Gracino vê Flávio Bolsonaro em situação delicada com evangélicos e sinaliza que políticas públicas serão cruciais para a eleição
Em entrevista à TV 247, o sociólogo vê caso Master afetar pré-campanha do senador e aponta vínculo de Lula com trabalhadores como fator central em outubro
247 – Doutor em sociologia e especialista em religião, Paulo Gracino Júnior afirmou nesta semana, em entrevista ao programa Giro das Onze, que o bolsonarismo está perdendo votos do segmento evangélico por causa dos escândalos envolvendo o Banco Master e pela falta de representação desse eleitorado durante o governo Jair Bolsonaro (PL).
Em participação na TV 247, o analista afirmou também que as políticas públicas defendidas pelo PT e pelo campo progressista brasileiro serão cruciais para definir quem será vitorioso na eleição presidencial. "PT vai ganhar eleição com política pública", afirmou o sociólogo, acrescentando que o governo Lula "tirou o país do Mapa da Fome". Gracino disse também que a gestão do presidente tem "conseguido penetrar na classe dos trabalhadores".
Ao comentar sobre a extrema direita brasileira, o especialista em religião disse enxergar um estrago na pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e afirmou que "parte da base evangélica não se vê contemplada pelo bolsonarismo". "Evangélicos não têm mais a hegemonia no campo conservador", acrescentou.
Saída do Mapa da Fome: conquista histórica
Entre 2022 e 2024, o Brasil teve, em média, menos de 2,5% de sua população em condição de subalimentação. O índice consta no relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo (SOFI) 2025, elaborado conjuntamente por cinco agências da ONU.
Pelo critério técnico adotado pelos países membros da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), esse resultado indica que o país deixou o Mapa da Fome.
Os números sobre insegurança alimentar grave também mostram melhora. A taxa caiu de 6,6%, registrada no período de 2021 a 2023, para 3,4% no triênio de 2022 a 2024. Com essa redução, quase 7 milhões de pessoas saíram dessa condição.

Polêmica do Dark Horse
Conforme destacou o sociólogo, parte do desgaste da pré-campanha do senador está associada ao repasse de R$ 61 milhões do controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, para o filme Dark Horse, retrato biográfico de Jair Bolsonaro.
"Problema para o Flávio que é difícil de ser contornado (Master)", continuou Gracino, complementando que o valor repassado representou uma "contribuição polpuda" para o longa sobre o ex-mandatário, que cumpre prisão domiciliar após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos de prisão no inquérito da trama golpista.
Controlador do Master, Vorcaro também está detido e em processo de colaboração premiada. A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, investiga um esquema de fraudes financeiras que, segundo a corporação, movimentou ao menos R$ 12 bilhões.
A PF rejeitou a proposta de delação feita inicialmente pela defesa do ex-banqueiro e alegou "seletividade" dos fatos. "Vazamentos seletivos são estranhos", alertou o sociólogo sobre a proposta feita pelo empresário investigado. O empresário fez uma nova proposta de delação, mas investigadores avaliam que ainda não foi possível colher elementos inéditos.
Aumento do número de eleitores evangélicos
Os evangélicos ampliaram sua presença no Brasil entre 2010 e 2022, segundo dados do Censo Demográfico, ao passar de 21,6% para 26,9% da população de dez anos ou mais. No mesmo período, os católicos apostólicos romanos perderam participação, caindo de 65,1% para 56,7%, enquanto o grupo sem religião avançou de 7,9% para 9,3%.
A queda entre os católicos foi de 8,4 pontos percentuais em relação a 2010. Os evangélicos cresceram 5,2 pontos percentuais, e as pessoas sem religião registraram aumento de 1,4 ponto percentual.
O espiritismo também perdeu espaço, passando de 2,2% em 2010 para 1,8% em 2022, queda de 0,3 ponto percentual. Umbanda e candomblé seguiram trajetória inversa: subiram de 0,3% para 1,0% no período, avanço de 0,7 ponto percentual.

Regiões
Apesar da redução, o catolicismo seguiu como religião majoritária em todas as grandes regiões do país em 2022. A maior presença católica apareceu no Nordeste, com 63,9%, e no Sul, com 62,4%. Os evangélicos tiveram maior peso no Norte, onde chegaram a 36,8%, e no Centro-Oeste, com 31,4%.
O Sudeste concentrou a maior proporção de espíritas, com 2,7%, além do maior percentual de pessoas sem religião, com 10,5%. Umbanda e candomblé tiveram presença mais expressiva no Sul, com 1,6%, e no Sudeste, com 1,4%.
Entre as faixas etárias, os católicos continuaram como maioria em todos os grupos. A participação variou de 52,0% entre pessoas de dez a 14 anos a 72,0% entre aquelas com 80 anos ou mais.
Cor, raça e educação
Por cor ou raça, o catolicismo predominou em todas as categorias e chegou a 60,2% entre pessoas brancas. Entre indígenas, os evangélicos registraram a maior proporção, com 32,2%. Pessoas de cor ou raça amarela apresentaram os maiores percentuais de espíritas, com 3,2%, de outras religiosidades, com 13,6%, e de pessoas sem religião, com 16,2%.
Os grupos ligados a tradições indígenas e os católicos tiveram as maiores taxas de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais, com 24,6% e 7,8%, respectivamente. As menores taxas apareceram entre espíritas, com 1,0%, e umbandistas e candomblecistas, com 2,4%.
No recorte educacional, os espíritas apresentaram a menor proporção de pessoas sem instrução e com ensino fundamental incompleto, 11,3%, e o maior percentual de pessoas com ensino superior completo, 48,0%.



