HOME > Empreender

DJ relata os desafios de viver de arte em tempos de redes sociais

Pesquisador musical e curador de festivais, DJ Goulart detalha como construiu carreira entre a pista de dança, o empreendedorismo e a presença digital

DJ relata os desafios de viver de arte em tempos de redes sociais (Foto: Divulgação)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Beatriz Bevilaqua, 247 – Há trajetórias em que a música não surge como escolha profissional imediata, mas como resultado de experiências acumuladas que vão moldando escuta, repertório e identidade. É assim que o DJ Goulart, nome artístico de Felipe Goulart, descreve sua relação com o som, atravessada por vinis, rádio doméstico, violão clássico e, mais tarde, pelas pistas de dança.

Pesquisador da música brasileira, do rare groove e do jazz, ele também atua como curador do projeto Jazz no Galpão e de festivais do gênero. Ao longo da carreira, dividiu espaço com nomes como o pesquisador musical Zuza Homem de Mello, além de abrir shows de artistas como Ney Matogrosso e Lulu Santos e participar da turnê de despedida da banda Skank.

De formação musical iniciada ainda na infância, o DJ cresceu entre influências distintas: da música sertaneja e regional, herdada da origem rural do pai, ao contato com o rock e o estudo formal de música, o que contribuiu para uma escuta mais ampla e plural.

A virada da pandemia 

O período pandêmico foi decisivo. Ele relata a experiência como sócio de uma franquia de cerveja artesanal que acabou encerrando as atividades durante a crise sanitária. A partir disso, a música deixou de ser apenas uma frente entre outras e passou a ocupar o centro de sua atuação profissional.

“Foi a partir da pandemia que eu foquei 100% na música.” Nesse período, passou a realizar transmissões ao vivo quase diárias, criando uma espécie de rádio online independente. A iniciativa ampliou sua rede de contatos e aproximou artistas e profissionais que, fora do isolamento, dificilmente estariam disponíveis.

Hoje, sua atuação vai além da cabine. Ele administra redes sociais, produção de conteúdo, edição de vídeos e seleção de imagens, uma rotina que evidencia a crescente autonomia exigida de artistas independentes.

A lógica digital também impacta a forma de se manter relevante no mercado. Para ele, a presença constante nas redes precisa caminhar junto da circulação presencial. “Tem que ter planejamento de rede social, mas também é muito importante visitar os locais e conhecer as pessoas pessoalmente”, explica.

Música, memória e impacto cultural

Ao longo da entrevista, um elemento atravessa todas as respostas: a música como memória afetiva. Para o DJ, a conexão do público com as faixas vai além da técnica ou do hit do momento, passando pelo vínculo emocional construído ao longo do tempo. “A música está conectada ao que foi vivido, à época em que você conheceu aquele som, à tribo a que você pertenceu.”

Essa dimensão também aparece quando ele cita referências como Michael Jackson, artista que, segundo ele, sintetiza a ideia de performance total ao unir múltiplas habilidades como canto, dança, presença de palco e construção estética em uma linguagem altamente reconhecível e emocional. Para o DJ, artistas com esse tipo de impacto ajudam a entender como a música ultrapassa o campo estritamente sonoro e se torna um fenômeno cultural mais amplo, capaz de atravessar gerações, criar memória coletiva e influenciar comportamentos. 

A trajetória de DJ Goulart expõe um cenário em que a música no Brasil é também uma prática de sobrevivência e gestão. Entre eventos, redes sociais, curadoria e performance, o trabalho artístico se entrelaça com decisões de empreendedorismo e reinvenção constante.

Se, por um lado, a tecnologia ampliou possibilidades de circulação e autonomia, por outro tornou o trabalho mais contínuo e menos delimitado entre vida pessoal e profissional. Nesse contexto, viver da música exige estratégia, adaptação e presença.

Assista à entrevista na íntegra: