Lula e Flávio Bolsonaro

Lula cresce e Flávio desaba: o bolsonarismo paga o preço de sua ruína moral

A equação mudou. A retórica moralista que outrora serviu de trampolim para essa ala política agora desmorona diante da revelação das práticas criminosas

Os mais recentes resultados divulgados pelo Datafolha desenham um ponto de inflexão. A fotografia das intenções de voto capturada pela pesquisa não apenas reorganiza as forças para a disputa presidencial, mas funciona como um severo veredicto da opinião pública, inclusive entre parcelas mais à direita, sobre a moralidade do candidato Flávio Bolsonaro (PL). O dado central é cristalino: houve uma inflexão, e o eleitorado começa a cobrar o preço de um escândalo que extrapola os limites da decência.

Em termos numéricos, o recuo do senador Bolsonaro é o indicador mais emblemático desse novo momento. No cenário de primeiro turno, Flávio, que sustentava 35% das intenções de voto na pesquisa anterior, há cerca de uma semana, sofreu queda acentuada, recuando para 31%. No sentido oposto, em um movimento de consolidação e gradual recuperação de sua aprovação, o presidente Lula (PT) oscilou positivamente de 38% para 40%, ampliando a distância na liderança. Em uma semana, a liderança de Lula multiplicou-se por três, saltando de 3 para 9 pontos percentuais.

Quando projetado o cenário de segundo turno, a erosão do bolsonarismo fica também evidente: Lula avançou para 47%, enquanto Flávio Bolsonaro recuou para 43%, revertendo a liderança numérica que o parlamentar ostentava em levantamentos passados. Ademais, o senador agora lidera o índice de rejeição, com 46% dos eleitores afirmando que não votariam nele de jeito nenhum.

Esta retração de Flávio Bolsonaro tem nome, áudio e engrenagem. Trata-se da resposta direta dos eleitores às revelações devastadoras trazidas a público pelo Intercept Brasil. A investigação expôs as entranhas do escândalo que ficou conhecido como "Bolsomaster": a associação íntima — inicialmente negada de forma peremptória pelo senador — entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Vorcaro é acusado de comandar a maior fraude bancária da História. Foram apurados até agora desvios que totalizam R$ 60 bilhões com base em títulos sem lastro e corrupção de agentes públicos que se acumpliciaram com Vorcaro para lesar milhares de pensionistas e clientes do Banco Master.

O enredo ganha contornos de absoluta desfaçatez na operação de financiamento de Dark Horse, a cinebiografia destinada a mitificar a trajetória de Jair Bolsonaro. Os documentos, mensagens e áudios revelados demonstraram que os recursos milionários para a superprodução — estimados em até R$ 134 milhões, com pelo menos R$ 61 milhões efetivamente integralizados — provinham da quadrilha financeira instalada no Master. É evidente que o filme, ao menos parcialmente, não passou de uma vultosa operação de fachada para esquentar capitais inconfessáveis, utilizando fundos no exterior para ocultar os reais beneficiários: o clã Bolsonaro.

Na semana que passou, junto a correligionários em união cúmplice, não teve Flávio outra saída senão admitir ter visitado o dono do Banco Master em casa, em São Paulo, após Vorcaro passar dez dias preso, em novembro de 2025.

A verdade veio à tona depois de ele negar publicamente conhecer o protagonista do desfalque, a quem, em mensagens privadas, tratava como irmão.

O impacto eleitoral capturado pelo Datafolha sugere que uma parcela significativa da população, inclusive cidadãos de inclinação conservadora que inicialmente cogitavam apoiar o filho do ex-presidente, recusa-se a ignorar o crime. Flávio Bolsonaro, por algum tempo, foi vendido por uma parcela dos comentaristas da mídia neoliberal como uma face "civilizada" e palatável do bolsonarismo. Para quem tinha dúvidas, seu verdadeiro ethos foi agora explicitamente revelado pelos fatos.

A ligação de Flávio com Vorcaro não é um ponto fora da curva, mas o mais recente episódio de uma trajetória marcada pelas tramas nos porões: desde a infâmia das "rachadinhas" em seu antigo gabinete na Assembleia do Rio até o emprego, no mesmo gabinete, para a mãe e a esposa do falecido miliciano e assassino de aluguel Adriano da Nóbrega.

Diante do espelho da opinião pública, o bolsonarismo expõe seu atual impasse estratégico. Encurralados pelas próprias mentiras, Flávio e o bolsonarismo parecem ter abandonado a pretensão de construir uma maioria viável para derrotar o projeto de Lula. Convertem-se em uma força defensiva, mais preocupada em manter a hegemonia sobre o nicho do eleitorado radicalizado do que em dialogar com a totalidade do país. Priorizam manter a liderança de uma eventual oposição a um quarto mandato de Lula. Bloqueiam, por ora, os flertes de parcelas da direita, da Faria Lima, do agro e dos evangélicos com a substituição de Flávio por outra alternativa.

O efeito comparativo com o presidente Lula torna-se, portanto, inevitável e pedagógico para o eleitor. Enquanto o atual mandatário colhe os frutos de uma percepção de estabilidade institucional e econômica, seu principal contendor de extrema-direita desidrata ao ter sua verdadeira identidade exposta, tal como ela de fato é, diante dos olhos do país. Como se recuperar disso?

A equação mudou. A retórica moralista que outrora serviu de trampolim para essa ala política agora desmorona diante da revelação das práticas criminosas que falsamente prometia extirpar. Por trás do verniz moralizante da extrema-direita, o que habita é o mais antigo e profundo desprezo pelos cidadãos.

Redação Brasil 247 avatar
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