“Só se sente o racismo no Brasil quando se é preto e pobre”

Iziane Castro Marques, primeira brasileira preta a se projetar no basquete, nacional e internacionalmente, nasceu num quilombo em São Luís do Maranhão e com 21 anos já jogava nos Estados Unidos. Confira a íntegra de sua entrevista ao 247

Iziane Castro Marques, atleta de basquete
Iziane Castro Marques, atleta de basquete (Foto: Divulgação/COB)
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Por Maria Assunção Arraes de Moraes e João Victor dos Santos, especial para o 247

Iziane Castro Marques foi a primeira brasileira preta a se projetar no basquete, nacional e internacionalmente. Nascida preta e pobre no maior quilombo urbano da América Latina, o Quilombo Liberdade, em São Luís do Maranhão, aos 21 anos ela já estava nos Estados Unidos, jogando pelo Miami Sol e era a mais jovem atleta da liga da modalidade naquele mais. Isso foi em 2002, quando ela já integrava a Seleção Brasileira. Em 2004, participou dos Jogos Olímpicos. Ainda nos Estados Unidos, jogou pelo Phoenix Mercury e pelo Seattle Storm, antes de voltar para o Brasil em 2011. No quilombo, ela criou um instituto que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, oferecendo, entre outras oportunidades, a de se iniciarem na prática do basquete.

Iziane é hoje a única mulher preta a integrar o Comitê Olímpico Brasileiro e é também dirigente técnica no Clube Sampaio Corrêa. Ela recorda que nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 1964, a delegação brasileira contava com apenas uma mulher negra, Aída dos Santos. Agora, 56 anos depois, outra geração de atletas mulheres e negras participará dos novos Jogos Olímpicos de Tóquio, com uma delegação que será muito maior.

Quando você saiu do Maranhão, em 1997, muito jovem, imaginou que, entre outras dificuldades, teria que lidar com o racismo?

Iziane Castro Marques – Não, até mesmo porque o racismo sempre foi velado em nosso país. Então, obviamente, quando saí daqui eu não tinha ideia desse tipo de coisa. Eu fui criada por mulheres pretas e fortes que me ensinaram a saber quem sou, qual meu papel e que ninguém pode julgar ninguém por questão da cor de sua pele, ou por religião. Fui uma criança que cresceu com esses princípios dentro de casa, então eu sempre entendi o meu papel, mas a gente não tem noção, por que se trata de realidade bem diferente de hoje. Estamos falando de 20 anos atrás.

Aos 21 anos de idade, você já atuava entre as melhores do mundo jogando pela WNBA (Liga de Basquete Americana Feminina). Naquela época, você tinha noção do poder da sua voz como mulher e atleta negra?

Na verdade, fui perceber o impacto da minha pessoa enquanto atleta e mulher preta nos contatos com as pessoas. Eu tenho uma lembrança muito nítida de um dia que eu estava em uma loja e uma senhora negra veio e me abraçou. E eu vi no rosto dela a felicidade por se sentir representada por uma mulher preta que atuava pela seleção brasileira, uma pessoa de sucesso. Ali, eu senti a força do que eu representava enquanto mulher preta, principalmente para os meus, aqui no Maranhão.

No Brasil se convive com o racismo de diversas maneiras. Quando jovem você foi preparada para lidar com esse mal no meio esportivo?

Não. Hoje existem programas contra o racismo e contra o assédio dentro do Comitê Olímpico Brasileiro, mas esses programas são recentes, de 2020. Obviamente que a minha geração não foi preparada para isso. As sociedades esportivas, clubes, seleções, confederações, estão se adequando a isso que existe há muito tempo. Além de ser preta, eu também sou mulher em um esporte considerado masculino. Portanto, existem vários outros tipos de preconceito que envolvem toda minha trajetória. Os atletas não são preparados para isso e por isso hoje existe a necessidade desses projetos de combate tanto ao racismo, quanto ao machismo e ao assédio, porque as pessoas estão podendo ter voz. E quando você tem voz, começa a mover a sociedade e os outros começam a tomar providências para capacitar seus atletas e desenvolver seus cidadãos para enfrentar o racismo.

O que você acha que motiva esse atraso das instituições esportivas no combate ao racismo?

