efeitos “devastadores” da precarização do trabalho, principalmente nos sindicatos, que se enfraquecem ou não conseguem se constituir nos trabalhos informais.

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Ele explicou que durante a era lulista, por exemplo, o que havia no Brasil era uma sociedade com um projeto de industrialização. Por mais que houvesse a informalidade, o objetivo de conseguir um emprego formal estava no horizonte. Essa dinâmica de emprego está em declínio, já que “o horizonte da formalidade foi colapsando com o avanço do neoliberalismo”.

“Em aplicativos de entrega, os jovens não têm expectativas de se aposentar, não têm nenhuma proteção perante acidentes, por exemplo, e ainda são impedidos pelas empresas hightech de progredir na linha de acesso a direitos. É a nova informalidade: quem entra no mercado informal da economia de aplicativo nunca vai entrar no mercado formal. E aí é complicado exigir que os sindicatos façam frente a isso porque o projeto de sociedade mudou”, refletiu.

Com um cenário desses, Braga ponderou que estaríamos diante da ideia do desmanche das classes trabalhadoras, pois vão deixando de existir as antigas classes ligadas à industrialização. Consequentemente, numa sociedade que integrava pelo trabalho, passa a haver o “desmanche de identidades sociais”.

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“Afastados dos sindicatos, os trabalhadores não constroem mais suas identidades pelo trabalho. E, como permanece a dinâmica da individualização, da ideia falsa de que o trabalhador trabalha para ele mesmo, não ficam claros os interesses de classe, porque eles não estão assentados como interesses coletivos”, argumentou.

Isso não significa, contudo, que não existe a possibilidade de construção de uma coletividade, pois as identidades passam a se construir por outras formas. O sociólogo listou a religião, a cultura dos bairros e os movimentos sociais.

Para ele, é fundamental que a esquerda consiga conectar essas identidades com o trabalho, “pois o trabalho atravessa todas elas". "Sem a relação com o trabalho, essas lutas não vão conseguir avançar em direção a uma luta anticapitalista", disse o especialista.

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‘Esquerda pode mitigar os efeitos’

Braga se aprofundou no que ele considera como tarefas da esquerda no combate à precarização do trabalho. Ele reafirmou que, apesar de uma revolução ser a única forma de superar o fenômeno totalmente, governos de esquerda “podem mitigar essa realidade”.

Para tanto, o sociólogo defendeu a necessidade de uma esquerda mais radical para de fato atender as demandas das massas afetadas pela precarização e deu exemplos de políticas públicas nesse sentido.

“A informalidade não contribui com a Previdência nem com mecanismos de defesa ao trabalhador. A esquerda tem que apresentar soluções que protejam os trabalhadores sem exigir contribuição, por exemplo taxando os ricos, as empresas, ampliando o Bolsa Família e o Auxílio Emergencial. Sem isso, não vamos conseguir enfrentar o problema da precariedade”, enfatizou.

Simultaneamente, ele falou sobre a importância de criar um projeto de desenvolvimento sustentável e de se planejar para a recuperação do investimento capitalista para criar empregos e passar o precariado à formalidade.

“Não podemos aceitar a situação e falar na abolição dos trabalhos assalariados. Lula provou que é possível articular crescimento econômico com assalariamento. De momento, temos que, além de implementar políticas de segurança social, mobilizar a estrutura de assistência social, qualificar os trabalhadores e criar mecanismos para apoiá-los nesse momento de transição. Em algum momento o mercado vai se recuperar, vão aumentar os empregos e a gente precisa poder voltar a integrar essa massa pelo trabalho”, concluiu.

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