Visão econômica das greves

A reivindicação dos reajustes salariais pode impactar e engessar as manobras do governo contra o fraco desempenho da economia mundial e paralisar programas estratégicos de crescimento econômico

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A necessidade de um Estado brasileiro mais eficiente, menos oneroso, mais preparado para uma visão estratégica de macroeconomia e uma articulação capaz de externalizar ao povo uma melhoria social são temas recorrentes na discussão dos desafios a serem enfrentados e vencidos pelo Brasil para um salto qualitativo-econômico.

A eterna burocracia pública precisa sair de cena e ceder espaço para um melhoramento contínuo dos processos administrativos, ganhando contornos dinâmicos de gestão e apoiando o empresário em sua vocação de empreender.

O Estado não pode compactuar com ações de impedimento a constituição de empresas, por exemplo, nem muito menos ser fator negativo das avaliações de investimento, seja o aplicador interno ou externo. O Estado pode assumir a função de facilitador, de potencializador, de multiplicador, mas jamais de divisor, retentor e desqualificado.

Porém, nos últimos dias, teve-se uma sensação de que estamos próximos de uma greve geral dos serviços públicos, e não apenas na esfera federal, mas se alastrando em muitos níveis, até mesmo estaduais e em alguns casos municipais. Sob a esfera federal, estima-se que mais de 30 categorias estejam em greve.

Dentre as várias manifestações apresentadas pelas entidades sindicais, destaco o documento entregue pela CUT e outras seis entidades à OIT em sua sede de Brasília, que transcreve um agravo contra a Presidenta Dilma Rousseff, relatando uma condução arbitrária e totalitária dos conflitos grevistas, pedindo inclusive que o texto siga à sede da OIT na Suíça, solicitando sanções contra o governo brasileiro.

O Estado brasileiro está longe da paralisia européia e distante ainda dos déficits em sua contabilidade nacional, mas utiliza este argumento como primordial para não conceder os reajustes solicitados. E o faz de forma consciente, correta e necessária. Reitero as palavras do ministro Guido Mantega, de que o momento é de incentivar investimentos.

A qualidade dos serviços públicos em alguns segmentos não atinge um patamar mínimo de satisfação, e sua estrutura burocrática impede qualquer destravamento. A culpa então seria do funcionário ali alocado? De forma alguma. A responsabilidade passa pela forma ultrapassada como se desenhou a estrutura administrativa do governo federal, que, mesmo após anos de modernização econômica ainda não conseguiu estabelecer novas modelagens administrativas.

Lembro ainda que este problema não recai apenas na esfera federal, mas passa pela estrutura rígida de alguns estados e a falta de vontade política de se reformar as funções da administração pública.

Mesmo que ainda tenhamos folga em caixa, isso não significa que o cenário interno não possa mudar de forma muito mais rápida do que a piora do cenário externo, que transformaria o panorama brasileiro em uma grave situação.

Apesar da crise, a maioria dos países europeus se apóiam em modernos e eficientes sistemas de logística, de estruturas empresariais construídos ao longo de anos de crescimento, além de modernas relações econômicas. Nós, ainda estamos engatinhando neste temas, e uma crise por aqui, seria muito mais agressiva que por lá, pois estamos no meio de um processo de construção infraestrutural, por exemplo.

A reivindicação dos reajustes salariais pode impactar e engessar as manobras do governo contra o fraco desempenho da economia mundial e paralisar programas estratégicos de crescimento econômico. A alocação dos recursos federais, em linhas gerais, passa por programas fundamentais como Minha Casa Minha Vida, PAC e Bolsa Família (guardadas suas variações).

Ou seja, grandes partes dos recursos orçamentários já possuem um caminho estabelecido, com vultosos investimentos e uma capilaridade de retorno muito eficaz, beneficiando o mercado interno como um todo, ampliando até mesmo o mercado consumidor, incluindo mais brasileiros no giro econômico, e sendo assim uma alternativa ao modelo de crédito privado.

Soma-se ainda a rigidez no custeio de salários do funcionalismo público, que caso obtenham os reajustes exatamente na forma como querem, criaram um dispêndio muito alto.

Reside exatamente ai o ponto em que o governo federal tenta segurar a maioria dos reajustes salariais. Destaco ser justa a discussão para a melhoria dos salários, porém, o momento em que se apresenta o panorama econômico tanto interno quanto externo, é o fator crucial a prejudicar o atendimento às reivindicações.

O receio da equipe econômica do governo recai sobre um excesso de custeio "fixo" para a manutenção do orçamento, o que impediria um movimento mais arrojado caso o cenário econômico mundial piorasse.

Significa assim dizer que, o governo esta receoso em elevar os custos salariais, e reduzir sua folga orçamentária para possíveis desonerações, que precisam atingir um nível macro e contemplar setores estratégicos que ficaram de fora das primeiras medidas.

Como o governo já empreendeu reduções de impostos que aplacaram mudanças que reduzem no curto prazo seu volume de receitas, tal movimento de elevação dos custos com salários do funcionalismo poderá impossibilitar um equilíbrio orçamentário no avançar econômico. A visão precisa transpor o imediatismo do curto prazo. O custo seria transportado para os seguintes governos, que cada vez mais pegariam uma máquina federal gigantesca, cara e ineficiente.

A perda de receitas (não significa dizer que é baixa) impacta diretamente na ampliação das possibilidades de manobra do governo, ou seja, sua queda de arrecadação diminui o capital disponível para custear a elevação dos salários, que analogamente a eles, aumentaria posteriormente o déficit previdenciário e se tornaria pesadamente oneroso no passar dos anos, uma vez que a tendência é sempre de elevação dos custos salariais.

Mais uma vez a população vem sofrendo com o desserviço público, que em algumas reivindicações ultrapassam a realidade econômica brasileira. O governo precisa alinhar suas expectativas com a categoria, garantindo à população a manutenção dos serviços. Às categorias em greve, devem-se valer o bom senso e analisar as propostas concretas, lembrando-se do momento delicado pelo qual a economia mundial passa e o patamar salarial brasileiro.

Antônio Teodoro é economista e professor

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