A segunda batalha de Lula

Depois de vencer o cncer na laringe, cujo tumor, de acordo com os mdicos, desapareceu, ex-presidente tem pela frente uma pneumonia leve; doena comum em quadros como o dele; lutador histrico, Lula junta foras para ganhar mais esta

A segunda batalha de Lula
A segunda batalha de Lula (Foto: PEDRO LADEIRA/Agência Estado)

247 – Até mesmo para um cabra calejado por duríssimas provas da vida – praticamente abandonado pelo pai, pau de arara nos plúmbeos anos 60, um irmão barbaramente torturado e que teve sua primeira mulher morta na sala de parto na qual ambos esperavam a chegada do primeiro filho --, os últimos dias foram especialmente angustiantes para o coração e a mente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de vencer, à base de invasivas baterias de quimio e radioterapias, um tumor na laringe diagnosticado em outubro do ano passado, Lula deu mostras de toda a sua determinação em transpor mais um difícil e perigoso obstáculo em sua trajetória. Ele foi um exemplo não apenas para os que têm câncer – sempre acreditando num dia melhor que o anterior --, mas a todos os que enfrentam dificuldades. Encarando seu problema, Lula mais sorriu do que lamentou.

Do ponto de vista científico, relata a Agência Estado, a possibilidade de uma pneumonia se abater sobre um paciente que tem ou teve recentemente câncer na laringe é maior. Acompanhe:

Agência Estado - Pessoas em tratamento de câncer de laringe ou de pulmão têm maior chance de contrair pneumonia, se ainda apresentarem lesões ativas nessas áreas. A avaliação é da coordenadora da oncologia clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, Pilar Esteves Diz. Segundo ela, essas lesões podem elevar a produção de secreção ou impedir a saída de fluídos naturais do pulmão, criando um ambiente favorável para que bactérias e vírus oportunistas se alojem no sistema respiratório.

Outro fator que contribui para a incidência de pneumonia em pacientes com câncer de laringe são as lesões próximas à garganta que dificultam o ato de engolir. 'Nesses casos, pode haver aspiração de saliva e isso favorece a pneumonia', explica Pilar. Desde o início do tratamento, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem tido dificuldade para se alimentar e vem se submetendo a uma dieta baseada em comidas pastosas.

Segundo ela, o tratamento depende das condições imunológicas do paciente que só a contagem de glóbulos brancos pode revelar -, da sua faixa etária, das condições respiratórias e da extensão e tipo de pneumonia, que pode ser causada por bactéria, vírus ou fungo. Porém, nem sempre os exames conseguem identificar o agente causador da pneumonia e é comum que quadros virais evoluam para bacterianos se não forem tratados com rapidez, segundo a médica.

Tratamento de Lula vai durar 14 dias

O oncologista Artur Katz, que integra a equipe que cuida de Lula, informou nesta segunda-feira, 5, que o tratamento contra a pneumonia do ex-presidente deve durar até duas semanas, o que não significa que o ex-presidente terá de permanecer internado, ao longo de todo esse período, no Hospital Sírio Libanês, na capital paulista. 'Normalmente são de 10 a 14 dias de antibióticos, mas não obrigatoriamente esse período (de tratamento) se dará no hospital. Uma vez consolidada a melhora ele pode tomar os antibióticos em casa.'

Lula foi internado no domingo, 4, com febre baixa e com dificuldade para engolir. Segundo o médico, o ex-presidente já se sente melhor e vem respondendo bem ao tratamento. De acordo com Katz, a pneumonia é uma reação considerada natural ao tratamento que provocou a redução da imunidade de Lula, além de queda de peso e de seu ânimo geral, encerra a AE.

Uma vez vencido o câncer na laringe, a verdade é que foi como se o ex-presidente respirasse aliviado e, neste momento, baixasse a própria guarda. Esse movimento de relaxamento despertou, segundo amigos e parentes que o visitaram recentemente, o que parece ser uma profunda sensação de cansaço e alguma apatia. O ex-presidente teve, antes de contrair a leve pneumonia que o levou, na segunda-feira 6, de volta a uma internação no hospital Sírio-Libanês, sinais de perda de apetite, fadiga e o que alguns podem interpretar como toques de depressão. Lula, que é um falador de primeira, passou a andar mais calado. Há a possibilidade de que sua voz venha a ser afetada, num grau ainda incerto, e isso, para ele, projeta praticamente o fim dos tempos de palanques e de corpo a corpo com o povo. O homem da viva voz já pensa nele mesmo como mais um ente eletrônico do que como mais um no chão da rua. Uma perspectiva que, profundamente, o desagrada.

Irriquieto desde sempre, voluntarista, como se diz na gíria da esquerda para quem assume pessoalmente as tarefas mais árduas, e líder por natureza, Lula já vai completando cinco meses de confinamento em seu apartamento de cobertura em São Bernardo do Campo. Se fosse um político de bastidores, a diferença sentida seria menor. Mas não para ele, que tem na receita de permanecer entre quatro paredes e dois andares de sua residência algo semelhante a uma sentença de prisão.

Para não ficar só, Lula gosta da casa cheia. O que parecia, porém, ser um elemento de estímulo – a verdadeira romaria de políticos que, semana sim, semana sim, o procuram para conselhos em plena convalescência --, na prática se mostra um fator de atraso em termos de tratamento. O repouso que Lula demanda para si mesmo é a todo momento interrompido por questões políticas que vão da reforma ministerial à eleição para prefeito de São Paulo, passando por orientações amiúde ao PT e, até mesmo, despachos no Instituto da Cidadania. Uma agenda à altura de sua influência, mas contraproducente, de a a z, com o momento.

O abatimento pessoal de Lula, registrado antes desta internação no Sírio, pode ter tido contribuição direta desse quadro geral de excesso de compromissos.

Lula, numa atitude corajosa e inédita, determinou que todas as fases do seu tratamento se dessem às claras do público. É assim que uma de suas companhias mais constantes é o fotógrafo Ricardo Stuckert, que chefiou o departamento de imagens da Presidência. Mas há, nota-se, um exagero que, a partir de agora, precisa ser corrigido em nome da plena recuperação do presidente mais popular do Brasil. Efetivamente é preciso deixar Lula tomar seu próprio tempo e descansar.

 

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