Só é implantado um projeto ou um programa quando realmente a sociedade clama por uma mudança e foi isso que aconteceu após essas ondas que vieram dos Estados Unidos. As pessoas começaram a falar, mostrar que existe o racismo e nós precisamos falar sobre isso e educar nossa sociedade. Então, quando se tem uma explosão do tema, criam-se as soluções e acho que a partir disso aparece o desenvolvimento desses programas de forma tão tardia, porque a voz demorou a ser escutada. Não adianta só a “Iziane” falar, a “Iziane” tem que mobilizar todo um grupo e esse grupo precisa mobilizar todo um outro grupo e assim nós teremos a força para poder mudar e propagar.

Por que o racismo ainda é um tabu dentro do esporte brasileiro?

Porque não discutimos. Quando ocorre um caso, não divulgam, não se mobilizam e isso é dever de todos. Eu me lembro das hashtags que já foram feitas mas não pode ser só com hashtag. Sabemos que abolir o racismo estrutural não é só com o ato da “Iziane” falar, mas trazer todo um ciclo de atletas para falar, trazer os dirigentes e os técnicos. Eu sinto que nossa classe é um pouco desunida em relação a isso, a rivalidade da quadra acaba indo para fora dela e não nos entendemos enquanto um grupo, não conseguimos ter um time que aborde, que fale, que lute, que brigue e isso é necessário. Acho que é por isso que não conseguimos ter uma discussão ou um posicionamento de um clube ou da comunidade esportiva. Mas a partir desses novos projetos que o Comitê Olímpico está desenvolvendo, nós teremos mais pessoas capacitadas para também serem propagadores de como reagir enquanto pessoa preta, e assim estaremos mais preparados para enfrentar a discriminação e sensibilizar outras  pessoas para o fato de que somos todos iguais.

Você já foi aconselhada por dirigentes ou outras pessoas a não falar sobre racismo?

Não, inclusive essa é uma discussão que quase não se tinha. Hoje, vemos muitas pessoas falarem de algo tão necessário, mas em toda minha carreira não se falou muito sobre isso, eu não presenciei esse tipo de atitude e nem fui incentivada a me colocar. Realmente nunca fomos educadas para falar qualquer coisa sobre o racismo.

Por que atletas brasileiros ainda optam pelo silêncio quando se trata de se posicionar sobre o racismo?

Eu também quero saber, acredito que seja vergonha. Eu nunca sofri nenhum tipo de racismo ou preconceito dentro do meu trabalho. E, se tivesse sofrido, com certeza iria fazer uma arruaça, pararia o jogo porque racismo é crime e precisamos nos posicionar, não podemos deixar nenhum passar, nunca! Temos que nos posicionar sempre, mas é também por se sentir inferiorizado, humilhado naquele momento que algumas pessoas não reagem. Tudo isso vem dessa falta de esclarecimento sobre como se comportar diante de um ato racista, ou até mesmo de um ato de assédio. Precisamos realmente aprender a dialogar sobre isso, porque não se pode deixar que nenhum ato racista passe em branco. Então é muito importante que a gente tenha essa consciência.

Como você analisa a sua atuação nas causas antirracistas no esporte enquanto atleta?

Eu sempre acreditei que temos de liderar pelo exemplo, e foi isso que sempre fiz. Nunca abordei diretamente esse tema, até mesmo porque não se debatia sobre isso. Mas você tinha pedido a minha apresentação no início e minha apresentação é a seguinte: “Oi, eu sou Iziane. Nasci preta, pobre, da Liberdade”. Para mostrar que sou preta, não sou negra, sou preta de pele preta e tenho muito orgulho de ser preta, de ser mulher, de ser nordestina e eu sempre me apresentei dessa forma com orgulho, para mostrar principalmente para os mais novos que temos orgulho de quem somos, do que somos e do que nos tornamos. Então, o meu posicionamento sempre foi dessa forma, principalmente por ter sido uma menina que nasceu no quilombo, pobre, eu sempre enfatizei essas coisas para mostrar como é importante essa referência positiva hoje. Não tive tanta voz em relação às questões raciais, mas hoje, com vocês e com quem quer que seja, em qualquer lugar, estou sempre pronta para falar e conversar sobre um tema que é muito importante. Mostrar a nossa importância e o nosso valor, é isso que tentei ser enquanto atleta e  personalidade do nosso estado.

Em alguma situação, acha que poderia ter agido de modo diferente?

Com certeza, a vivência nos dá essa percepção. Eu não concordo com essa narrativa de que as pessoas não mudam. Somos um ser em evolução até morrer, aprendemos todos os dias, ninguém é o dono da verdade. Então hoje, eu tenho uma percepção de coisas que poderia ter feito diferente, poderia ter feito de modo melhor, de coisas que eu não deveria ter feito. Infelizmente o tempo não volta atrás, a bagagem que adquirimos, nós usamos daqui para frente.

Recentemente a jogadora brasileira na WNBA Damiris Dantas apontou racismo por parte da liga americana pela pouca valorização de jogadoras como Janeth Arcain e você. Concorda com ela?

O basquete é um dos poucos esportes que não renovou seus ídolos, as pessoas continuam a falar de Hortência e Paula, não valorizaram as novas  gerações: a da Janeth, a minha e as próximas, que a própria Damiris representa. Não vejo isso como racismo, talvez seja, não sabemos as intenções das pessoas. Talvez seja mesmo a falta de estrutura da nossa Confederação Brasileira de Basquete, que teve uma gestão fatídica. Hoje sofremos o descaso da gestão passada. Obviamente que deveríamos, sim, ter enaltecido mais essas jogadoras e a própria Janeth, que foi uma das maiores vitoriosas do basquetebol feminino. E por que não enfatizar que é uma mulher preta? Eu acho que concordo com ela em relação a isso, não sei se foi racismo realmente ou se foi a nossa estrutura do basquete, mas poderia ter sido enfatizado que após duas “ídolas” brancas tivemos aí duas “ídolas” pretas. Por que não enfatizaram isso?

Você viveu em dois países impregnados pelo racismo. A partir da visão de quem morou fora, como você definiria a problemática racial no Brasil e nos Estados Unidos?

O Brasil tem um racismo velado, é um racismo que existe, mas a gente não vê, a não ser que você seja preto ou pobre. Mas nos Estados Unidos ele existe em qualquer classe social, é notória essa divisão entre pretos e brancos. A população preta nos Estados Unidos ainda é muito sentida com toda a segregação que sofreu, acho que a geração atual cresceu como se ela mesmo tivesse sofrido essa segregação. E com a população preta brasileira não é dessa forma, a escravidão acabou em 1800, para nós acabou, não vivemos mais nesse contexto. Obviamente que sofremos as consequências da escravidão, mas eu vejo essa diferença entre Brasil e Estados Unidos. Eu vejo uma revolta da parte da população negra em relação a tudo que passaram e a toda essa problemática, que é muito dura. Mas não resolvemos as coisas na base do ódio, se resolve na base do amor. E acaba tendo esses conflitos e mortes desnecessárias, porque não se muda as pessoas assim, você tem que educar as pessoas e isso só é possível através do amor.

Você, mulher negra, ocupa o cargo de dirigente no Sampaio Corrêa. Passou a comandar uma área diretiva dentro de um clube importante. Como está sendo a experiência?

E única! É mais um desafio ser dirigente esportiva enquanto mulher. Eu sou a única dirigente esportiva preta dentro do basquetebol feminino, quase não temos dirigentes mulheres e quando não se tem mulheres, imagine pretas. Mas para mim é um orgulho muito grande, e convenhamos, o esporte brasileiro tem muito mais pretos do que brancos. Hoje entendo que são lugares de destaque onde nós não temos muitas iguais a mim mas, se for preciso, serei sempre a pioneira, desbravarei. Sei o meu papel de direito, não me sinto menor dentro do ambiente em que a maioria é de homens brancos. Eu entendo o meu poder enquanto atleta que fui e hoje, indo para o lado da gestão esportiva, que é algo a que tenho me dedicado muito, me capacitei, e talvez seja melhor que muitos homens brancos que estão no ramo. Eu tenho muito orgulho de ter sido precursora, sendo uma mulher preta, abrindo portas para que outras também se inspirem e possam ocupar seu lugar de direito, porque podemos estar onde nós quisermos.

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